Após a monótona sprint, dificilmente alguém imaginava que o GP dos Países Baixos deste domingo (23) proporcionaria tantas histórias a serem analisadas ao longo das próximas semanas. Isso quer dizer que agora vamos defender o retorno da etapa ao calendário em algum momento no futuro? Não, longe disso. Mas o caos em Zandvoort criou um cenário interessante na temporada da Fórmula 1.
Lando Norris chegou a perder a liderança para Andrea Kimi Antonelli após a relargada, mas mostrou que a McLaren realmente ganhou força com as atualizações recentemente introduzidas. Embora seja difícil imaginar o atual campeão mundial entrando novamente em uma briga por título, é inegável que os papaias ainda vão incomodar bastante a Mercedes até o fim do ano.
A Ferrari, por sua vez, arriscou diferentes estratégias com Lewis Hamilton e Charles Leclerc para tentar um pódio de qualquer jeito, mas só conseguiu mesmo deixar o clima tenso entre os pilotos. Max Verstappen, enquanto isso, despediu-se da torcida neerlandesa logo na primeira volta, já que foi protagonista de uma forte batida no momento em que contornava a curva 14.
Diante disso, o GRANDE PRÊMIO lista cinco pontos do domingo da Fórmula 1 nos Países Baixos.
Postura de campeão
Não é nenhum exagero dizer que a temporada 2026 de Lando Norris é melhor do que a passada, quando se sagrou campeão. Depois de vencer com autoridade na Hungria, o britânico voltou a tirar proveito das atualizações introduzidas pela McLaren, que desta vez focaram principalmente na parte traseira para aumentar a carga aerodinâmica. Até a corrida sprint, quando o ritmo do MCL40 ficou devendo em relação às principais rivais, era possível entender que as mudanças não estavam completamente ajustadas, o que fez com que os pneus de trás se desgastassem com mais facilidade.
Com o trabalho feito pelos papaias antes da classificação da corrida principal, o #1 garantiu a pole-position e se colocou como favorito na briga pela vitória. Conseguiu se defender muito bem na primeira largada, mas perdeu a ponta para Andrea Kimi Antonelli na segunda e viu a situação se complicar. Mas se havia dúvidas a respeito da capacidade do MCL40 de acompanhar o W17 ao longo das 72 voltas, ficou claro que o time de Andrea Stella mais uma vez soube sanar os problemas em Zandvoort.
Livre, leve e solto, sem qualquer pressão de ter de entregar resultados, visto que o cenário da F1 se desenhou a favor da Mercedes na primeira metade de ano, Norris esteve no controle da situação o tempo todo. Sem cometer grandes erros, contou com a estratégia certeira da McLaren para cruzar a linha de chegada com 11s536 de vantagem sobre o líder do campeonato. Que performance!
Isso significa que Lando entrou de vez na disputa pelo título? Não. Quarto colocado no Mundial de Pilotos, a distância para Antonelli é de 83 pontos, simplesmente muita coisa. Resta saber como o carro laranja vai se comportar em pistas com características diferentes das da Hungria e dos Países Baixos, com menos carga aerodinâmica — como o próprio GP da Itália, por exemplo, o próximo do calendário. Além disso, a Mercedes segue com o melhor equipamento do grid, e ainda terá atualizações.
De qualquer forma, o fato é que Norris e McLaren definitivamente se tornaram uma ameaça em todas as corridas.

No fim deu tudo certo…
Se Lando Norris ainda está longe de se colocar como um candidato ao título, Andrea Kimi Antonelli, pelo menos até aqui, segue tendo de se preocupar somente com George Russell e Lewis Hamilton. Em um fim de semana em que o italiano não teve um desempenho dos sonhos — inferior, inclusive, ao do companheiro de Mercedes —, conseguiu minimizar os danos ao somar mais pontos do que os rivais diretos na tabela de classificação. Ou seja, não venceu, mas saiu no lucro.
