O ultimato de Flavio Briatore aos torcedores argentinos nesta quarta-feira (23) em Baku não surgiu de um episódio isolado. Desde que Franco Colapinto chegou à Fórmula 1, em agosto de 2024, uma parcela radicalizada dos seguidores do piloto transformou incidentes comuns de pista, decisões esportivas e até notícias falsas em campanhas de ataques nas redes sociais.

A lista de alvos cresceu rapidamente. Jack Doohan e familiares receberam ameaças enquanto o australiano disputava a vaga da Alpine com Colapinto. Yuki Tsunoda foi atacado por uma discussão banal em um treino. Esteban Ocon recebeu ameaças de morte depois de uma colisão pela qual assumiu a culpa. Comissários da FIA tiveram a integridade questionada e foram alvo de assédio após uma punição. Agora, Pierre Gasly revelou que mensagens ameaçadoras chegaram à namorada e a outros integrantes da família.

É necessário fazer uma distinção: os episódios foram provocados por uma parcela da torcida, não por todos os argentinos ou por todos os fãs de Colapinto. O próprio piloto já condenou publicamente o comportamento, pediu respeito aos adversários e ameaçou bloquear seguidores agressivos.

Ainda assim, a repetição e a gravidade dos casos mostram uma escalada. A seguir, o GRANDE PRÊMIO relembra os principais episódios documentados desde a estreia de Colapinto.

Lawson vira um dos primeiros alvos após toque em 2024

Um dos primeiros sinais apareceu no GP da Cidade do México de 2024. Liam Lawson e Colapinto disputavam posição quando houve contato, causando danos no pneu traseiro do carro do argentino e, principalmente, na asa dianteira do neozelandês. Como resultado, Franco ainda recebeu uma punição de 10 segundos pela responsabilidade no incidente.

Apesar da decisão dos comissários, Lawson passou a ser atacado nas redes por seguidores de Colapinto. O neozelandês já enfrentava a torcida mexicana por causa da rivalidade com Sergio Pérez e acabou atraindo também a ira de parte dos argentinos.

O episódio não alcançou a mesma dimensão dos casos seguintes, mas revelou uma característica que se repetiria: qualquer adversário envolvido em uma disputa com Colapinto poderia se transformar imediatamente em alvo online, independentemente da avaliação dos comissários.

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Liam Lawson foi o primeiro alvo da torcida argentina, ainda em 2024 (Foto: Red Bull Content Pool)

Campanha contra Doohan começa antes mesmo da temporada 2025

A situação se tornou mais grave quando a Alpine contratou Colapinto como piloto reserva para 2025. Como Jack Doohan havia sido escolhido para começar a temporada ao lado de Gasly, parte da torcida argentina iniciou uma campanha para pressionar a equipe e defender a substituição do australiano.

Comentários ofensivos passaram a ocupar as publicações da Alpine, de Doohan e de pessoas próximas ao piloto. A hostilidade foi tão evidente que Jamie Campbell-Walter, responsável pela carreira de Colapinto na Bullet Sports Management, precisou repreender os próprios seguidores do argentino.

Segundo Campbell-Walter, os fãs que atacavam Doohan acreditando ajudar Colapinto estavam, na verdade, prejudicando a imagem do piloto de Buenos Aires. O empresário pediu apoio a toda a equipe e condenou insultos direcionados a Jack, Gasly e à Alpine.

A campanha ultrapassou as críticas esportivas. Doohan revelou posteriormente que recebeu ameaças por e-mail contra ele e familiares. Durante o GP de Miami, o australiano precisou recorrer à segurança pessoal 24 horas por dia porque ele, a namorada e o pai, Mick Doohan, estavam preocupados com a própria integridade.

Pouco depois da etapa nos Estados Unidos, Doohan perdeu a vaga para Colapinto.

Jack Doohan foi substituído por Franco Colapinto na Alpine em 2025 (Foto: Gabriel López / Grande Premio)

Tsunoda é atacado por gesto durante treino em Ímola

A estreia de Colapinto pela Alpine, no GP da Emília-Romanha de 2025, produziu outro episódio. Durante o primeiro treino livre, o argentino atrapalhou Yuki Tsunoda, que reagiu gesticulando dentro do carro.

A cena comum em sessões de pista foi suficiente para desencadear uma onda de mensagens ofensivas — muitas delas escritas em espanhol — nas redes sociais do japonês.

