SÃO PAULO (atrasou, mas tudo bem) – A frase de Alonso é de 2013. Nem lembro o contexto. Mas vale para hoje. A chuva não é problema se você não se importa em ficar molhado. Don Fernando de Las Astúrias. El Fodón de La Primera Fila. Foi ele o nome do sábado em Montreal. Como […]
Publicado em 18/06/2022 às 23:15
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Quem tem medo da água? Alonso não
SÃO PAULO(atrasou, mas tudo bem) – A frase de Alonso é de 2013. Nem lembro o contexto. Mas vale para hoje. A chuva não é problema se você não se importa em ficar molhado. Don Fernando de Las Astúrias. El Fodón de La Primera Fila. Foi ele o nome do sábado em Montreal. Como é bom ver piloto bom guiando. O espanhol segue firme em seu “El Plan”, seja lá o que for isso. Tomara que dê certo.
OK, a pole de Verstappen foi daquelas de almanaque e sem grandes ameaças. Max é bom demais na chuva, e isso se sabe desde uma corrida em Interlagos já nem lembro quando. Mas façamos as devidas homenagens ao cara que, aos 40 anos, mete uma Alpine na primeira fila. Aliás, que se registre: desde a pole para o GP da Alemanha de 2012, ainda na Ferrari, que Fernandinho não sabia o que era uma primeira fila. Dez anos. O cara é foda.
Max na pole: 15ª na carreira, segunda no ano
Foi o melhor sábado de 2022, graças à chuva em Montreal. Temperatura: 10 a 12 graus Celsius. Verãozão brabo. Daqueles que os quebequianos festejam. Qualquer coisa acima de zero está bom. Se bem que hoje o tempo abusou. Muita água, muito frio.
Q1: todo mundo de pneu para chuva pesada. Degolados: Gasly, Vettel, Stroll, Latifi e Tsunoda. Gasly teve um problema nos freios, uma decepção depois de andar muito bem no último treino livre debaixo d’água. Tsunoda ia perder milhões de posições no grid, de qualquer forma, por troca de motor. Latifi, o de sempre. A dupla da Aston Martin, putz… Não entendi até agora o que aconteceu, especialmente com Vettel — que começou tão bem o fim de semana.
Os tempos do Q1 para o Q2 caíram cerca de 10 segundos, com a adoção dos pneus intermediários. Bottas, Albon, Pérez, Norris e Leclerc ficaram na segunda parte da classificação. Charlinho nem andou, sabendo que iria perder dez posições no grid por troca da central eletrônica de seu motor — no fim, a Ferrari trocou tudo que podia para “zerar” o carro do monegasco nas próximas corridas. Albon foi um herói, levando a Williams ao 12º lugar no grid. Lá na frente, o nome era Alonso, desfilando todo seu talento na chuva. Ao lado dele, dignos de aplausos, Zhou e a dupla da Haas.
Zhou: primeiro Q3 da carreira
O chinês da Alfa Romeo foi ao Q3 pela primeira vez na carreira. Incrível, ainda mais para um piloto que nunca tinha andado em Montreal antes. A Haas foi outra que surpreendeu: levou seus dois pilotos à fase final da sessão, uma façanha e tanto. A pista seguia molhada, mas não tanto quanto no início da classificação.
Com Pérez fora da briga — causou a única bandeira vermelha do dia ao escapar da pista e beijar o muro de proteção no Q2 –, Verstappen era o favorito absoluto à pole no Q3. Sainz, da outra Ferrari, não assustava. Nunca assusta. E Max fez o que dele se esperava. Cravou o melhor tempo disparado com 1min21s299 e deu o primeiro passo para ganhar mais uma amanhã. Só perde se quiser. A previsão indica tempo firme e pista seca. Nessas condições, com Leclerc e Pérez lá no fundão, a chance de vitória é clara e cristalina.
Alonso pode incomodar? Talvez no começo. Às gargalhadas, disse que vai passar o holandês na largada. É franco atirador, está se divertindo, mas sabe das limitações da Alpine frente a uma Red Bull velocíssima, equilibradíssima e soberana neste momento do campeonato. Busca um pódio, o que já seria melhor que a encomenda.
Sainz cumprimenta Alonso: duas gerações de espanhóis
Teve mais gente que se destacou no cair da tarde de Montreal. Além do asturiano, pode-se colocar no olimpo canadense deste sábado o trio Hamilton-Magnussen-Schumacher. Ficaram, pela ordem, em quarto, quinto e sexto no grid. Antes deles larga Sainz — nada de mais nem de menos com a Ferrari. Mas Lewis estava mais feliz do que nunca neste ano, por ter colocado um carro horrendo na segunda fila.
E a dupla da Haas alinha lado a lado na terceira fila como num sonho. Kevin já experimentou coisa parecida — suas melhores posições de largada foram dois quartos lugares pela McLaren em 2014, na Austrália e na Alemanha. Mas Schumaquinho nunca tinha vivido nada parecido. Pode ser que pontue pela primeira vez na carreira. Já está na hora.
Festa da Haas: quinto e sexto para Magnussen e Schumacher
Verstappen, Alonso, Sainz, Hamilton, Magnussen, Schumacher, Ocon, Russell, Ricciardo e Zhou fecharam o sábado chuvoso nas dez primeiras posições do grid. Um grid embaralhado graças ao aguaceiro que encharcou a Île Notre-Dame, uma ilha artificial onde fica o circuito Gilles Villeneuve.
Jorginho foi o único que tentou algo meio suicida, no final do Q3, ao colocar pneus slicks macios para aproveitar o trilho que começava a se formar na pista canadense. Não deu muito certo, mas foi elogiado pelo chefe, Toto Wolff. “Fiquei encantado com a tentativa”, derreteu-se o dirigente da Mercedes. “Já tinha conseguido algo parecido quando estava na Williams, precisava tentar alguma coisa”, justificou o piloto.
O segundo lugar de Alonso foi fenomenal, embora a diferença no cronômetro, 0s645, indique claramente que não houve disputa pela pole. Verstappen sobrou, seu único adversário era o relógio. Sainz, em terceiro, ficou 0s797 atrás do líder do Mundial. Hamilton, o quarto, fechou o cronômetro a estrondoso 1s592 da pole.
A corrida tende a ser bem legal, em que pese o favoritismo quase obsceno de Verstappen. Seria ainda melhor se chovesse. Mas não se pode querer tudo. A água fez sua parte hoje. Agradecemos. Por ora, está dispensada.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.