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Na Garagem: Senna vence em Detroit e ergue bandeira do Brasil pela 1ª vez na F1

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Na Garagem: Senna vence em Detroit e ergue bandeira do Brasil pela 1ª vez na F1

Em plena época de Copa do Mundo, há 40 anos, Ayrton Senna venceu o GP dos Estados Unidos em Detroit e comemorou com um gesto que virou uma marca registrada do piloto brasileiro na Fórmula 1 a partir de então

Vicente Soella

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Enquanto em um sábado, há 40 anos, o Brasil se via derrotado nos pênaltis pela França nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, o circuito de rua de Detroit entregava, no dia seguinte, um alento a quem chorou com a derrota da Seleção. Em 22 de junho, Ayrton Senna conquistava uma vitória marcante, a quarta da carreira até então, e empunhava a bandeira brasileira pela primeira vez na Fórmula 1, gesto que se tornou símbolo da trajetória na categoria.

Se o desfecho não foi nada positivo no território mexicano, que recebia a edição da maior competição de futebol, um pouco mais acima no mapa, o mesmo fim de semana guardava uma boa notícia para o Brasil. Aos 26 anos, Senna conquistou com a Lotus a pole-position do GP dos Estados Unidos, a sétima etapa daquela temporada, com a melhor de duas voltas em 1min38s301 — mais de 0s5 à frente da Williams de Nigel Mansell. Nelson Piquet foi quem completou o top-3, 0s775 mais lento que o compatriota.

Em um ano visto como um dos mais parelhos da história da F1, o brasileiro alcançou a posição de honra pela quarta vez em sete corridas disputadas em 1986. Contudo, até no momento de deslumbre, o fantasma da eliminação do Brasil aparecia: a França era o país da grande maioria de mecânicos ligados à Renault, fornecedora de motores da Lotus.

“No sábado, em Detroit, eu tinha acabado de fazer a pole-position. Quando entrei no box, vi o placar ‘Brasil 1 x 0 França’. O Brasil tinha acabado de fazer o gol contra a França. E tinha uma coletiva de imprensa logo depois, tinha de ir, do contrário diriam que não estava dando bola para a imprensa. Fui lá, estava assistindo ao jogo e meu projetista é francês, meus mecânicos são franceses. Foi uma confusão. Depois do jogo, sabia que eles iam me alugar, nem apareci depois. Só apareci domingo de manhã”, brincou Senna.

Enfim, um domingo ensolarado havia chegado. Ayrton não participou dos ajustes do carro no fim da tarde de sábado, o que, de fato, não o atrapalhou muito. Antes da largada, o dono do #12 tinha apenas uma missão, a pedido da torcida presente no circuito de Detroit: dar um ‘olé’ em Alain Prost, que ainda não era o arquirrival que viria a ser nos tempos de McLaren no fim daquela década.

O brasileiro largou bem e se manteve na primeira posição, mas um erro na troca de marcha no giro seguinte o fez perder a liderança para Mansell. Senna, no entanto, seguiu pressionando e recuperou a liderança no fim da volta 7, passando a abrir vantagem. O que ele não esperava, porém, era um pneu furado momentos depois, que o fez cair para oitavo, 20s atrás do líder no momento, René Arnoux, da Ligier.

Enquanto Jacques Laffite se aproximava de Arnoux para roubar a dianteira, Ayrton ultrapassava Stefan Johansson na briga pelo sétimo posto. Não demorou muito para o titular da Lotus superar Michele Alboreto e começar a alcançar o top-5, uma vez que estava com pneus muitos mais novos naquele momento. Os próximos da fila eram Piquet e Prost, que cometeu um erro na 27ª volta e caiu para o sexto lugar.

A dupla brasileira seguiu avançando, até que Piquet assumiu a liderança na volta 29, com Senna acompanhando logo atrás. A questão, porém, era que Nelson pararia apenas uma vez, enquanto que Ayrton precisaria ir aos boxes novamente. Com todos os rivais já efetuando a parada, o piloto da Williams pisou fundo e conseguiu abrir vantagem na ponta, mostrando que ainda tinha controle sobre os pneus desgastados, marcando, inclusive, o melhor tempo no giro 34 — 1min42s911.

Tudo seguia muito bem para Piquet até a volta 39, quando viu a equipe inglesa demorar 18s para efetuar a troca de pneus e prejudicá-lo bastante. Para tirar proveito da situação, Senna decidiu parar na sequência, só que diferentemente do compatriota, o #12 contou com o excelente trabalho da Lotus, que o devolveu à pista ainda na primeira posição.

Desesperado em compensar o erro da Williams nos boxes, Piquet, no giro 41, chegou a fazer a melhor volta da corrida, com 1min41s233, mas a situação logo se tornaria trágica. Na volta seguinte, cometeu um erro e abandonou a corrida. Isso deixou Senna mais tranquilo na ponta.

“Quando estava atrás de Nelson e o vi entrando nos boxes, sabia que poderia ultrapassá-lo. Depois, ele ainda bateu no muro”, explicou Senna.

Depois do abandono de Piquet, Senna somente controlou a liderança de mais de 30s e venceu com boa folga, à frente de uma dupla de franceses que foi ao pódio: Laffite em segundo, Prost em terceiro. Dos 26 carros que foram à pista naquele acalorado domingo, apenas dez finalizaram a corrida. Depois do top-3, vieram Alboreto, Mansell, Ricardo Patrese, Johnny Dumfries, Jonathan Palmer, Philippe Steiff e Derek Warwick, que fechou a lista dos dez competidores que receberam a bandeira quadriculada.

Após cruzar a linha de chegada, Ayrton protagonizou uma cena que virou marca registrada na F1. Na volta de regresso aos boxes, o piloto da Lotus viu um brasileiro do lado da pista com uma bandeirinha do país. Senna não hesitou em parar, pegar o pequeno pavilhão e dar uma volta com ele em punho.

“Por uma grande felicidade, a gente venceu a corrida. Tinha muitos brasileiros lá. Quando passei pela linha de chegada, quando diminuí a velocidade, estava muito esgotado, foi uma corrida muito dura fisicamente. Vi um brasileiro com uma bandeirinha do Brasil. Foi instinto”, contou.

“Parei, fiz um sinal e ele não entendeu. Até que o fiscal [de pista] olhou pra mim, olhou para o cara e entendeu. Aí, ele foi lá, tomou a bandeira do torcedor pendurado na cerca e a trouxe para mim. Dei uma volta com a bandeira. Foi um dia especial”, disse Senna logo depois da corrida.

Curiosamente, o público brasileiro não assistiu àquele histórico GP dos Estados Unidos. Domingo à tarde, na segunda metade de junho, em uma corrida com o mesmo fuso horário da sede da Copa, era inevitável que houvesse uma partida do Mundial no mesmo horário da F1. E havia. A Globo passou a vitória de Senna em compacto, preferindo transmitir ao vivo o jogo Inglaterra x Argentina, que testemunhou o polêmico gol de mão de Diego Maradona.

Fórmula 1 volta de 26 a 28 de junho no GP da Áustria, oitavo da temporada 2026, no Red Bull Ring.

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