Fazia tempo que Interlagos não via uma quinta-feira (5) particularmente especial para a imprensa brasileira — afinal, a última vez que dois pilotos da casa estiveram sob os holofotes foi há dez anos, quando Felipe Massa e Felipe Nasr eram os representantes do país no grid da Fórmula 1. Em 2026, o bastão foi passado para Gabriel Bortoleto e Rafael Câmara, antecipando o cenário do próximo ano após a reviravolta nas garagens da Haas que limou Esteban Ocon antes do fim da temporada. E, curiosamente, a forma como cada um lidou com o batalhão de jornalistas exemplificou bem o momento que vivem e como chegam a São Paulo.
Bortoleto foi o primeiro da dupla a falar, na tradicional coletiva de imprensa feita somente para os jornalistas locais. No hospitality da Audi, cumprimentou a todos e entrou em uma máquina do tempo quando perguntado sobre o que uma foto ao lado de Rafael, ainda crianças, remetia. “Nossa, lembro de comer a comida da tia Lê, o arroz e feijão único dela. O que Rafa e eu tocávamos o terror naquela casa, a gente deixava a tia Lê maluca! Foi a primeira casa que eu morei na Itália. Era um momento puro”, recordou.
O garoto que saiu do Brasil aos 11 anos para dar sequência à carreira na Europa seguiu a coletiva focando especialmente o primeiro ano da Audi e as atuais conquistas na F1 com o peso de ser uma fabricante em um ano de mudança de regulamento. “A Audi nunca entrou em uma competição para perder”, reforçou, com semblante firme e demonstrando confiança. Depois, ao GRANDE PRÊMIO, afirmou que, embora Mattia Binotto, líder do projeto na F1, coloque oficialmente 2030 como o ano para que a marca passe a lutar por vitórias e o título, aposta que é possível ver isso acontecer antes.
Deu para perceber ao longo de toda a condução da coletiva um Bortoleto mudado. Ano passado, quando ainda vestia as cores da Sauber, sentiu na pele o que é ser um piloto brasileiro correndo em casa — pois, se por um lado, a torcida não mede esforços para demonstrar apoio, também cria ao redor do competidor uma pressão absurda, ainda que todos digam de forma protocolar que o clima é “especial”, “maravilhoso”, “emocionante”, e tantos outros adjetivos que só mascaram a realidade: é, na verdade, um clima sempre tenso.
E Gabriel sentiu essa tensão quando tomou decisões “com o coração”, como também explicou aos jornalistas, em vez de usar a razão. O violento acidente na sprint do ano passado foi o tipo de choque (com o perdão do trocadilho) que trata de trazer todos os envolvidos de volta à realidade.

A partir dali, muitas lições foram aprendidas, e ficou nítido pela postura de Bortoleto que é um fim de semana de recomeços. Quando um dos jornalistas foi fazer uma pergunta sobre Câmara e se referiu a ele, Gabriel, como veterano, ouviu de volta: “Calma aê, pô, é só o meu segundo ano!”, e tirou gargalhadas de todos. Bom, pode até não ser ainda um veterano como a F1 enxerga nomes como Alex Albon, Pierre Gasly, George Russell e companhia, mas definitivamente não é mais um novato que falou ali por 15 minutos.
Saindo da Audi, após também papo com Nico Hülkenberg, a próxima parada foi a Haas. Primeiro, era Oliver Bearman quem atendia a imprensa, e, curiosamente, agora falando como o veterano do time com Câmara ao lado no fim de semana, apesar do arco temporal muito similar de ambos nas categorias de base. Depois do britânico, foi a vez de Câmara encarar a sabatina, só que, ao contrário de Bortoleto, a primeira rodada de perguntas contou com a mídia estrangeira — o que praticamente dobrou o número de microfones apontados em sua direção.
Câmara é um garoto de fala mansa e um sotaque pernambucano gostoso de se ouvir. Os óculos de grau trazem a ele um ar ainda mais pacato, com uma disciplina que ficou evidente em cada resposta cuidadosamente pensada. E quando a imprensa estrangeira deixou o hospitality da Haas, o traço de timidez veio à tona quando os jornalistas brasileiros disputaram a vez para fazer uma pergunta. O ‘Rafa’ quase que em uníssono o fez erguer as sobrancelhas e dar aquele tal ‘riso de nervoso’ antes de ter a atenção capturada pelo vencedor.

É tudo ainda muito novo para ele, mesmo já estando acostumado com os bastidores pelo trabalho de anos na Academia de Pilotos da Ferrari. A rotina de um fim de semana de corrida também está longe de ser novidade para alguém que carrega títulos nas principais categorias de base e lidera a F2, porém há uma diferença considerável quando se encara o protagonismo em um fim de semana de F1. Porque não há como negar que, ao menos nessa parte, Bortoleto realmente carrega uma experiência importante para ser passada ao colega quando chegar o apagar das luzes no domingo.
A Fórmula 1 volta de 6 a 8 de novembro em Interlagos, palco do GP de São Paulo. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades da 20ª etapa da temporada 2026 da Fórmula 1 AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.
Além disso, o GP estará in loco com os repórteres Evelyn Guimarães, Luana Marino, Vicente Soella e Daniel Balsa.
F1 2026: confira horários do GP de São Paulo no Brasil, em Portugal, Cabo Verde, Angola e Moçambique
| DIA | ATIVIDADE | BRASIL* | PORTUGAL | CABO VERDE | ANGOLA | MOÇAMBIQUE |
| 6/11 | Treino livre 1 | 12:30 | 15:30 | 14:30 | 16:30 | 17:30 |
| 6/11 | Treino livre 2 | 16:00 | 19:00 | 18:00 | 20:00 | 21:00 |
| 7/11 | Treino livre 3 | 11:30 | 12:30 | 13:30 | 15:30 | 16:30 |
| 7/11 | Classificação | 15:00 | 18:00 | 17:00 | 19:00 | 20:00 |
| 8/11 | Corrida | 14:00 | 17:00 | 16:00 | 18:00 | 19:00 |
*Horários de Brasília