O aguardado regulamento da F1 em 2022 trouxe de volta o efeito-solo em uma tentativa de melhorar o espetáculo e equilibrar as forças do grid. Mesmo que tenham se passado 13 corridas dentro dessas regras, ainda não é possível cravar o fracasso ou o sucesso do empreendimento feito pelos chefes da maior categoria do esporte a motor. O caso é que esse conjunto de normas está em um período infantil e tentando resolver alguns detalhes que inicialmente passaram batido. E um deles é o porpoising. O fenômeno, uma consequência direta do novo conceito aerodinâmico, pegou as equipes de surpresa – algumas sofreram enormemente, enquanto outras encontraram soluções rapidamente. Por isso, esse novo termo acabou tomando o protagonismo nessa primeira metade de temporada. Tanto que a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) se viu obrigada a intervir.
A volta do efeito-solo permitiu a aparição do porpoising (saltos ou quiques), que não foi identificado durante os trabalhos feitos nos simuladores antes da temporada começar. Isso porque as restrições quanto ao uso do túnel de vento impediram que os engenheiros notassem as implicações da mudança do downforce. Com os monopostos mais baixos, a pressão aerodinâmica que passa por baixo do assoalho puxa o carro em direção ao solo — e neste momento ele bate e volta, iniciando uma sequência repetitiva de batidas no chão que afetam diretamente a pilotagem.
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A verdade é que as diferentes equipes optaram por caminhos distintos em seus projetos. Ferrari e Red Bull, por exemplo, foram capazes de controlar os pulos, usando artifícios diversos – um deles o assoalho flexível. Já a Mercedes colocou na pista um carro mais rígido e estreito. A octacampeã foi quem mais sofreu ao longo das primeiras etapas da temporada. Foi uma falha que afetou toda a performance, ao ponto de também prejudicar fisicamente seus pilotos. Mas outros times também enfrentaram problemas, como a AlphaTauri, Aston Martin, Williams.
O caso é que a equipe alemã teve dificuldades para solucionar a falha em seu carro e só foi capaz de melhorar nesse aspecto no início de julho, no grande pacote de atualizações que levou para o GP da Inglaterra. Antes disso, a esquadra, no papel do chefe Toto Wolff, foi muito vocal ao apontar os infortúnios causados pela adoção do efeito-solo. “Este é um esporte onde você tenta manter uma vantagem competitiva ou ganhar, mas a situação claramente foi longe demais. Todos os pilotos, ao menos um em cada time, falaram que estavam com dor em Baku, com dificuldades de manter os carros na pista ou visão embaçada. E os chefes de equipe tentam manipular o que é dito para manter a vantagem competitiva, e tentar jogar jogos políticos com a FIA quando ela tenta vir com uma solução para colocar os carros em melhor posição é desonesto”, atacou Wolff.
De fato, o GP do Azerbaijão reservou uma enxurrada de reclamações. Muitos pilotos, incluindo a dupla da Mercedes, mas também Pierre Gasly, Lando Norris e Carlos Sainz relataram dores nas costas e exames médicos posteriores para a verificação de fraturas. A imagem de um Lewis Hamilton sofrendo em Baku ganhou os holofotes. “Eu estava na adrenalina, mas não consigo expressar a dor que senti, especialmente na reta daqui. Você só fica rezando para acabar. Estarei amanhã na fábrica, precisamos falar sobre isso para continuar evoluindo”, disse o heptacampeão após a corrida na capital azeri.
A SAGA DO PORPOISING
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O problema se agravou porque as ondulações do circuito urbano e a longa reta de chegada acentuaram os saltos. Então, as queixas tomaram forma, e a FIA se viu pressionada, o que gerou a diretiva técnica que estabelece métricas para a altura dos carros, além da rigidez das pranchas no assoalho. A entidade alegou que a intervenção se deu por uma preocupação quanto à segurança dos pilotos
A proposta de um controle dos saltos surgiu já no Canadá, mas acabou adiada para França e, depois, para a Bélgica – isso também deu tempo de adaptação às equipes. A questão também é que, durante os estudos e as verificações feitas nos carros, a FIA se deparou com soluções inteligentes de alguns engenheiros, que lançaram mão de assoalhos flexíveis e outros elementos, para garantir performance, sem um desgaste absurdo. Por isso, a chiadeira geral com relação à normativa. Mas não teve jeito: o órgão que rege o esporte publicou mesmo uma série de regras que passa a valer a partir da corrida em Spa-Francorchamps.
“A segurança é absolutamente a maior prioridade para a FIA e dedicamos tempo e recursos significativos à análise e resolução da questão do porpoising. Discuti pessoalmente este assunto com todas as equipes e pilotos e, embora existam algumas diferenças de opinião devido a diferentes posições competitivas, é muito claro que a FIA tem o dever de agir e garantir que os pilotos não sejam colocados em risco indevido de lesão como resultado deste fenômeno”, afirmou Mohammed Ben Sulayem em comunicado divulgado pela FIA no começo deste mês.
A entidade vai medir o porpoising em cada carro e obrigar as equipes a operarem dentro de um limite considerado seguro para os pilotos. Além disso, a FIA aprovou mudanças para redefinir os requisitos de rigidez do assoalho e peças ao redor dos furos de medição de espessura já neste ano. Basicamente, foram ações que também forçaram alterações em alguns projetos.
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O fato também é que essa mudança pode afetar a ordem de forças do campeonato. Mattia Binotto reforçou que a Ferrari promoveu alterações em sua F1-75 com a meta de se adequar aos novos parâmetros, mas a Red Bull assegurou que não tem com que se preocupar, mas não deixou de cutucar as medidas. “Um acordo precisa ser encontrado, mas é um tanto quanto complicado – porque as alterações nas regras serão enormes, mudarão todo o conceito aerodinâmico. E é complicado para a FIA, por que onde você traça a linha? Enquanto houver uma obrigação de segurança da FIA, onde essa linha acaba? Precisamos de permissão para mudar dos pneus de pista seca para pista molhada? E se acertarmos uma zebra? Tem que haver muita cautela com as consequências não intencionais dessas medidas”, criticou Christian Horner, chefão dos taurinos.
Também será interessante perceber como a Mercedes vai se comportar frente à intervenção. O carro alemão foi um dos que mais sofreu com o porpoising e é por si só muito rígido. A esquadra vem em uma crescente no campeonato, mas não deixa de ser curioso a maneira como vai enfrentar uma verificação mais rigorosa de seu projeto. A resposta para tudo começa neste fim de semana.