
SÃO PAULO (de onde saiu esse monstrinho?) – Teve um pouco de tudo a vitória de Kimi Antonelli hoje em Monza. Inclusive pequenas doses de sorte para um piloto que, por conta de uma troca de motor, teve de largar do fundo do pelotão na sua corrida de casa. Em 19º no grid, para ser preciso. E precisão, neste caso, é importante, porque o resultado final foi daqueles que entram para os anais da categoria.
Fez história!, terão dito narradores e comentaristas por aí em vários idiomas. Fez mesmo, desta vez não é exagero ou banalização da expressão. De 19º para a vitória é a segunda maior recuperação de um piloto na história da Fórmula 1. Só superada pela proeza do irlandês John Watson, que no GP de Long Beach de 1983 saiu de 22º para o degrau mais alto do pódio com um carro da McLaren. E desde a vitória de Rubens Barrichello no GP da Alemanha de 2000, a primeira de sua carreira, que alguém não ganhava saindo de tão longe. Na ocasião, o brasileiro foi o 18º no grid.
O jovem da Mercedes, 20 anos recém-completados, passou muita gente no GP da Itália. A última vítima, a três voltas do final, justamente seu desafortunado companheiro de equipe, George Russell, que só não jogou a toalha do campeonato, ainda, porque ninguém lhe entregou uma. Mas a derrota de hoje foi um pouco demais. Segundo no grid, o inglês foi batido por alguém que estava 17 posições atrás. Com o mesmo carro.
Ops, aqui talvez seja o momento de esmiuçar o “pouco de tudo” da primeira linha deste relato.

O carro é o mesmo, sim, mas em Monza Antonelli teve uma ligeira vantagem em relação ao parceiro no que diz respeito ao motor. Uma unidade zerada, fresquinha, pode ser usada num limite um pouco superior. Ajuda bastante numa pista tão rápida quanto a italiana. Isso, porém, não explica a vitória. A diferença existe, mas não é gigantesca.
Passemos, então, às cartas de sorte & revés que vinham no Banco Imobiliário – sempre me intrigou, criança, a escolha de “revés” em vez de “azar”; mas agradeço, quem optou por “revés” ampliou o vocabulário de um garotinho de sete ou oito anos.
(Encontrei algumas para vender no Mercado Livre, curioso que sou. Estão neste link aqui, se alguém quiser me dar de presente, aceito de bom grado.)
Antonelli largou de pneus duros, com a clara intenção de esticar o primeiro stint até onde fosse possível numa corrida de apenas uma parada. Então, saiu a primeira cartinha de revés. No final da segunda volta da corrida, Charles Leclerc bateu e a prova foi interrompida com bandeira vermelha. Todos foram para os boxes e puderam trocar pneus. Quem não largou com pneus duros foi a eles, claro: aguentariam o tranco até o final e o pit stop obrigatório para uso de um segundo composto, como reza o regulamento, estaria resolvido. Nessa situação estavam 19 pilotos – OK, 18 porque Leclerc, àquela altura, estava sendo examinado no centro médico do autódromo. Foram nove largando com pneus médios (entre eles os dois da primeira fila, o pole Pierre Gasly e Russell) e dez com macios (incluindo Max Verstappen e a dupla da Ferrari).

