SÃO PAULO (já vi melhores, já vi piores) – Pô, os caras dizem que tem 83% de chances de chuva e não cai um pingo… Bem, mesmo assim foi bacana o GP da Alemanha, corrida de piloto, e hoje Hamilton conseguiu uma daquelas vitórias de piloto, mesmo. Não teve a ver com pneus, pista molhada, erros de box, asas móveis.
A começar pelo sábado, com o segundo lugar no grid. E a largada, que o colocou na frente de Webber. Webber larga mal, puta merda. Duas poles e não transformou nenhuma delas em vitória.
E aí foi legal, porque vejam só. Na primeira parte da corrida, os três primeiros eram
Hamilton, Webber e Alonso
Corzinha nos nomes para vocês perceberem como foi a bagaça.
O espanhol tinha perdido a posição para Vettel no início, mas na oitava volta passou de novo. Fernandinho não perde tempo. Massa perde. Ficou até a 12ª volta para passar Rosberg, apesar dos insistentes apelos de seu engenheiro pelo rádio. Passa logo, senão vai foder a porra toda!, dizia o engenheiro. Como se verá adiante, em nota à parte, fodeu a porra toda.
Aí vieram os primeiros pit stops — volta 14 para Webber, 16 para Hamilton e Alonso. E a segunda parte da prova teve
Webber, Hamilton e Alonso
Sacaram a mudança nas cores? Se deu bem o canguru, parando duas voltas antes.
Só que Hamilton não é um piloto que desiste fácil. Os três ficaram andando perto o tempo todo. Veio a segunda bateria de pit stops, volta 30 para Mark, 31 para Lewis, 32 para Fernandinho.
Trocou tudo de novo e ficou
Hamilton, Alonso e Webber
Se deu mal o canguru, desta vez.
Mas não foi tão simples assim, claro. Os momentos pós-pit stops nessa segunda bateria foram bem legais. Quem, na verdade, voltou na frente de todos foi Alonso. Webber tinha perdido a posição para Hamilton e não conseguiu recuperá-la no breve encontro que tiveram quando o inglês saiu dos boxes, com pneus mais frios. Na volta seguinte, Lewis viu Alonso sair na frente e foi para cima do espanhol do mesmo jeito que Webber tinha feito com ele. Só que passou. É aí que está a diferença. Luisito vai e passa. Marquito foi e não passou. Alonsito fez o possível para se manter na frente, mas não deu.
E aí as coisas meio que se acomodaram entre os três primeiros. A terceira bateria de paradas começou com Hamilton na volta 51. Alonso parou na 53, Webber na 56. El Fodón de las Astúrias ficou duas voltas mais na pista para evitar andar muito com os pneus de pau da Pirelli, mas não adiantou. E os três foram para o pódio. O ferrarista ainda pegou carona no carro do australiano, porque a equipe avisou que se ele não parasse não ia ter gasolina suficiente para os testes da FIA e ia foder a porra toda.
Vettel fez sua pior corrida no ano. Pela primeira vez ficou fora do pódio e atrás de seu companheiro. A diferença de 80 pontos que ele tinha para Webber na classificação caiu para 77. Não é motivo de desespero. Webber teria de fazer 8,5 pontos por corrida a mais que Sebastian para ser campeão. Mesmo vencendo todas, com Tião Alemão em segundo, não bastaria. O campeonato acabou faz tempo e Vettel é o campeão, mas dele falaremos no próximo post exclusivo, dedicado à briga com Massa que terminou com uma porca voando alegremente pelo pitlane.
No mais, alguns pilotos nos divertiram com gosto nesta manhã, como Sutil num ótimo sexto lugar, Kobayashi-mito, de 17° no grid para nono na corrida duelando com Schumacher & outros, Petrov segurando todo mundo como se estivesse defendendo Leningrado das forças do Reich, Michael brigando com uma vitalidade juvenil por posições intermediárias, dando uma aula de dignidade e esportividade diante de seu público…
Bom GP, no fim das contas. Hamilton ganhou pela segunda vez no ano, 16ª na carreira, voltando a empatar com Vettel nas estatísticas. Eles estão em 14° na história, ao lado de Stirling Moss.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.