Colapinto repudiou os ataques contra Tsunoda e reconheceu que alguns seguidores eram “eufóricos” e “agressivos”. O argentino pediu respeito e afirmou que bloquearia usuários que ultrapassassem os limites.

Tsunoda também se manifestou. O então piloto da Red Bull disse que estava ciente dos ataques e sugeriu que a própria Fórmula 1 precisaria intervir caso o comportamento continuasse piorando.

Notícia falsa provoca novos ataques à família Doohan

O mesmo fim de semana em Ímola produziu um caso ainda mais grave. Depois de Colapinto bater durante a classificação, começou a circular uma captura de tela atribuída a Mick Doohan, pentacampeão da classe principal do Mundial de Motovelocidade e pai de Jack.

A publicação falsa mostrava Mick supostamente reagindo com um emoji de risada ao acidente do argentino. O conteúdo havia sido criado por uma conta de paródia, mas foi reproduzido como verdadeiro por veículos e perfis da Argentina.

A consequência foi uma nova onda de ataques contra Jack, Mick e outros integrantes da família. Doohan precisou publicar a postagem original do pai e demonstrar que a imagem que circulava era falsa.

Por favor, parem de assediar minha família”, pediu o australiano.

O caso mostrou como a combinação de rivalidade esportiva, desinformação e reação instantânea das redes poderia gerar consequências reais. Mesmo depois do desmentido, os ataques já haviam atingido toda a família Doohan.

Pierre Gasly foi alvo de insultos já em 2025 (Foto: Alpine)

Gasly é atacado até em publicação sobre projeto beneficente

No GP dos Países Baixos de 2025, Gasly também virou alvo depois de permanecer à frente de Colapinto durante parte da corrida. Torcedores argentinos entenderam que o francês havia impedido o companheiro de buscar uma posição melhor, embora a Alpine não tivesse determinado uma troca entre os carros.

Os ataques se espalharam pelas publicações de Gasly no Instagram. As mensagens apareceram até mesmo em um conteúdo sobre a fundação beneficente mantida pelo piloto francês.

A situação reforçou o clima de antagonismo dentro da própria Alpine. Em vez de a dupla ser tratada como parte da mesma equipe, uma parcela da torcida passou a enxergar Gasly como obstáculo ao sucesso de Colapinto.

Ocon recebe ameaças de morte após acidente na China

A temporada 2026 produziu um novo salto de gravidade. Durante o GP da China, Esteban Ocon tentou ultrapassar Colapinto na disputa pelo décimo lugar e atingiu o carro do argentino. Os dois rodaram, e o francês recebeu uma punição de 10 segundos.

Ocon assumiu a responsabilidade, procurou Colapinto pessoalmente e publicou um pedido de desculpas. Nada disso impediu a enxurrada de ataques.

O francês recebeu, inclusive, ameaças de morte, obrigando a Bullet Sports Management a divulgar uma nota pedindo aos fãs que interrompessem as agressões. A empresa lembrou que ameaçar Ocon não mudaria o resultado da corrida e apenas prejudicaria a reputação da torcida de Colapinto.

O argentino também respondeu ao pedido de desculpas de Ocon e saiu em defesa do adversário. Mais tarde, a Alpine reconheceu que deveria ter condenado o comportamento imediatamente.

Ocon minimizou os agressores como “valentões de teclado”, mas confirmou que as mensagens incluíram ameaças contra a vida dele.

Acusações de sabotagem obrigam Alpine a publicar carta

A diferença de desempenho entre Gasly e Colapinto no começo de 2026 alimentou outra campanha. Parte da torcida argentina começou a acusar a Alpine de entregar um carro inferior ao piloto, favorecer Gasly e até sabotar deliberadamente o desempenho de Franco.

As alegações ganharam força depois do GP da China, quando os carros utilizaram especificações diferentes, e continuaram após o GP do Japão. Em Suzuka, Colapinto reduziu a velocidade devido ao processo de recuperação de energia e acabou envolvido indiretamente no forte acidente de Oliver Bearman.

O argentino também passou a receber mensagens de ódio pelo episódio, apesar de não ter provocado deliberadamente a batida. A toxicidade, portanto, começou a atingir o próprio piloto que a parcela radicalizada da torcida dizia defender.

A Alpine decidiu responder com uma longa carta pública. A equipe repudiou os ataques contra Colapinto e classificou como “completamente infundadas” as acusações de favorecimento a Gasly.

