SÃO PAULO (em Interlagos) – Quando tem acidente feio, as outras coisas ficam meio em segundo plano. Mas quando a gente sabe que o acidentado está bem, dá para voltar a falar do resto. Pérez, ótimo piloto, está bem. Teve concussão e machucou a perna, uma distensão na coxa, segundo as informações da Sauber, mas quer correr. Se desse, largaria direto do hospital. Sabe como são pilotos… Mas a Sauber acaba de informar (agora são 14h50, estou atualizando o texto) que ele não corre.
Acidente feio na saída do Túnel, igual ao de Rosberguinho de manhã. Sorte que estampou naquele muro macio que salva vidas. Wendlinger, ali, quase morreu em 1994. Demorou para os organizadores do GP de Mônaco chegarem a uma proteção ideal. Me parece que a perda de controle do carro tem algo a ver com as ondulações da pista. Isso é algo que precisa ser revisto em Monte Carlo. Os carros pulam demais, em velocidades altas demais.
Mas vamos à classificação. Vettel fez sua quinta pole em seis corridas, 20ª na carreira. Eu achei que Hamilton poderia dar uma canseira nele, depois do Q1 e do Q2. Mas o inglês pegou tráfego na primeira tentativa e quando liberaram a pista, depois do acidente de Pérez, já não dava tempo para muita coisa. Saiu da briga pela vitória. Quem está nela é Button, o come-quieto.
Tião Alemão foi cruel mais uma vez, colocando 0s4 em Jenson, que larga ao lado dele na primeira fila. A segunda tem Webber, o Canguru, e Alonso, El Fodón de las Asturias. Que tinha sido o mais rápido no último treino livre, pela manhã. A Ferrari não será um desastre, não vai tomar volta, mas que ninguém pense em milagres. Schumacher e Massa dividem a terceira fila. Hamilton ficou só em sétimo, com Rosberguinho em oitavo, Maldonado em nono e o pobre Pérez sem tempo em décimo, e sem saber se corre. O carro acabou. Lewis, depois, perdeu sua melhor volta no Q3 porque cortou uma chicane. E caiu para nono. Um fim de semana que começara bem acabou indo para o vinagre.
Vexames do dia: as duas Renault, fora do Q3. O time brilhou nas duas primeiras corridas do ano, mas despencou. Barrichello levou de Maldonado de novo. Assim não dá, assim não pode, diria aquele outro presidente. E Kobayashi, o mito, foi vestido pelo chili peppers.
A Hispania recebeu um presente da FIA e vai largar. Liuzzi bateu de manhã e não treinou, e não sei o que foi feito de Karthikeyan, que não registrou tempo. Parece que alguma coisa na suspensão. Não muda nada, claro, exceto na hora de tomarem voltas. É mais trabalho para os líderes. Pit stops? Dois ou três. Acho que duas paradas é o mais provável. Alonso acha que vai ter gente arriscando um só. Os pneus estão aguentando bem.
Volto mais tarde. Estou em Interlagos e largo daqui a pouco. Em 13º, outro vexame.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.