A questão que fica é: até quando? O jovem de 19 anos possui uma gordura para queimar na ponta da tabela, é verdade, mas isso não quer dizer que pode se dar ao luxo de ser derrotado pelo #1 da McLaren a cada fim de semana. Só nas duas últimas etapas, viu o britânico tirar 18 tentos. Embora o calendário encare algumas incertezas por causa dos conflitos no Oriente Médio, a Fórmula 1 deve visitar mais dez ou 11 lugares — então há muita coisa pela frente.
Só para deixar claro que isso dificilmente deve acontecer. Antonelli tem tudo para recuperar a boa forma nas semanas seguintes e voltar a vencer outras vezes, seguindo firme e forte para marcar o nome na história como o campeão mais jovem. Mas o alerta precisa ser feito. No GP da Itália, por exemplo, vai largar do fundo do grid porque a Mercedes vai trocar a unidade de potência. A pista é ótima para efetuar ultrapassagens e se recuperar — porém existe a chance de tudo dar errado também. E aí?
Bem, sobre George Russell, até teve um bom ritmo ao longo dos três dias de atividades, mas a passividade com a qual acatou o pedido da Mercedes para abrir passagem para o italiano foi um tanto patética. Isso porque ele afirmou durante as entrevistas de quinta-feira que ainda não era momento de aceitar ordens de equipe. O que mudou desde então? Poderia ter tentado segurar o colega, como fez bravamente contra Lewis Hamilton, e reduzido um pouco mais a desvantagem. Enfim, está fadado a ser o grande derrotado da temporada.

Clima pesado na Ferrari?
Se o resultado ruim na classificação praticamente acabou com as chances da Ferrari de brigar pela vitória no GP dos Países Baixos, os italianos fizeram o que era possível para incomodar McLaren e Mercedes ao longo da corrida. Para isso, optaram por estratégias diferentes com Charles Leclerc e Lewis Hamilton, que acabou escolhido para estender os stints com pneus macios e duros na tentativa de conquistar pelo menos um pódio em Zandvoort. E só não deu certo porque eles se atrapalharam.
Se o monegasco não tivesse demorado tanto para ceder a posição na volta 42 — foram exatamente dois giros para isso acontecer —, quando o companheiro estava 0s6 atrás e era nitidamente mais rápido, o heptacampeão teria totais condições de garantir o terceiro lugar. No fim das contas, a diferença entre o britânico e George Russell, que ocupou o último degrau no pódio, foi de 0s849 na bandeira quadriculada. Com total razão, o #44 adotou postura irônica ao reclamar com o engenheiro Carlo Santi: “Ótimos jeito de me fazer perder tempo, pessoal. Bom trabalho”.
A irritação foi tanta que Hamilton usou até mesmo a ex-equipe como exemplo. “É difícil quando você olha para a frente e vê os dois pilotos da Mercedes, eles recebem a chamada e imediatamente a executam”, comentou. Embora Frédéric Vasseur tenha colocado panos quentes na situação, é claro que a reunião da Ferrari após a corrida não deve ter sido das mais prazerosas. A escuderia italiana perdeu a segunda grande oportunidade de somar pontos importantes, visto que as pistas da Hungria e dos Países Baixos possuem características que se encaixam bem à SF-26.
Além disso, com o crescimento da McLaren na competição, esse não é o momento ideal para a base de Maranello se perder em conflitos internos. Eles terão duas semanas até o GP da Itália para arrumar a casa e se unir novamente. Diante dos tifosi, em Monza, as coisas precisam estar mais bem definidas para que não se atrapalhem de agora em diante. Com um carro cada vez mais competitivo, a tendência é que o clima esquente cada vez mais entre Charles e Lewis, mas ainda está cedo para isso.

Que fim triste para Bortoleto
Na análise de sábado foi destacado que Gabriel Bortoleto tinha grandes chances de pontuar mais uma vez na temporada 2026. E realmente tinha, só que tudo desandou repentinamente no GP dos Países Baixos. Embora muitos acreditassem que o giro sozinho na curva 14 tivesse afetado o desempenho no restante da prova, o brasileirou abriu o jogo após a corrida e disse que a Audi havia detectado um problema no carro antes mesmo da largada. Ele não quis revelar qual era, claro, mas confessou que então já esperava um domingo difícil por lá.
