
SÃO PAULO (às ruas!) – No dia 27 de junho de 1999, Botafogo e Juventude decidiram a Copa do Brasil no Maracanã. Foi o último jogo realizado no país com público superior a 100 mil pessoas. Precisamente 101.581 almas estiveram no Maior do Mundo (grafo em maiúsculas em homenagem a Waldir Amaral e Jorge Curi, que embalaram meus sonhos de rádio no início dos anos 70 no Rio).
O Juventude segurou o empate em 0 a 0 e foi campeão. Tinha vencido o primeiro jogo, uma semana antes, por 2 a 1 em Caxias do Sul.
Ah, o Botafogo…
Onze dias antes, em 16 de junho, o Palmeiras de Felipão havia conquistado seu primeiro título da Libertadores ao derrotar o Deportivo Cali, da Colômbia, nos pênaltis. No tempo normal, 2 a 1 com gols de Evair e Oséas. O goleiro Marcos foi o herói daquela noite no Parque Antarctica. (Registre-se que no final do ano o Palmeiras foi derrotado pelo Manchester United em Tóquio por 1 a 0, portanto não tem Mundial.)
Pouco antes, em 29 de junho, começava a Copa América no Paraguai e a seleção brasileira, dirigida por Vanderlei Luxemburgo, acabaria campeã ao derrotar o Uruguai por 3 a 0 na final. Luxemburgo sucedera Zagallo na seleção, que àquela altura vivia o ápice de sua carreira como técnico da Portuguesa no Brasileirão.
Aquele campeonato, de 1999, seria vencido pelo Corinthians numa final de três jogos contra o Atlético Mineiro. Dida, Rincón, Vampeta e Marcelinho Carioca eram os destaques do time comandado por Oswaldo de Oliveira. Na camisa do Timão, fabricada pela Topper, patrocínio do iogurte Batavo. Na do Galo, da Penalty, quem anunciava era a Fiat. Ninguém tinha ouvido falar de bets no Brasil. Jogava-se na Loteria Federal ou fazia-se uma fezinha no bicho.

Quatro dias depois, em 1º de julho, o mundo começou a acabar com o anúncio da fusão de Brahma e Antarctica, dando origem à Ambev. Era mesmo o sinal do início do fim dos tempos, como se Corinthians e Palmeiras se unissem num único time, ou Boca e River formassem uma nova agremiação em azul, amarelo, vermelho e branco.
Na política, Fernando Henrique Cardoso começava seu segundo mandato como presidente da república e o PSDB voava, com Mário Covas governando São Paulo. Lula era apenas presidente de honra do PT. Perdera a eleição no ano anterior para FHC, decidida em favor do sociólogo já no primeiro turno. Nos EUA, o presidente era Bill Clinton, que tinha acabado de se livrar de um processo de impeachment, acusado de obstrução de justiça num escândalo sexual envolvendo a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky.
Nos cinemas brasileiros, ainda estava em cartaz “Central do Brasil”, obra-prima de Walter Salles com Fernanda Montenegro, que conquistara o Globo de Ouro na categoria de filme estrangeiro e representaria o país no Oscar daquele ano. Na TV, em maio de 1999, a Manchete saíra do ar e sua concessão era negociada com o empresário Amilcare Dallevo Jr., que operava um sistema de sorteios televisivos por telefone. Em novembro, depois de um período de transição, nasceria em seu lugar a lamentável RedeTV!, que está aí até hoje. Na Globo, José Wilker e Glória Pires eram os protagonistas de “Suave Veneno”, a novela das oito — assim eram chamadas as novelas apresentadas depois do “Jornal Nacional”.
Na música, “Sozinho”, com Caetano Veloso, era a mais tocada nas rádios nacionais. Lembram? “Às vezes no silêncio da noite/Eu fico imaginando nós dois…” O pagode estava em alta (Exaltasamba, Os Travessos, Karametade, Raça Negra, Os Morenos), Buchecha ainda tinha Claudinho e Anitta era uma menininha de seis anos chamada Larissa. E no dia 1º de junho entrara no ar um certo Napster, programa de computador que permitia compartilhar músicas em forma de arquivos digitais, um troço que mudaria completamente a indústria do entretenimento e da cultura em todo o planeta.

