SÃO PAULO (sonhar com o impossível é o primeiro passo para torná-lo possível) – Eu achava que a Ferrari ainda não estava bem o bastante para ganhar corrida. Ledo e ivo engano. Está sim, porque tem um cara como El Fodón ao volante. O espanhol foi soberbo hoje na China. Pé embaixo do começo ao fim, sem perder tempo nas suas voltas depois das paradas e o resultado: fim do jejum de 12 corridas sem vitórias e 31 no currículo. Empatou com Mansell e, agora, só tem menos vitórias que os grandões Schumacher, Prost e Senna.
Três provas, três vencedores diferentes de três equipes diferentes. Como se previa, o campeonato começa mais ou menos como o do ano passado. Com um detalhe nada desprezível: Alonso teve um início de temporada bem pior em 2012, com um carro lamentável. E ainda assim lutou pelo título até o fim. Agora, tem uma caranga bem mais que razoável. Pode não ser um foguete em classificação, mas é honestíssima em ritmo de corrida. E, nessas condições, ele sabe o caminho das pedras.
Meu favorito Raikkonen começou a dançar na largada. Patinou e caiu de segundo para quarto. Depois ainda acertou a traseira de Pérez na 16ª volta e teve de percorrer as demais 40 com o bico todo torto e parte da asa dianteira quebrada. Não afetou tanto assim seu desempenho. Prova de que aquele monte de aletas, aletinhas e aletonas não passa de frescura de projetista. Mesmo assim, terminou em segundo com a pilotagem segura de sempre. Hamilton, meu outro favorito, fechou o pódio. Vai ter dificuldades para vencer enquanto a Mercedes não saciar o apetite de seu carro por borracha. É um dos que mais sofrem com a queda brusca de performance dos pneus. Cruzou a linha 0s2 à frente de Vettel porque o W03 é um come-Pirelli dos infernos. Mas levou mais um troféu para casa. O carro é rápido, bem rápido. E Lewis tem pilotado com cabeça e serenidade. A mudança de ares está lhe fazendo bem. E muito mal à McLaren.
Foi interessante, esse GP chinês, embora tenha sido previsivelmente ditado pela questão pneumática. Faz parte. Cada um faz sua aposta e vê se no final dá certo. Vettel, por exemplo, largou com os duros, levou o primeiro stint até onde dava, escalou o pelotão e transformou o nono lugar no grid num quarto no final. Fez a última parte da prova com macios rapidíssimos e poderia beliscar o pódio se não fosse afoito demais na metade da última volta ao retardar uma freada na ânsia de passar Hamilton. Perdeu meio segundinho ali e não teve tempo para recuperar. Button também largou com os duros, compensou as deficiências da McLaren com uma tocada limpa e delicada (“Ricciardo, uau!”), fez uma parada a menos (duas, contra três da maioria) e chegou em quinto.
Menos bem, para não dizer mal, foi Massa. Novamente perdeu ritmo depois do primeiro pit stop e passou boa parte da corrida empacado atrás de Di Resta. À Globo, admitiu que seus pneus não funcionaram bem “pelo meu estilo de pilotar”. Terminou em sexto. E fecharam os pontos Ricciardo-uau (ótima corrida), Resta Um (boa, também), Grojã (médio) e o incrível Hulk, que também largou de médios e esteve à frente de Vettel na liderança até fazer a primeira parada. No fim, mordeu apenas um pontinho. Melhor que nada.
Alonso assumiu a ponta logo na quinta volta, porque Hamilton, mesmo tendo largado bem, engoliu sua borracha rapidinho e foi ultrapassado — Massa foi na balada, em bela manobra. O mercêdico fez o primeiro pit stop na sexta volta. Quando El Fodón parou, na sétima, era o “líder real”, por assim dizer, posição que manteria até o fim — sempre que tinha alguém na frente, era alguém que precisaria parar nos boxes.
Webber, que tinha largado dos pits, jogou fora os macios já na primeira volta, mas teve um domingo daqueles. Primeiro, tentou passar por dentro de Vergne. Bateu. Trocou o bico e quando voltou para a pista o pneu traseiro se soltou. Não entendi direito se foi um problema de suspensão ou de aperto da porca. Em todo caso, abandonou. Se já tinha saído desolado da Malásia, é possível que, neste exato momento, esteja pensando numa forma não muito dolorosa de suicídio.
O entra-e-sai dos boxes, embora tenha mexido bastante nas posições momentaneamente, não alterou a essência das primeiras colocações, que eram previsíveis a partir do momento em que Alonso assumiu a ponta. A briga real era pelo segundo lugar entre Kimi e Hamilton também desde o início — porque Massa, que poderia estar nessa batalha, dela desapareceu muito rápido. Button, embora tenha andado bastante tempo na frente, só esteve por lá porque com uma parada a menos ficava sempre algumas voltas a mais na pista que os rivais antes de seus pit stops. Mas sem um ritmo muito emocionante.
Interessante, pois, a corrida. Mais interessante do que boa. Alonso recebeu a quadriculada 10s à frente do tagarela finlandês. Nunca teve a vitória ameaçada. O que é uma ótima notícia para ele e para a Ferrari. Num determinado momento, o rádio disse que ele não precisava ir tão rápido, que podia dar uma segurada. A resposta do espanhol foi algo na linha “e quem disse que estou indo rápido?”.
Vettel lidera o Mundial com 52 pontos. Raikkonen tem 49, Alonso foi a 43 e Hamilton tem 40. Massa caiu para quinto com 30. Isso se não mexerem no resultado nas próximas horas, em que estarei dormindo. É que teve um monte de gente que usou a asa móvel sob bandeira amarela, o que seria investigado depois da corrida.
Domingo que vem tem mais no Bahrein. Xìe xìe e zài jiàn.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.