A escuderia explicou que atualizações poderiam chegar primeiro a apenas um carro por questões de produção, mas garantiu que não havia retenção de informações, peças ou recursos. A Alpine precisou afirmar o óbvio: não teria interesse em prejudicar deliberadamente um de seus pilotos e perder pontos no Mundial.

Ataques a comissários provocam reação da FIA

No GP dos Países Baixos de 2026, Colapinto recebeu punições por ultrapassar e não reduzir suficientemente a velocidade sob bandeiras amarelas. A decisão levou torcedores a inundarem as redes sociais dos comissários com ataques e questionamentos sobre a integridade do painel.

Vitantonio Liuzzi, ex-piloto de F1 e integrante do grupo responsável pelas decisões, esteve entre os alvos. A crise aumentou quando Sean Summers, diretor de marketing de um dos principais patrocinadores de Colapinto, também questionou publicamente se as decisões representavam incompetência e se estavam “destruindo a integridade” da categoria.

A FIA condenou os ataques e afirmou que o desrespeito não tem espaço no esporte. A federação ressaltou que discordar de uma decisão faz parte da competição, mas nunca justifica ameaças ou ataques pessoais.

O caso foi tratado pela campanha United Against Online Abuse, criada pela FIA justamente para combater assédio e ameaças contra pilotos, dirigentes e oficiais.

Flavio Briatore decidiu colocar um basta na situação (Foto: Alpine)

Gasly e família recebem ameaças após GP da Espanha

O episódio mais recente aconteceu após o GP da Espanha, disputado em Madri. Nas voltas finais, Colapinto alcançou Gasly, que estava com pneus desgastados e ainda precisava fazer uma parada. Como o francês não abriu passagem imediatamente, parte dos torcedores entendeu que ele estava prejudicando deliberadamente o companheiro.

Gasly explicou que não recebeu ordem da Alpine para trocar as posições. Mesmo assim, o piloto, a namorada e outros familiares receberam mensagens abusivas e ameaçadoras.

Gasly classificou o conteúdo como “perturbador” e disse que todos os limites foram ultrapassados. Colapinto tomou conhecimento das agressões e apoiou publicamente o companheiro.

A repercussão levou Briatore a dar um ultimato aos torcedores argentinos. O dirigente afirmou que, se o comportamento continuar, Franco poderá deixar de falar com emissoras e jornalistas da Argentina.

“Se querem apoiar Franco, façam isso de maneira respeitosa e leal”, declarou.

Colapinto condena ataques, mas problema continua crescendo

Colapinto não incentivou as agressões e já se posicionou diversas vezes contra elas. O argentino pediu respeito a Tsunoda, defendeu Ocon, apoiou Gasly e afirmou que bloquearia seguidores que passassem dos limites.

Os representantes do piloto também tentaram conter a situação, especialmente nos casos de Doohan e Ocon. Mesmo assim, a sucessão de episódios demonstra que os apelos ainda não foram suficientes.

O comportamento de uma parcela da torcida já obrigou dois pilotos a denunciarem ameaças contra familiares, levou um deles a contratar segurança, atingiu adversários, companheiros de equipe, comissários e a própria Alpine.

O ultimato de Briatore é, portanto, apenas a advertência mais recente em uma lista que já envolve Colapinto, empresários, pilotos, equipes, FIA e Fórmula 1.

GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades do GP do Azerbaijão AO VIVO E EM TEMPO REALalém de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV. Além da cobertura completa, o GRANDE PRÊMIO está in loco com o repórter Leonid Kliuev.

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F1 hoje: perguntas frequentes

Que horas começa o GP do Azerbaijão de F1 2026?

A corrida começa às 8h de Brasília, no sábado, 26 de setembro.

Por que o GP do Azerbaijão será disputado no sábado?

A programação foi antecipada para não coincidir com o Dia da Memória, data nacional de luto celebrada no Azerbaijão em 27 de setembro.

Onde acontece o GP do Azerbaijão de F1?

A prova acontece no Circuito Urbano de Baku, traçado de rua localizado na capital do Azerbaijão.

Por que Briatore ameaçou cortar as entrevistas de Colapinto?

Porque Pierre Gasly e familiares receberam mensagens abusivas e ameaçadoras após uma disputa de pista com Colapinto no GP da Espanha.