SÃO PAULO (surprise!) – Eram 11 da manhã e Nico Hülkenberg terminava seu café da manhã em Colônia, a 60 km de Nürburgring, quando tocou o telefone. Do outro lado da linha, Otmar Szafnauer, chefe da Racing India. “Filho, corre pra cá que estamos precisando de você!”, disse o dirigente. Nico se preparava para ir […]
Publicado em 10/10/2020 às 12:19
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SÃO PAULO(surprise!) – Eram 11 da manhã e Nico Hülkenberg terminava seu café da manhã em Colônia, a 60 km de Nürburgring, quando tocou o telefone. Do outro lado da linha, Otmar Szafnauer, chefe da Racing India. “Filho, corre pra cá que estamos precisando de você!”, disse o dirigente. Nico se preparava para ir ao autódromo, mesmo, porque iria trabalhar como comentarista da RTL. Pegou um capacete velho, dos tempos da Renault, e menos de duas horas depois estava na pista para, de novo, substituir um dos pilotos da equipe rosa.
Desta vez, quem foi vetado pelo departamento médico foi Lance Stroll, que acordou se sentindo mal e sem condições de guiar um carro de corrida. Não se sabe ainda qual problema teve o jovem canadense, mas o fato é que Nico, a exemplo do que acontecera nos GPs da Inglaterra e dos 70 Anos da F-1, em Silverstone, foi chamado às pressas para ocupar o cockpit da Force Martin. Chegou ao autódromo com sua credencial de jornalista…
E foi o que de mais notável tivemos neste sábado em Nürburgring, que teve um dia bem diferente de ontem, com um solzinho tímido e temperaturas oscilando entre 8 e 10°C. Nico foi direto para a classificação. Durante o terceiro treino livre a equipe informou que Stroll não iria participar das atividades do fim de semana e foi atrás de seu coringa predileto.
Desta vez, Hülkenberg não fez milagre. Acabou ficando na última posição no Q1, o que não é demérito nenhum para quem não tinha feito uma volta sequer no único treino realizado na pista alemã. Foi eliminado junto com Grosjean, Russell, Latifi e Raikkonen — este, uma certa decepção; seu parceiro Giovinazzi, que não é exatamente o melhor piloto do planeta, conseguiu passar ao Q2 pela primeira vez no ano.
Havia uma certa expectativa em Nürburgring, que recebeu 25 mil torcedores nas suas arquibancadas, para uma boa disputa entre Mercedes e Red Bull (leia-se Max Verstappen) pela pole-position. O holandês se deu bem no circuito que, desde 2013, não recebia uma etapa do Mundial. O frio e as características da pista ajudaram no desempenho rubro-taurino.
No Q2, a Mercedes tentou a velha tática de fazer tempo com pneus médios, para largar com eles, mas percebeu que poderia se dar mal se Verstappen tivesse os pneus macios na largada, tracionando melhor. No fim, todos fizeram suas voltas com a borracha mais aderente e ficaram pelo caminho Vettel (sete GPs seguidos fora do Q3, uma tristeza), Gasly, Kvyat, Giovinazzi e Magnussen.
E no fim das contas, tivemos uma surpresa no Q3, mas não foi Verstappinho. Bottas, o Apagado, é que conseguiu brilhar deixando Hamilton para trás para fazer sua terceira pole no ano, 14ª na carreira e a 11ª da Mercedes no ano — todas. Os dois pilotos dos carros pretos dividem novamente a primeira fila, com Valtteri tendo feito 1min25s269 em sua melhor volta, nada menos do que 0s256 à frente de Lewis. É bastante. O inglês ficou meio emburrado com o resultado.
Verstappen e Leclerc dividem a segunda fila. Ótimo trabalho do monegasco, embora sua diferença para a pole tenha sido grande, 0s766. Max ficou 0s293 atrás do finlandês. E se disse um pouco decepcionado. Chegou a sonhar com a pole, mas no fim a força da Mercedes acabou se impondo novamente.
Albon, Ricciardo, Ocon, Norris, Pérez e Sainz Jr. fecharam a turma dos dez primeiros, com destaque para a boa apresentação da Renault e para os interessantes capacetes dos pilotos da McLaren, desenhados por eles mesmos numa campanha para lembrar o dia dedicado à saúde mental.
O GP de Eifel, segundo as previsões, deverá ser disputado amanhã com um tempo mais frio que hoje, talvez até com chuva em algum momento. Tende a ser uma corrida interessante, pela distância menor entre Verstappen e a Mercedes e também porque Hamilton, por mais que ganhe tudo, não é o tipo de cara que se conforma com um segundo lugar. Vai, sim, partir para cima de Bottas desde o início. E no segundo pelotão a disputa entre Leclerc e as duplas da Renault e da McLaren também pode ser interessante.
Hoje não tem muita gracinha no textão porque daqui a pouco entro no ar na TV. Nem mesmo Gola Profonda se animou a mandar suas informações sempre quentes. “É porque tá muito frio”, me disse quando cobrei pelo celular.
Não deu para contestá-lo.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.