SÃO PAULO (só na espera) – Macacada, hoje vocês vão me perdoar, mas o domingo está muito apertado, tem rádio daqui a pouco e todo esse GP de Mônaco será depositado em post único, e ainda sem saber qual a decisão sobre a divertidíssima manobra de Schumacher sobre Alonso na última volta.
Acho que não podia passar. Até onde me lembre, e pelo que li no regulamento, só pode passar, quando o safety-car sai da pista, depois da linha de chegada/largada. Nessas horas sempre aparece um “o regulamento mudou este ano”, mas juro que não encontrei nada. Há controvérsias, pois. Porque se o regulamento mudou mesmo, não haveria motivos para reclamações.
Falemos da corrida, então. Como se previa, se Webber mantivesse a ponta, ficaria lá até o final. Ficou. Vettel passou Kubica na largada e ficou lá até o final. Kubica fechou a primeira volta em terceiro e ficou lá até o final. Massa manteve o quarto lugar na primeira volta e ficou lá até o final. Hamilton, atrás dele, fez o mesmo. Poucas emoções?
Ah, acho que sou dos poucos que gostaram dessa corrida. Button, por exemplo, teve um momento dramático, uma cagada monstro da McLaren que esqueceu um tampão de radiador e lá se vai o motor para o espaço. Imaginem se isso acontece com um brasileiro? Terceira Guerra Mundial.
Jenson perdeu a liderança do campeonato com o abandono besta. A Red Bull assumiu a ponta em ambos, com requintes de crueldade: Webber e Vettel empatados nos pontos, vantagem para o australiano, que está guiando o fino (quem diria?), por ter uma vitória a mais.
E o grande barato da corrida foi o Alonso, que espertamente trocou os pneus no comecinho, com o safety-car provocado por Hülkenberg, e ganhou um caminhão de posições depois de passar, com dificuldades, pela turma do fundão. Turma que estava na dela, sem obrigação de dar passagem, como Bernoldi com Coulthard anos atrás. Naquela ocasião, o mala do Ron Dennis, ao final da corrida, foi lá xingar o pobre Enrique.
Nos boxes, Schumacher foi bem e ganhou a posição de Barrichello. Já havia passado Rosberguinho na largada. Rubens partiu muito bem, mas nos pit stops despencou e depois deu uma pancada de respeito. Puto da cara, atirou o volante no chão, que foi atropelado, o volante, por Chandhok. Custa caro, aquilo. Foi o segundo SC do dia. Haveria um terceiro e penúltimo, para tampar um bueiro.
Kubica, apesar de ter perdido o segundo lugar na largada, fez mais um corridão, levando a bandeira de Togliatti ao pódio mais uma vez. A Lada é a grande novidade do campeonato. Mesmo Petrov fazia uma corridinha honesta, hoje, até parar no fim. Se a Renault ganhar uma prova este ano, bem que poderiam tocar a Internacional em vez da Marselhesa.
Trulli x Chandhok foi ótimo, também, causando o último SC do dia. O dalit protegendo a cuca com as mãos foi bem engraçado. Ainda bem que ninguém se machucou.
E, aí, veio a manobra schumacheriana na Rascasse, sobre um desatento Alonso, que deu uma rabeada e permitiu que o alemão ganhasse a sexta posição. Michael está na dele, sabe que não será campeão, mas mantém a chama competitiva. Lembram quando passou Barrichello lá mesmo, em Mônaco, na última volta, em 2005? Num campeonato perdido por antecipação? Pois é, corrida é isso, tem de passar, mesmo, e foi o que ele fez.
Desconfio que o próprio Schumacher tinha lá suas dúvidas sobre a validade da ultrapassagem, mas a essa altura do campeonato da sua vida, o que importa? Dane-se, deixe a decisão para os comissários, eles estão lá para isso. Escrevo antes de sair um veredicto (caiu esse “c” mudo?), mas apostaria numa anulação da ultrapassagem, com possível punição para o piloto da Mercedes, ou simplesmente a troca entre ele e Alonso na classificação final. Puro palpite, porém. Porque é a Ferrari que está reclamando, e Damon Hill é um dos comissários.
Aqui, no entanto, vale uma observação. Há um vácuo nessa regra de só poder passar, quando o SC sai da pista, depois da linha de largada/chegada. Porque há um espaço/tempo entre sua saída e a passagem de todos pela linha, chamada de “the Line” no caderno de regras. Até todo mundo cruzá-la, o que garante que nada vai acontecer? Um carro quebrar, por exemplo. Ou bater. Ou quase (como Alonso). Lembram a zona que foi com Hamilton na Austrália no ano passado? Ele passou Trulli porque o italiano saiu da pista. Devolveu a posição, e não precisava. E acusou, depois, Trulli de tê-lo passado sob bandeira amarela, quando ele mesmo deixou.
Acho que o mais simples seria liberar todo mundo por luzes e bandeiras assim que o SC deixasse a pista. Se for essa a interpretação dos comissários hoje, Schumacher fica com a posição e Alonso, chupando o dedo.
Agora falem à vontade. Volto mais tarde, quando der. Ah, e vamos combinar o seguinte… Muita gente acha a maior sacada do mundo chamar Schumacher de “Dick Vigarista”, e fizeram o mesmo com Alonso quando passou Massa na China. Aprendam, petizes. Corridas não seguem o código de ética “com muito orgulho, com muito amor” que vocês imaginam existir. Em lugar nenhum do mundo. Assim, dispenso surtos de criatividade do gênero “Schumacher foi Dick Vigarista de novo” e etc e tal. Além de ser um clichê ridículo, não tem nada a ver com a realidade de uma competição. Em resumo: deixem de ser bobos.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.