A IMAGEM DA CORRIDA

Todos no pódio, menos Piastri: climão na McLaren

SÃO PAULO (só tem chope) – Acabou a corrida, a McLaren se sagrou campeã de Construtores pela décima vez (só a Ferrari tem mais títulos, 16), Lando Norris estava no pódio, subiu todo mundo para comemorar.

Todo mundo?

Não. Oscar Piastri estava lá embaixo, no chiqueirinho da imprensa, dando entrevistas, mal-humorado. Ninguém esperou o australiano para fazer a foto. Ninguém lembrou que a equipe tem dois pilotos, não um.

É um australianinho contra esse mundão todo, e é claro que a maioria dos integrantes da McLaren prefere que Norris seja campeão. É uma equipe inglesa, o menino está lá desde os tempos em que tinha espinhas no rosto (um dia ainda vou escrever “desde quando não tinha nem pelo no saco”, mas acho meio deselegante, acho que meu público não está preparado para esse tipo de coisa), se pudessem escolher, escolheriam Landinho, tão bonitinho.

O que não quer dizer que estão sacaneando Piastri. Nem vão, apesar dos recentes arroubos de contrariedade expostos nas comunicações de rádio com o time em Monza (mandaram entregar o segundo lugar ao companheiro) e, agora, em Singapura — no caso de domingo, a agressividade incomum de Norris na largada, que resultou num toque no companheiro e, ipso facto, a ultrapassagem e o terceiro lugar ao fim da corrida.

Na prática, Piastri chegar em quarto e Norris em terceiro não muda muito o quadro do campeonato. O inglês está 22 pontos atrás e segue precisando descontar quatro pontos por etapa do parceiro para ser campeão. Em Marina Bay, tirou três. Se Oscar colocar a cabeça no lugar, não perde o título.

Mas e o Max Verstappen, você não acha que dá, não?

Achar, achar, não acho. Mas se eu fosse piloto ou chefe na McLaren, estaria pedindo receita de calmante para algum médico amigo. Depois do fiasco na Hungria, um nono lugar horroroso, Max reagiu. Em quatro corridas, fez 86 pontos, contra 52 de Piastri e 39 de Norris. A diferença ainda é grande. O australiano tem 63 pontos de vantagem sobre o tetracampeão e o inglês, 41. Os carros papaia não ficaram ruins de um dia para o outro. O holandês precisa de muitos milagres para virar o jogo. Mas sendo quem é, é melhor deixar as barbas de molho (corrigi o texto graças a um blogueiro que me chamou a atenção por eu ter atribuído a frase a Silvio Luiz, que nunca disse isso — ele dizia “pelas barbas do profeta!”.)

O NÚMERO DE SINGAPURA

10

…títulos de Construtores foram conquistados pelos motores Mercedes em 12 temporadas da chamada era híbrida da F-1, que começou em 2014. As únicas derrotas aconteceram em 2022 e 2023 para a Honda, que empurra os carros da Red Bull (até o fim deste ano, diga-se; em 2026 os japoneses estarão na Aston Martin e a equipe dos energéticos vai de Ford). Desses dez, a Mercedes de fábrica ganhou oito e a McLaren, dois.

Dois detalhes que merecem ser registrados neste rescaldo do GP de Singapura, ainda sobre o título da equipe papaia. Primeiro, a homenagem que o chefe Andrea Stella fez a Gil de Ferran, colocando no uniforme um pin com o capacete do ex-piloto brasileiro, morto no final de 2023. Ele foi um dos artífices da remontagem da McLaren, cujos frutos começaram a ser colhidos no ano passado. Segundo, a grosseria de Piastri com o patrão Zak Brown. No Parque Fechado, o americano agradecia seu piloto pela conquista do bi e Oscar arrancou o fio do rádio antes que ele terminasse. Nem respondeu.

Estava bem puto, o menino.

A FRASE DE MARINA BAY

“A jornada deles de volta ao topo é uma inspiração e uma referência para o que queremos alcançar.”

James Vowles, chefe da ex-grande Williams, sobre a McLaren
A foto oficial, agora com Piastri: equipe renasceu no meio de 2023

E tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas precisamos falar de quem ganhou a corrida, né? George Russell teve uma atuação impecável e merece todos os aplausos do mundo. Merece um contratinho, também. O inglês ainda não renovou com a Mercedes, embora todos saibam que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde.

A questão pendente ainda é a duração do acordo. George quer um compromisso longo, daqueles a perder de vista, até que a morte os separe. Toto Wolff ainda reluta, porque gostaria muito, do fundo do coração, de arrancar Verstappen da Red Bull. Mas o elegante piloto do #63 já deu mostras de que pode liderar o time prateado nos próximos anos. Talvez seja o caso de valorizar o que tem em casa.

Abaixo, algumas fotos de Russell no domingo. Ele fez questão de tirar uma igual à de Lewis Hamilton em 2018 depois de ganhar em Marina Bay. “Eu sonhava com isso”, disse o galã mercêdico.

Falando em Hamilton, só para não esquecer: ele fez a melhor volta da corrida, no fim das contas, ao colocar pneus macios nas últimas voltas. E daí?, perguntará alguém. É que com essa voltinha aí, Lewis chegou a 16 temporadas seguidas tendo feito a famosa fastest lap de pelo menos um GP por 16 temporadas seguidas, desde 2010. É um recorde.

A marca anterior pertencia a Michael Schumacher, que fez melhores voltas de 1992 a 2006 em todas as temporadas, 15 consecutivas.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… da corrida de Fernando Alonso, que acabou em sétimo após a punição a Hamilton por sair da pista várias vezes quando se viu sem freios nas últimas duas voltas da prova. O espanhol lutou bravamente, largou com pneus macios e segurou a onda por várias voltas, teve um pit stop demorado, correu atrás do prejuízo (não me corrijam, a expressão faz todo o sentido) e acabou sendo escolhido pelo amigo internauta como o “Piloto do Dia”. “Não esperava, quase sempre são os mais jovens que são votados, né?”, espantou-se.

NÃO GOSTAMOS… da Alpine, que bateu na quinta corrida seguida sem marcar pontos. Em 18 etapas, aliás, o time francês pontuou em apenas cinco. Está em último na classificação, com 20. Todos sabem que no ano que vem a Renault pica a mula, já acertou para usar motores Mercedes, se alguém aparecer para comprar, leva. Mas não precisava ser um fim de feira tão triste. Franco Colapinto, à ESPN argentina, não mediu palavras: “Os dois carros estão caindo aos pedaços, são um desastre, não dá para fazer nada”.