Na cartinha de revés tirada por Kimi e mais dois (OK, vamos citar, embora eles não tenham tido tanta importância na prova: Yuki Tsunoda e Fernando Alonso) estava escrito: “Você será obrigado a colocar pneus macios ou médios na bandeira vermelha, mas eles não vão durar até o final. Faça um segundo pit stop a qualquer momento da corrida”.
Só que pouco depois da metade da prova Kimi sacou uma cartinha de sorte. “Um safety-car virtual será acionado e você poderá fazer sua segunda troca de pneus perdendo pouco tempo, fique atento!” Batata. Na 28ª das 53 voltas previstas, já tendo passado quase todo mundo e em meio a uma batalha fratricida com Russell pela vitória – mas com pneus que, em tese, acabariam logo e o levariam de novo aos boxes, possivelmente saindo da briga pela vitória porque Russell não pararia novamente –, quebrou o carro de Lance Stroll, da Aston Martin, e o tal safety-car virtual foi acionado. A Mercedes chamou o italiano para a segunda troca, sabendo que borracha nova seria necessária.
Daí em diante foi um show. Um show de talento e determinação e um show de terror escancarado para Russell, que viu o amiguinho voltar em sexto com a combinação motor novo + pneus médios novos, portanto um conjunto bem mais rápido, com tempo suficiente para alcançá-lo, passar e vencer a corrida.
Kimi ainda tirou outra cartinha de sorte quando chegou em Lewis Hamilton, que poderia oferecer alguma resistência por duas ou três curvas, mas errou a freada da chicane e passou direto. E mais uma na volta 49, quando fez a primeira tentativa de ultrapassagem sobre Russell, saiu do traçado ideal, foi parar na caixa de brita, mas milagrosamente não atolou, aprumou o carro, voltou à pista e, pouco depois, jantou o companheiro com molho de funghi e parmesão ralado na hora.
A vitória exuberante deixou a torcida em Monza extática, esquecendo por alguns instantes a frustração com o mau desempenho da Ferrari. Desde 1966 que um piloto italiano não vencia em casa – Ludovico Scarfiotti, do time de Maranello, fora o ganhador. Antonelli chegou a sete vitórias na carreira e no ano, igualando o número de triunfos de Russell desde a estreia na categoria, em 2019. Abriu 66 pontos na classificação em cima do adversário, 267 x 201. Hamilton, que estava empatado com o compatriota na pontuação, terminou o GP da Itália em sexto e ficou para trás, com 191. Foi a nona vitória da Mercedes em 13 corridas nesta temporada.

A corrida de Monza foi uma das melhores do ano. O regulamento de 2026, tão criticado – com razão; ninguém que gosta e/ou entende de corridas pode achar lindos e maravilhosos motores que perdem a potência no meio de uma reta porque acaba a bateria –, ajudou. As trocas de posições na frente, no meio e no fundo do pelotão foram numerosas e frenéticas, ainda que carregando o peso da artificialidade elétrica. Mas movimentaram muito a prova, não se pode negar, provocando alguns ótimos momentos. Ponto para o regulamento nesse tipo de circuito, pois, embora ninguém tenha tido de se esforçar demais para fazer uma ultrapassagem. Elas foram quase todas fáceis e condicionadas pela diferença de energia entre um carro e outro em determinados pontos da pista. Mas vá lá, foi divertido.
E começou com Gasly, que surpreendeu a todos ontem fazendo a pole-position, largando bem. Só que ele aguentou apenas uma volta na ponta. Russell passou o francês da Alpine logo na abertura da segunda volta, e foi embora. Os primeiros metros foram particularmente ruins para Hamilton, que fechou a primeira volta em décimo depois de dividir a primeira chicane com Leclerc, que não aliviou nada e forçou o heptacampeão a colocar as rodas na brita, perdendo várias posições. Enquanto isso Antonelli, na segunda volta, já era o 12º. Em sua jornada que daria na segunda maior remontada da história, largou com cautela, não arriscou o pescoço em nenhuma ultrapassagem e só passou os primeiros adversários quando tinha absoluta segurança, nas retas e com bateria cheia.
Mas aí parou tudo. O monegasco, depois de brigar com Gasly, Max Verstappen e Oscar Piastri ao longo da segunda volta, foi parar na barreira de pneus na curva Parabólica. Seu carro deu uma estilingada de traseira, saiu da pista a 200 km/h, atravessou a área de escape e a batida, lateral, foi bem forte. A direção de prova acionou o safety-car, primeiro, e logo depois interrompeu a corrida com bandeira vermelha. Desolado, Charlinho ficou algum tempo sentado no gramado, sendo consolado pelos fiscais de pista. Mais tarde, relatou alguns problemas de visão no olho direito. Ficou grogue.