Uma pena, porque o ritmo apresentado pela equipe alemã foi positivo durante o fim de semana inteiro. Tanto é verdade que Nico Hülkenberg — que fez mágica ao evitar a colisão com o companheiro no incidente da primeira volta — se colocou como o melhor do resto. O alemão perdeu tempo valioso de pista ao abandonar a sprint devido à um novo problema de confiabilidade e mesmo assim somou pontos ao terminar na oitava posição, superando Fernando Alonso, Pierre Gasly, Yuki Tsunoda e Arvid Lindblad.
E não, você não leu errado: a Aston Martin conseguiu terminar no top-10 em Zandvoort. Os esmeraldinos estrearam a nova versão da unidade de potência da Honda e entenderam que ainda há muito trabalho a ser feito. Porém, mesmo com todo o caos — interno e externo —, acertaram em cheio na estratégia de permanecer mais tempo na pista com o espanhol, que, por sua vez, foi magistral mais uma vez. Uma injeção de ânimo importante para Adrian Newey e toda a fábrica em Silverstone.
O pelotão intermediário foi responsável por duelos interessantes. Ainda que a Racing Bulls se mantenha como principal referência do grupo, as atualizações introduzidas pela Alpine deixaram os franceses esperançosos para as próximas etapas. Na briga pelo quinto lugar no Mundial de Construtores, somentes 3 pontos separam os dois times, que estão distantes da sétima colocada Haas, que segue com 21 pontos e que em breve será superada pela Audi. Questão de tempo.
Vai deixar saudades?
Deve ter sido difícil para os torcedores neerlandeses presentes em Zandvoort aceitarem que, logo na despedida do GP dos Países Baixos do calendário da Fórmula 1, não veriam Max Verstappen brigando contra os principais rivais até o fim. Tudo bem que a Red Bull não tinha ritmo para acompanhar McLaren, Mercedes e Ferrari, mas o tetracampeão indiscutivelmente sempre é uma atração à parte. Bem, se serve de consolo, pelo menos eles tiveram a oportunidade de assistir a uma baita corrida.
Depois de terem sido mais conservadores na sprint, os pilotos realmente colocaram as manguinhas de fora neste domingo. Também deve ser levado em consideração que os carros do novo regulamento se encaixaram melhor nessa pista do que os da geração efeito solo, e muito disso devido às diferentes estratégias de gerenciamento de energia que foram adotadas. Como resultado, as ultrapassagens aconteceram não só na curva 1, o principal ponto, mas nos trechos entre a 3 e a 7 e no setor mais lento das 11 e 12.
Tudo bem, todos concordam que a edição de 2026 foi bem divertida, certo? Mas isso então quer dizer que agora vamos reclamar da saída de Zandvoort? Não mesmo. Já vai tarde. Uma corrida divertida não apaga o histórico recente ruim, mesmo que os modelos atuais aparentemente tenha se saído melhores por lá. Até porque não há garantias de que o mesmo aconteceria em 2027 — as chances seriam pequenas, na verdade. A Fórmula 1 precisa respirar novos ares.
Mas de nada adianta se livrar dos Países Baixos se a categoria mantiver os planos de competir cada vez mais em circuitos de rua, como será o caso de Madri, no início de setembro. É cedo para julgar o GP da Espanha que nem aconteceu, mas as características do traçado geram a expectativa de uma corrida travada e de poucas ultrapassagens — o que já a coloca como forte candidata a receber uma sprint no futuro (entendam a ironia). Mas esse não é o foco aqui, foi somente um exemplo. Por outro lado, Portugal e Turquia, como também a Malásia, mesmo que provisoriamente, estão voltando, então podemos ficar mais otimistas.

A Fórmula 1 volta nos dias 4 a 6 de setembro em Monza, palco do GP da Itália, 13ª etapa da temporada 2026.