E foi em 27 de junho de 1999 que um motor Ford fez uma pole-position pela útima vez na Fórmula 1. Seu autor? Rubens Barrichello, de Stewart, no circuito francês de Magny-Cours. Debaixo de chuva, aproveitando o momento em que a pista estava menos molhada. Uma façanha diante das poderosas Ferrari e McLaren, que brigavam pelo título daquele ano.
Barrichello deixou a F-1 em 2011. Passou pela Indy, veio para a Stock Car, segue acelerando aos 54 anos de idade. Magny-Cours fez seu último GP em 2008, um pecado. A Stewart foi vendida para a própria Ford, que a transformou em Jaguar em 2000 — era dona da marca inglesa — e depois passou tudo para uma empresa de bebidas energéticas chamada Red Bull. Esta, sediada na Áustria, rebatizou a equipe com seu nome e estreou em 2005 na categoria. A marca americana do oval azul, então, se mandou de vez.
Hoje, mais de 27 anos depois daquela pole de Barrichello, um carro empurrado por motor Ford conseguiu a posição de honra de um grid outra vez. No fundo, no fundo, com a mesma equipe: a Stewart que virou Jaguar e depois virou Red Bull. E com um moço ao volante, Max Verstappen, que não tinha nem dois anos de idade quando o brasileiro colocou o carro branco de Jackie Stewart na primeira posição para a largada daquele GP da França. Seu pai, Jos Verstappen, defendera o time no ano anterior. Mas naquela temporada, 1999, não correu.
(Já comentei com vocês o que é “nariz de cera”, creio — quando nós, jornalistas, demoramos para entrar no assunto principal num texto noticioso. Ficamos enrolando, enrolando, sabendo que há o risco de o leitor desistir da leitura no meio do caminho. Mas eu gosto. O assunto principal hoje é a pole de Verstappen para o GP do Bahrein na Malásia, que é o único jeito de chamar essa corrida de Sepang. Mas se não fosse o nariz de cera, vocês não lembrariam de nada disso que escrevi acima — sobretudo da passagem de Zagallo pela Lusa, o único time paulista que ele dirigiu na vida. Missão cumprida.)

A primeira pole da Red Bull no ano transforma Verstappen no favorito à vitória na corrida da madrugada de amanhã — largada às 4h da Papuda, onde deveria estar o ex-presidente que, dizem, passa o dia vomitando e com soluços; espero que seja verdade, qualquer sofrimento é pouco para aquele vagabundo. O holandês não fazia uma pole desde o GP de Abu Dhabi do ano passado, prova que encerrou a temporada.
É interessante voltar ao tema do motor, porque a Red Bull, não sem alguma razão, trata o resultado como a primeira pole da unidade de potência saída de suas instalações, sem levantar muito a bola da Ford, sua nova parceira.
Não deixa de ser uma verdade. Quando a Honda avisou, em 2020, que iria deixar a F-1 no final de 2021, a equipe ficou meio sem saber o que fazer. Então, montou uma fábrica e criou a RBPT, Red Bull Powertrains, para fazer seus próprios motores. A Honda se arrependeu da decisão de sair da categoria e voltou atrás. Fez novo acordo com o time, cedeu os direitos intelectuais e industriais de seus motores e continuou construindo suas unidades e fornecendo para a Red Bull via HRC, sua divisão de corridas. O motor, então, passou a se chamar Honda RBPT.
O acordo terminou no fim do ano passado. Nesse período, a Red Bull chegou a negociar uma parceria com a Porsche, que não deu certo, e acabou fechando com a Ford, inserindo a marca americana no processo de produção e desenvolvimento dos motores da atual geração, que estrearam neste ano. Seus motores são mais RBPT descendentes da Honda do que Ford. Mas levam a marca Ford também. Portanto, Ford.
Quando à Honda, hoje fornece motores para a Aston Martin e não são grande coisa.
Dadas as explicações, à classificação.
Sepang viveu um sábado de intenso calor, como de hábito, com termômetros batendo nos 36°C. No asfalto, 58°C. Max dominou Q1, Q2 e Q3, fazendo os melhores tempos nos três segmentos da sessão que definiu o grid. O carro da Red Bull melhorou a olhos vistos depois das férias da F-1. Prova disso é que Isack Hadjar, companheiro de Verstappen, fez o terceiro tempo na classificação. Vai largar em oitavo porque perdeu cinco posições no grid por troca de alguns componentes do motor. Mas é candidato a pódio, mesmo assim.

