Tenho TOC editorial. Há anos escrevo textos pós-GP, geralmente às segundas-feiras. Às vezes atraso, publico na terça. Na quarta, raramente. Na quinta, nunca. Pensei em pular, nesta semana. Mas não consigo. TOC editorial. Assim, o “Sobre ontem…” do GP do México, por razões que não interessam muito a ninguém, atrasou demais e vai hoje, quinta, direto de Interlagos, véspera da abertura dos treinos para o GP de São Paulo.
Então, aceleremos.
A IMAGEM DA CORRIDA

A imagem da corrida, embora batida e já quase velha, seria essa aí embaixo, histórica, já. E deveria abrir este texto por razões estéticas: nestas plataformas em que tenho publicado — principalmente o Substack —, fotos de abertura têm de ser horizontais. Mas aí eu repetiria a de domingo, não tem graça.
Além do mais, gosto mais desse outro ângulo: pouco comum, diferente, com um fundo difuso, imagem que resulta numa foto vertical que, se eu tivesse uma primeira página de jornal para editar, daria para rasgar de cima a baixo, enorme.
Do tamanho do talento desse menino Kimi Antonelli.

Antonelli que, no começo do ano, eu tinha resolvido parar de chamar de menino, garoto, moleque. Mas é difícil escapar da alcunha juvenil. Ao menos enquanto ele o for — um juvenil de apenas 20 anos.
O textão da corrida, publicado já na madrugada de segunda, esgotou o tema, creio: a precocidade do piloto, a aposta arriscada (mas certeira) de Toto Wolff, as dificuldades do primeiro ano, as estatísticas impressionantes.
Vamos deixar essas coisas de lado, pois.
O que faltou dizer, e digo neste vídeo, gravado na segunda-feira, foi que Antonelli representa uma possível — vejam bem: possível — virada de chave para o próprio ambiente da F-1. Por ser quase uma criança, Kimi carrega uma certa pureza no olhar, nos gestos, no comportamento. Não é um sacana; não teve tempo suficiente de vida para ser isso, ainda. Tem carisma, aura. E é querido por todos — exceção feita, por óbvio, a George Russell, que carregará para sempre a grande frustração de perder um título que, pela lógica do esporte, deveria ser dele. Mas a tristeza passa. Sempre há uma próxima corrida, essa é a verdade do automobilismo.
A postura quase angelical de Antonelli, sua ingenuidade, aquela inocência encantadora da juventude — salve, Niterói! —, isso tudo convertido em um campeão do mundo, podem desintoxicar um pouco o ambiente competitivo, duro, rigoroso e escroto da F-1.

Ambiente que conheço bem. Vivi nesse universo de 1988 a 2005, semana sim, semana não. Convivi com gente como Senna, Prost, Piquet, Mansell, Briatore, Ecclestone, Dennis, Schumacher (os dois, Michael e Ralf), Todt, Balestre, Mosley, Brundle, Symonds, Ducarouge, Horner, Head, Moreno, Villeneuve, Barrichello, Massa, Brawn, Barnard, Fiorio, Irvine, Verstappen (o pai), Alonso, Pizzonia, Burti, Hamilton, Montoya, Gascoyne…
Essa lista foi feita de supetão sem Google ou IA, sem ordem lógica ou cronológica, tem pilotos, dirigentes, engenheiros, e todos, em comum, tinham algo que a F-1 é pródiga em disseminar, quando não de se orgulhar: mau humor, competitividade acima de tudo, falta de educação, ausência de empatia, rancor, empáfia, ar de superioridade. E incluo jornalistas aí, e me incluo — jornalista que viaja o mundo cobrindo corridas de F-1 se acha especial, diferente e melhor que os outros. Vejam: não estou falando de caráter de ninguém, apenas de características comuns. Que se a gente jogar num liquidificador, pode resumir em uma palavra: tóxico.
A F-1 sempre foi um ambiente tóxico. Em “nossa” defesa poderemos sempre recorrer ao famoso zeitgeist, o espírito da época, e a ele pode-se atribuir muito do que escrevi acima — os anos 80 e 90 foram punk, acreditem. Mas importa o hoje, não o ontem, e para concluir, resumo também: Antonelli não tem cara de tóxico, e sua leveza tem o potencial, espero, de contaminar isso aqui — “aqui” porque estou em Interlagos.
Que assim seja.
A FRASE DO MÉXICO
“Ele é fenomenal. E sou muito grato de poder estar nesta corrida e de testemunhar isso.”Lewis Hamilton

Para exemplificar toda essa minha cantilena em defesa de uma F-1 imaculada, casta e virtuosa, fico com as fotos de Verstappen (abaixo) e Hamilton (acima) festejando, felizes, o título de Antonelli. Sei que tem muita gente que gosta de ver pilotos (e atletas em geral) com os dentes cerrados, sangue nos olhos, armas em riste.
Mas um pouco de ternura sempre cai bem.

