SÃO PAULO (recuperado) – Optei por dormir depois da classificação. Porque nada mais previsível do que o que aconteceu. Todo mundo ia acordar e saber, hoje, que Vettel fez mais uma pole. Eu não precisava assassinar meu sono para vir à sala e escrever isso. Fiquei na cama refletindo sobre o momento da F-1. Durou 17 segundos, a reflexão.
Foi a 43ª pole da carreira de Tiãozinho e sétima na temporada. Terceira na Índia, onde só ele fez pole e onde só ele liderou voltas até hoje. E onde só ele liderou treinos neste fim de semana: os dois da sexta, o terceiro livre no sábado e a classificação. Foi também o primeiro a chegar ao autódromo. E no café da manhã, o primeiro a pegar ovos mexidos e a colocar pão na torradeira, antes do Alonso, que pelo menos pegou geleia de morango na frente, mas geleia de morango, como se sabe, não dá pontos na F-1, enquanto ovos mexidos e torradas, sim. Webber derrubou a xícara de café quando tentava passar os dois.
Ou seja, como diria Luciano Burti, ele vai enfiar uma trolha astronômica em todo mundo para ganhar o título humilhando, pisoteando, troçando, desdenhando, rebaixando, menosprezando, rebaixando a concorrência.
É um sádico, esse alemãozinho.
Mas não é surpresa, podem reclamar quanto quiserem, há uns bons dois meses que avisei aqui, assim que a Mercedes mostrou que era fogo de palha e que não iria ameaçar os rubrotaurinos depois das férias. Sem chances de virar o jogo, e com regulamento novo para 2014, ninguém iria gastar fosfato para melhorar seus carro patéticos de 2013. Assim, a tendência era de a Red Bull disparar. Outras equipes, se pudessem, cortariam pessoal e o cafezinho no motorhome para economizar e pensar no ano que vem.
Dito e feito, e junte-se a isso o apetite do mocinho por recordes (jamais reconhecido; piloto é sempre “cool” quando fala disso), e eis que temos na tábua de tempos de hoje Vettel enfiando 0s712 em Rosberguinho, o segundo no grid, e 0s782 no Comandante Amilton, o terceiro (veja o grid aqui, com pneus e tudo; chique, o Grande Prêmio). Webber, nosso marsupial desolado, sai em quarto e vai tentar alguma coisa com os pneus médios. Os três primeiros optaram pelos macios grudentos e nojentos.
Falando em pneus, no Q1 eles fizeram a primeira vítima, a anta do Grojã, que achou que com os médios passaria para o Q2 assoviando e mascando cana. Tomou na testa. Ficou em 17°. Vettel também usou os médios, mas digamos que tem um carro melhorzinho e podia se dar ao luxo de. Junto com Grojã ficaram na degola Maldanado (sem clima na equipe; vai sair, como já informamos) e os nanicos, como sempre com Branquinho puxando a fila.
No Q2, empacaram Ricardão, Resta Um, Fútil, Verme, Sapattos e Guti-Guti, que a cada dia que passa me parece mais fraco. Ainda mais quando a gente olha para essa segunda metade de temporada do incrível Hulk, que foi de novo ao Q3. É um monstro, esse alemão, e faz bem a Lotus de querê-lo a todo custo. Se bem que a McLaren também curte a ideia. A Force India também deu um curtir e compartilhar. E a Sauber mandou um desfazer para Gutiérrez. O Massa deu um curtir para a Williams e o Maldanado deu um curtir para a Lotus, que ainda não curtiu de volta.
Estou todo trabalhado no Facebook, hoje.
Bem, chega de viadagem e vamos ao Q3. Foi quase aviltante. Vettel fez sua volta com o cotovelo na janela e falando no celular. O resto se matava para chegar perto. Mas não conseguia. No fim das contas, Tião, Rosberguinho, Comandante Amilton, Canguru, todos já citados, nas duas primeiras filas. Depois Massacrado (com pneus macios), Tagarela, Hulk, El Desanimadón (com pneus médios) e a dupla da McLaren, Chiquitita e Bonitton, ambos com médios, também.
Nas arquibancadas, as vacas bocejaram. Não tinha ninguém, humano, digo, vendo o treino. Acho que na corrida veremos alguns grupinhos espalhados aqui e ali, se a névoa deixar. Faz um calor dos diabos na região e a poluição é osso.
Há um tabu a ser quebrado. Na Índia, até hoje, apenas pilotos alemães de dentes grandes e cara de moleque venceram, uma coincidência incrível. Acho que será mantida a escrita.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.