Em entrevista acompanhada pelo GRANDE PRÊMIO no Bahrein, Steve Nielsen, diretor-geral da Alpine, falou sobre a polêmica envolvendo a taxa de compressão das unidades de potência da Mercedes, que também impulsionam os carros de Pierre Gasly e Franco Colapinto a partir da temporada 2026. De acordo com o dirigente, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) pode abrir um precedente perigoso caso opte por fazer mudanças nas regras de motores da Fórmula 1.

O novo propulsor da principal categoria do automobilismo virou tema de debate antes mesmo do início dos testes em Barcelona, no fim de janeiro, já que a escuderia liderada por Toto Wolff encontrou uma solução inteligente para ampliar o limite da taxa de compressão, reduzida de 18:1 para 16:1 no atual regulamento. Desta forma, os carros movidos pelo equipamento alemão ganhariam até 15 cv a mais de potência — ou aproximadamente 0s3 por volta.

Para evitar que isso aconteça, Ferrari, Audi, Honda e até mesmo a Red Bull, que inicialmente adotou uma postura neutra na situação, exigiram uma atitude por parte da FIA. Diretor de monopostos da entidade, Nikolas Tombazis defendeu mudanças nas regras e prometeu uma solução para o caso antes do GP da Austrália, etapa que abre a temporada no início de março. A Mercedes, por sua vez, até ameaçou ir à justiça, mas voltou atrás e negou que seguirá por esse caminho.

Durante conversa com a imprensa no circuito de Sakhir, Nielsen comentou a situação da Alpine em meio a esse cenário, considerando que a equipe corre sérios riscos de ser prejudicada caso as Flechas de Prata precisem realizar alterações na unidade de potência. Indignado com a situação, pois acredita que a fornecedora alemã seguiu exatamente o que o livro de regras permite, o britânico disse que toda essa confusão faz parte do mundo político da F1.

Diretor-geral da Alpine, Steve Nielsen comentou a polêmica da taxa de compressão (Foto: Fórmula 1)

“Política e F1 são… É meio que algo novo, mas não exatamente”, ironizou. “É uma grande mudança de regulamento. Algumas pessoas seguiram por um caminho, outras equipes foram por outro. Minha visão pessoal é que não estou preocupado com isso, porque acho que o regulamento é bem claro sobre quando a taxa de compressão é medida”, afirmou.

“Algumas outras pessoas estão tentando introduzir parâmetros diferentes para isso — e por razões que só elas mesmas sabem. Temos total confiança na Mercedes. Eles construíram uma unidade de potência de boa-fé, com um conjunto de regras muito claro. Estamos felizes com isso e confiamos que o órgão regulador fará a coisa certa”, continuou o representante da Alpine, que, ao ser questionado pelo GRANDE PRÊMIO na sequência, admitiu que uma possível mudança nas regras pode abrir brecha para outras polêmicas.

“Não se trata tanto da questão atual, mas, para mim, de algo mais fundamental: a forma como estamos lidando com isso. Se estamos dizendo que um conjunto de regulamentos muito claramente estabelecido pode ser contestado dessa maneira, então o que mais está fora de questão? Tudo fica aberto à discussão. Se um certo grupo de equipes não gosta de algo que está muito claramente escrito, de repente você pode ter um lobby e mudar isso, então você está em um mundo completamente diferente. As pessoas investem uma quantidade enorme de tempo e dinheiro, especialmente dinheiro, de boa-fé”, pontuou.

“Se de repente estivermos entrando em um mundo onde tudo pode ser contestado, mesmo estando claramente escrito, por qualquer motivo que não seja segurança, então acho que isso é um mundo totalmente novo em que nunca estivemos antes”, acrescentou.

Os carros da Alpine agora são impulsionados pelo motor Mercedes (Foto: Alpine)

“A discussão sobre a taxa de compressão é uma coisa, mas acho que é muito clara. Você poderia dizer que sou tendencioso porque temos o motor Mercedes no nosso carro, mas, sinceramente, é nisso que acredito. Mas a questão mais fundamental é: realmente queremos um esporte em que coisas claramente escritas possam simplesmente ser contestadas porque as pessoas têm vontade? Isso cabe à FIA responder”, declarou Nielsen.

Caso não haja uma definição sobre o caso antes do GP da Austrália, programado para acontecer entre os dias 6 e 8 de março, uma semana após o prazo de homologação dos motores, as equipes impulsionadas pela unidade de potência da Mercedes — além do próprio time de fábrica, McLaren, Williams e Alpine — podem receber a permissão para alinhar no grid de Melbourne com os propulsores atuais. Se isso de fato ocorrer, as outras fabricantes devem entrar com um protesto na FIA.

“Elas têm o direito de protestar, suponho. Então vamos a Melbourne, e se realmente acreditam firmemente que devem fazer algo, então façam alguma coisa a respeito. Não sei se a FIA vai expressar uma opinião sobre isso antes de Melbourne. Meio que espero que sim. Porque meio que espero que a história em Melbourne não seja sobre taxas de compressão. Temos carros novos lindos; seria ótimo se a história fosse sobre eles, e não sobre taxas de compressão”, sublinhou.

“Mas vocês que são mais velhos, como eu, vão se lembrar da história do difusor duplo em Melbourne, com o carro da BrawnGP [em 2009]. Então esses tipos de histórias aparecem de vez em quando, especialmente com grandes mudanças de regras”, encerrou Steve.

A Fórmula 1 volta de 18 a 20 de fevereiro, também no Bahrein, com a segunda e última bateria de testes coletivos da pré-temporada 2026. Depois, segue para a Austrália, palco da abertura do campeonato, em 8 de março.

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