O GP foi suspenso com Russell, Gasly, Verstappen, Franco Colapinto, Piastri, Lando Norris, Arvid Lindblad, Hamilton, Oliver Bearman e Esteban Ocon nas dez primeiras posições. Com todos nos boxes, a questão passou a ser qual pneu usar a partir dali. Sob bandeira vermelha é permitido fazer uma troca. A maioria pensou a mesma coisa: colocar duros e não parar mais. Seria uma possibilidade. Mas e quem largou com esse composto? Era o caso de Kimi, que não teria muito o que fazer. Como é obrigatório o uso de pelo menos dois tipos diferentes de pneus numa corrida, o italiano não poderia fazer a prova toda com eles. Em algum momento teria de parar. A cartinha de revés, creio que vocês se lembram dela.
Os engenheiros tiveram bastante tempo para quebrar a cabeça enquanto a barreira de proteção na Parabólica era recomposta. Fazia muito calor – 31°C, com 56°C no asfalto – e também não havia nenhuma certeza de que um jogo de pneus duros aguentasse mais 50 voltas.
Pouco mais de meia hora depois da batida de Leclerc o grid foi remontado. Antonelli e Liam Lawson, que haviam largado do fundo do pelotão depois das trocas dos motores de seus carros, eram os que mais tinham subido no grid, sete posições cada. Quando os cobertores térmicos dos pneus foram retirados, revelaram-se as escolhas de cada um. Russell e Gasly, por exemplo, colocaram pneus duros. Verstappen, Hamilton e Antonelli foram para os médios. Colapinto e a dupla da McLaren também optaram pelos pneus de faixa branca, os mais duros.
GP com duas largadas é sempre tenso. Depois que todos alinharam, a direção de prova mandou ser cumprida outra volta de apresentação porque Tsunoda parou seu carro no lugar errado. Quando finalmente a prova foi reiniciada, Russell se segurou em primeiro, com Gasly em segundo e Colapinto saltando para terceiro. O argentino foi superado rapidamente por Verstappen, cometeu um erro, saiu da pista e despencou para 16º – depois da prova, ao repassar o acontecido, chegou a chorar no rádio com seu engenheiro e, mais tarde, foi às lágrimas diante dos microfones da imprensa. Antonelli, em compensação, subiu de 12º para sexto! E Hamilton ganhou quatro posições, pulando de oitavo para quarto.

Será cansativo descrever, uma a uma, as muitas ultrapassagens das primeiras voltas por conta das diferentes estratégias de configuração de bateria de cada equipe. Como se previa, Monza ofereceu uma corrida de ultrapassagens ioiô, passa aqui, perde ali. Concentremo-nos nas primeiras posições, pois.
Na décima volta, Russell, Verstappen, Gasly, Hamilton, Piastri, Antonelli, Norris, Lindblad, Tsunoda e Bearman eram os dez primeiros. O brasileiro Gabriel Bortoleto, que perdeu posições nas duas largadas, aparecia em 15º. Lewis, então, passou o francês, cuja pole virava abóbora rapidamente. Piastri e Antonelli também deixaram o carro da Alpine para trás.
Max passou Russell na volta 12 e Antonelli passou Hamilton e Piastri. George devolveu a ultrapassagem na volta 15 e Kimi deixou o holandês para trás logo depois. O passa & repassa seguia intenso até Antonelli assumir a liderança na volta 18. Uma recuperação impressionante para quem tinha largado em 19º, ainda que a bandeira vermelha tenha ajudado. Mas o que ajudou, mesmo, foi seu talento transbordante na segunda largada, com meia-dúzia de posições ganhas em uma volta.
Na volta 20, a dupla da Mercedes se descolou de Verstappen. Antonelli e Russell chegaram trocar de posições algumas vezes, menos por ousadia & alegria, mais por carga de bateria, mesmo. Atrás deles algo parecido acontecia entre Hamilton e Piastri, revezando-se em quarto e quinto.

