LONDRINA (vamos ver…) – Aí que choveu, claro. Entre o último treino livre e a classificação. Um toró de proporções bíblicas (adoro essa expressão) desabou sobre Spa e foi engraçado porque os chefes de equipe estavam todos reunidos no motorhome da Mercedes para decidir os destinos do planeta. Muitos tiveram de voltar para casa ostentando guarda-chuvas prateados do time rival.
Na pista, a dúvida era, claro, qual pneu usar. Com que roupa que eu vou?, perguntavam todos. Os pneus para chuva forte não eram necessários, porque a água tinha parado de cair. Apesar do frio, e de a pista não dar a menor pinta de secar, intermediários foram a escolha da maioria, e foi com esses que todos fizeram seus tempos.
Roda daqui, escapa dali, e deu o que se esperava: Mercedes em primeiro e segundo com Rosberguinho e Hamilton, Williams em terceiro e quarto com Massa e Bottas. ergne, Raikkonen, Ricciardo, Vettel, Alonso e Kvyat fecharam os dez primeiros. Dançaram Maldonado, Hülkenberg, Chilton, Gutiérrez, Lotterer e Ericsson. Muito bem, o alemão estreante. Andou, no molhado, na frente de Sonyericsson. E o destaque foi Bianchi, em 14°. 2min07s130 foi o tempo de Rosberguinho, o líder. No seco, os ponteiros estavam virando em 1min49s.
O Q2 começou com garoa em alguns trechos da pista. Também é normalíssimo em Spa chover num canto e fazer sol em outro. A chance, até o fim da classificação, de alguém usar pneu slick era zero. Passar ao Q3 seria questão de encaixar uma volta sem erros, sem passear em nenhuma área de escape, sem rodar. Na Bélgica, a definição do grid é particularmente tinhosa porque as voltas são longas. Na chuva, mais de dois minutos. Não se pode dar chance ao azar, nem ficar embaçando nos boxes. Quem pensa muito se estrepa.
E deu a lógica de novo, com Mercedes faazendo 1-2, Comandante Amilton na frente com 2min06s609. Já tinha virado na casa de 2min07s baixo antes, mas não quis nem saber. Voltou à pista no finalzinho do Q2 para não deixar nenhuma dúvida sobre suas intenções. Não sei se esse tipo de pressão psicológica sobre a concorrência — no caso, Rosberguinho — funciona. O risco maior, do jeito que estava a pista, era carimbar um muro. Mas Lewis tem dessas coisas. E Nico chegaria perto, mesmo, coisa de 0s1.
Rodaram na segunda degola, também numa lógica inatacável, Kvyat, Vergne, Pérez, Sutil, Grosjean e Bianchi. Passaram ao Q3 as cinco duplas das grandes: Mercedes, Red Bull, Williams, Ferrari e McLaren. Às vezes, a chuva embaralha tudo. Em outras, não embaralha nada. A vida é muito doida.
No Q3, até saiu um solzinho. Mas era pneu intermediário para todos. Hamilton errou em sua primeira tentativa e virou na casa de 2min11s. Rosberguinho cravou 2min05s698. Pressão no inglês. Lewis emendou uma segunda volta rápida e se garantiu em segundo, mas bem longe de Nico: 0s697. Os outros, lá atrás, brigavam a distâncias astronômicas, coisa de mais de dois segundos em relação à Mercedes.
A turma toda deixou para fazer suas últimas tentativas a poucos segundos do final, abrindo suas voltas no limite da quadriculada. Rosberg era a exceção, com um pequeno stint de duas voltas rápidas. Lewis tentou de tudo, mas acabou ficando 0s2 atrás, porque Nico enfiou um 2min05s591 na derradeira volta, fazendo a 11ª pole de sua carreira, sétima no ano. Na hora da onça beber água, foi o alemão quem mostrou mais serviço. Vettel ficou em terceiro a 2s126. Um massacre. Depois dele, pela ordem, Alonso, Ricciardo, Bottas, Magnussen, Raikkonen, Massa e Button.
Palmas para Tião Alemão e El Fodón de La Cuarta Posición, que desbancaram a Williams, favorita para a segunda fila. Massa, que não é grande coisa no molhado, levou tempo de novo de Sapattos. A equipe-Martini terá alguma dificuldade para chegar ao pódio tão esperado e prometido em Spa. Já a Mercedes, bem… Fará nova dobradinha. Com sol ou com chuva.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.