O holandês terá a seu lado na primeira fila Lewis Hamilton, da Ferrari. Seu tempo foi 0s298 pior que o de Max, que fez a pole com 1min35s130. Uma breve observação: em 2017, no último GP da Malásia, Lewis, ainda na Mercedes, fez a pole com 1min30s076. Mais de 5s mais rápido. Isso porque em 2017 não havia essa divisão 50-50 entre a potência gerada pelos motores elétricos e a combustão. Nas grandes retas de Sepang, as baterias não aguentam o tranco. A energia acaba antes.
Esses dois gênios numa primeira fila é algo que não acontecia desde o GP da Hungria de 2023. Mas, na mesma ordem — Max na pole e Lewis em segundo —, desde o GP de Abu Dhabi de 2021, que decidiu o título daquela temporada. A segunda fila terá Kimi Antonelli e Charles Leclerc. Na terceira, Lando Norris e Oscar Piastri. George Russell ficou apenas em sétimo, 0s741 atrás de Verstappen. A Mercedes decepcionou. “Trouxemos nossas atualizações para cá pensando que nosso carro seria 0s3 mais rápido por volta. Ficamos 0s5 mais lentos”, resmungou o chefe Toto Wolff. Fechando os dez primeiros, Hadjar em oitavo, Pierre Gasly em nono e Gabriel Bortoleto em décimo.
A surpresa do dia foi o avanço ao Q2 da dupla da Aston Martin, pela primeira vez no ano. Fernando Alonso larga em 12º e Lance Stroll, em 14º. No Q1, foram eliminados, pela ordem, Nico Hülkenberg, Oliver Bearman, Esteban Ocon, Alexander Albon, Valtteri Bottas e Sergio Pérez. Dois dos que passaram ao Q2, no entanto, largarão no fundo do grid por punições — Franco Colapinto e Arvid Lindblad. O grid está aí embaixo.

Verstappen fez a 49ª pole de sua carreira. Celebrou com orgulho a conquista do motor “feito em casa”, como descreveu, e disse que, largando na frente, não tem outro objetivo que não seja vencer. Algo que ainda não conseguiu neste ano. Foi também a primeira pole “não-Mercedes” de 2026. A equipe oficial de fábrica tem 11, a McLaren fez três e a Alpine, uma.
Há quem considere Hamilton, com a Ferrari, o maior obstáculo de Max para um triunfo na prova da próxima madrugada, a 16ª do campeonato. Mas eu não apostaria nisso. O ritmo de corrida do time italiano é sempre errático. Se alguém pode incomodar, é Antonelli — apesar do pessimismo de Toto Wolff. Não vejo a McLaren na briga. Muito menos Russell. A rigor, estou até forçando a barra colocando Kimi como candidato a mosca na sopa de Verstappen. Sendo bem sincero, qualquer resultado que não seja uma vitória do holandês será uma surpresa muito grande.
Não há previsão de chuva para a hora da corrida, mas isso não significa que não possa ocorrer. Ao contrário. Naquela região do planeta, pode chover de repente a qualquer hora. Então, fiquemos atentos. No seco, é prova para pelo menos duas paradas para troca de pneus. O asfalto antigo, rugoso, áspero e abrasivo, está acabando com a borracha de todo mundo. Não é exatamente um desgaste, mas uma degradação. Trocando em miúdos: não é como seu pneu que fica careca de tanto usar; o asfalto que parece lixa estraga tudo, mesmo, deixa o pneu detonado. No caso de um carro de corrida, pneus em más condições significam menos aderência, menos aderência resulta em velocidades menores, e assim vai.
Ver esse GP na TV é uma boa forma de começar o domingo. A corrida acaba lá pelas seis da manhã. Depois dela, tome um bom café, um banho redentor, vista vermelho, faça o L e vá votar. Desça o dedo no 13 sem medo.
Não entregue o Brasil a criminosos fascistas. A não ser que você seja igual.