Ternura que está faltando na Ferrari. A equipe viveu mais um domingo de desacertos, desta vez por obra e graça de Charles Leclerc, que partiu feito um doido para cima de Hamilton na primeira volta da corrida mexicana. Passou o companheiro por fora da pista e tomou 5s de multa. O companheiro, por sua vez, perdeu a posição para Verstappen e a chance de lutar pela vitória. Um desastre. “O cara tem 28 anos. Não é questão de idade”, disse Lewis sobre o monegasco. “É como um tudo ou nada o tempo todo. Tipo: ou eu venço, ou nenhum de nós. Não pode ser assim. Se tivéssemos trabalhado como uma equipe hoje, teríamos feito uma dobradinha. Vamos ter de conversar sobre isso e não será uma conversa fácil.”
Não sei se a conversa já rolou, porque Leclerc foi correndo para Mônaco depois da prova para acompanhar o nascimento de sua primeira filha, Bianca, na terça-feira. Mas quando chegar a São Paulo, vai ouvir. “É tudo uma questão de respeito pela marca, pelo time, pelos que trabalham aqui. É difícil digerir uma derrota como essa”, falou o chefe ferrarista Frédéric Vasseur. Pode ser que o calor da contenda tenha esfriado um pouco com os dias passados, com a paternidade do rapaz, a mudança de ares para uma prova amistosa no Brasil, lugar que Hamilton adora, até mesmo o título de Antonelli, que se sobrepôs aos entreveros vermelhos.
Mas que os caras precisam conversar, precisam.

O NÚMERO DO MÉXICO

…títulos estiveram no pódio domingo: sete de Hamilton, quatro de Verstappen e um fesquinho de Antonelli. Foi a primeira vez que isso aconteceu na F-1. O recorde anterior era do GP da Austrália de 2023, que teve, pela ordem, Verstappen, Hamilton e Alonso nas três primeiras posições. Max tinha dois títulos, ainda. Com os sete de Lewis e os dois de Fernandinho, perfizeram 11.

Encerramos com pílulas para passar a régua na prova de domingo passado:
- No México, Sergio Pérez completou seu 300º GP na categoria
- O público no Hermanos Rodríguez nos três dias do evento foi de 405.363 pessoas. Recorde. Todas as corridas deste ano tiveram recorde de público. Pelo menos é o que diz a Liberty.
- Antonelli foi o sexto piloto na história a conquistar o título no mesmo ano de sua primeira vitória. Os outros: Giuseppe Farina (1950), Jack Brabham (1959), Graham Hill (1962), Denny Hulme (1967) e Keke Rosberg (1982).
- Kimi chegou a 380 pontos no campeonato e Verstappen assumiu a vice-liderança com 261. Hamilton (259), Russell (250) e Leclerc (245) lutam pelo segundo lugar no campeonato.
- Na terça-feira seguinte ao GP do México, como se sabe, Rafael Câmara foi confirmado na Haas para o lugar de Esteban Ocon no GP de São Paulo e provavelmente em Las Vegas também. Ele será o primeiro nordestino a largar em um GP de F-1, o 34º brasileiro. Mas deixemos Câmara para os próximos textos, entrando na cobertura de Interlagos.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… de Ryo Hirakawa, que com as punições a Gasly, Colapinto e Piastri acabou subindo de 13º para décimo, marcando um pontinho em sua corrida de estreia que pode ser, no final das contas, sua única na F-1. Ele talvez volte ao cockpit da Haas até o final do ano, se houver GPs no Catar e em Abu Dhabi – nesse caso, é possível que Câmara tenha de disputar as provas de encerramento da F-2, campeonato que lidera.

NÃO GOSTAMOS… das patacoadas da Ferrari, claro. Sendo bem honesto, gostamos, porque é sempre divertido quando times grandes mergulham com gosto na crise — vide o Corinthians, quase na Série B. Mas, do ponto de vista técnico, foi mesmo um vexame não ganhar essa corrida, que estava fácil. Aliás, quem disse isso foi Verstappen: “[Hamilton e Leclerc] São dois primeiros pilotos. E isso custou a vitória para eles hoje”.