Talvez este Mundial de Construtores tenha sido um dos títulos mais fáceis de se prever antes mesmo do novo regulamento da Fórmula 1 entrar em vigor, na temporada 2026. Tudo porque o foco em trazer à baila uma nova unidade de potência, com a parte elétrica ampliada, e tirando, de certa forma, o peso de cima da aerodinâmica, recolocou no jogo a marca que praticamente virou sinônimo da era híbrida da categoria: a Mercedes.
Não que as demais marcas do grid tenham sido um completo desastre, pelo contrário, ainda que a Ferrari, de fato, tenha alcançado uma linha de crescimento nos anos subsequentes a 2014, quase dando uma senhora dor de cabeça para o time chefiado por Toto Wolff quando Sebastian Vettel e Fernando Alonso correram por lá. Na prática, todavia, a excelência do projeto num todo é que foi o grande diferencial por ter sido justamente pensado de forma completa, ou seja, a integração desse motor com o chassi do carro — uma vantagem que só as fabricantes costumam ter.
De fato, é esse trabalho repetido na virada de 2025 para 2026 que também explica o domínio visto das Flechas de Prata, sobretudo na primeira parte do Mundial. Com a bateria respondendo por quase metade da potência, levou o título a marca que entendeu melhor esse gerenciamento nos mais variados tipos de pista, das mais velozes — sem dúvida, o grande ponto forte — às mais sinuosas e de baixa velocidade, como, por exemplo, Mônaco.
Para se ter uma ideia do que significou esse entendimento bem mais aprimorado, a Mercedes venceu oito das dez primeiras etapas, com derrotas bem pontuais em Barcelona e Inglaterra, quando a Ferrari soube aproveitar muito melhor as imprevisibilidades que podem aparecer em uma corrida de carros. Ali, aliás, achou-se que realmente seria possível alcançar uma virada poucas vezes vista, meio que no embalo do quase milagre de Max Verstappen no ano anterior, contra a dupla da McLaren.
É, até que houve ali um brilhareco italiano, e também vindo de Woking, um pouco mais à frente na temporada, mas era questão de tempo até que o topo do Mundial de Construtores voltasse a ostentar a icônica estrela de três pontas. E, aqui, não há como trazer a esta análise o grande diferencial da Mercedes: Andrea Kimi Antonelli, o garoto que só não estreou muito antes da hora porque a F1 resolveu mudar as regras do jogo depois da ousadia da Red Bull de colocar um moleque de 17 anos, com experiência até a F3 Inglesa, no cockpit.

De contestado a consagrado: como Antonelli fez diferença em título da Mercedes
O curioso é que Kimi chegou à F1 aos 18 anos muito mais sob olhares de dúvida do que de expectativa, exatamente pela pouca idade e pela decisão da Mercedes de pulá-lo da FRECA (hoje FREC) direto para a F2, o degrau que antecede a categoria máxima dos monopostos. Para completar, a mudança do carro da F2 jogou a Prema para o meio do pelotão e aumentou ainda mais a pressão sobre um garoto que já sabia, desde muito antes, que estava ali para ocupar o lugar de ninguém menos do que Hamilton.
O primeiro ano foi de altos e baixos, mas trouxe alguns sinais do quão promissor aquele rapaz franzino, com cara de adolescente, realmente era, como a estreia na Austrália, quando largou em 16º e cruzou a linha de chegada em quarto em pista molhada. Claro que foi preciso passar pela dor do crescimento quando chegou justamente à perna europeia, nas pistas que conhecia de cor e salteado, porém Wolff nunca permitiu que o diamante bruto ousasse duvidar do próprio brilho.
Veio, então, a mudança de regulamento, e ao contrário do experiente George Russell, Antonelli se entendeu muito melhor com o novo jeito de pensar a F1 e foi o responsável por seis daquelas oito vitórias nas dez primeiras etapas do ano, colocando uma vantagem sobre os demais adversários que nem mesmo Toto imaginou que fosse capaz de acontecer.

E Russell, claro, totalmente combalido e incrédulo diante do que acontecia nos boxes ali ao lado. No México, quando o título de Kimi finalmente foi consolidado, a expressão do britânico era um misto de incredulidade e exaustão. Mas é importante frisar que, ao contrário de Verstappen em 2023, os 262 pontos conquistados até aqui foram imprescindíveis para devolver a Mercedes ao primeiro lugar da F1.
Para 2027, a base alcançada é muito positiva, e ainda há a carta do ADUO — as Oportunidades Adicionais de Desenvolvimento e Atualização que a FIA passou a adotar este ano para tentar amenizar o impacto de uma mudança tão brusca no regulamento técnico. E como a entidade resolveu montar o ranking medindo o motor de combustão interna (ICE), e não a bateria — o que realmente diferencia os carros prateados —, pode-se esperar um repeteco do que se viu.