A briga entre os pilotos prateados era pouco produtiva, mas inevitável. Graças a ela, Verstappen, que tinha ficado um pouco para trás, se aproximou novamente, assistindo de camarote ao duelo interno da Mercedes. Foi quando a chefia do time alemão pediu a Kimi para pegar leve, porque Max não é confiável, tipo lobo mau. Se bobeassem, passaria os dois.
Então saiu a primeira cartinha de sorte de Antonelli. Na volta 28 o carro de Stroll quebrou e o safety-car virtual foi acionado. A Mercedes chamou seu garoto para os boxes. Vão me chamar de paranoico, mas tive a impressão de que a duração desse safety-car virtual foi esticada o suficiente para permitir a parada de Kimi sem perder muito tempo; mas pode ser apenas impressão. Verstappen também parou. Russell seguiu na pista. O italianinho caiu para sexto, com Max em sétimo. Na volta 30, Russell, Piastri, Hamilton, Norris e Gasly eram os cinco primeiros, mas Kimi passou o francês rapidamente. Estava 13s5 atrás de Russell, o líder. Mas, agora, com pneus médios novos. Iria buscar o companheiro.
Foi também graças à borracha mais nova que Antonelli se aproximou de Hamilton rapidamente, já que a Ferrari também não chamou seu piloto para trocar pneus no safety-car virtual. Nem precisou de muito esforço, porque Lewis errou a freada da primeira chicane na volta 35, passou direto e perdeu a terceira posição. George começava a ficar apavorado. Líder, tinha coisa de 10s de vantagem sobre o companheiro, mas a diferença ia caindo vertiginosamente. Kimi precisava passar Piastri para, então, direcionar a mira para cima do inglês.
A ultrapassagem sobre o australiano, facílima, aconteceu na volta 37. A diferença dele para Russell era de 8s4. Nos boxes da Mercedes, óbvia tensão. Antonelli chegaria, não havia dúvidas, e ninguém sabia como o parceiro iria se comportar quando se deparasse com a perspectiva da maior humilhação a que um piloto pode ser submetido – largar na primeira fila e perder uma corrida para alguém da mesma equipe que tinha largado em 19º.

Faltando 13 voltas, na 40ª, Kimi reduzira a desvantagem para 7s5. Russell perguntou pelo rádio se seus tempos de volta eram “suficientes”. “Eu conto, ou você?” sussurrou o engenheiro para o colega ao lado. Tentando acalmar o piloto, respondeu que Kimi chegaria nele “no final da prova”, sem ser muito exato na previsão.
Àquela altura, Verstappen e Piastri se pegavam pelo terceiro lugar. Um passava, o outro dava o troco. Max passou direto pela chicane na volta 43. Atrás deles, Norris e Hamilton estapeavam-se pela quinta posição. Gasly, Lindblad, Colapinto e Tsunoda fechavam o grupo dos dez primeiros.
Na volta 44, Russell recebeu o diagnóstico tenebroso. “Nesse ritmo, Kimi nos alcança em seis voltas”, informou o engenheiro. O inglês fez as contas: 44 mais seis, 50. São 53 voltas, vou perder a corrida. Oh, céus!
Alcançou antes. De motor fresquinho, pneus mais rápidos e mais novos e talento jorrante, Andrea Kimi Antonelli grudou na caixa de câmbio de Russell na volta 48. Não havia o que fazer. Era aceitar o destino, ou causar um desastre. Mas George não se entregou tão fácil. Na volta 49, o italiano tentou passar na primeira chicane, o inglês resistiu mantendo seu traçado e o mocinho foi parar na caixa de brita. Por pouco não atolou. Tirou mais uma carta de sorte. Voltou ao leito da pista praguejando – Kimi fala muito no rádio. Na volta seguinte, porém, passou sem dificuldades, antes da Variante Ascari. E Russell aceitou seu destino.

Ainda houve tempo nas voltas finais para uma briga aflitiva entre Piastri e Norris pelo quarto lugar. Com isso, Verstappen se assentou em terceiro. E assim terminou o GP italiano, com os dois pilotos da Mercedes no pódio e o tetracampeão da Red Bull ao lado deles. Norris, Piastri, Hamilton, Gasly, Lindblad, Colapinto e Tsunoda fecharam o top-10. Bortoleto foi o 11º. Antonelli, ainda, fez a melhor volta da prova. Na última, para desespero do chefe Toto Wolff.
Russell admitiu que Kimi fez uma corrida extraordinária. Entendeu a decisão da Mercedes de chamá-lo para uma segunda troca de pneus. “Max estava lutando com ele e, portanto, a equipe fez o que tinha de fazer. Kimi merece os parabéns. Largar de onde largou e ganhar a corrida é algo incrivelmente impressionante”, falou o inglês. No fim, reconheceu que a taça deste ano dificilmente terá outro endereço. Vai, mesmo, enfeitar o quartinho de adolescente em Bolonha, onde Antonelli vive com a família. Deve ficar ao lado de um enorme urso de pelúcia na estante. “Ele merece estar onde está”, falou George.
Antonelli, não o urso.