QUANDO A FÓRMULA 1 entrou em férias, no fim de julho após o GP da Hungria, o cenário de 2025 parecia muito claro e seguro: a disputa do título realmente se resumiria aos dois pilotos da McLaren. Oscar Piastri sustentava uma vantagem de apenas nove pontos para Lando Norris, que recuperara terreno com a vitória no Hungaroring, enquanto Max Verstappen figurava em um distante terceiro posto, 97 tentos atrás. E levando em consideração a força do carro papaia e as inúmeras falhas técnicas e de garagem da Red Bull, uma reviravolta aparecia pouco provável. Só que há sempre uma variável e, felizmente para a F1, essa variável é Verstappen.
O homem que ganhou os últimos quatro campeonatos na Fórmula 1 aprontou uma vez mais. E de maneira até mais contundente do que na Itália, há duas semanas, Verstappen foi capaz de repetir a dose no Azerbaijão, em uma pista complexa e cheia de pequenas armadilhas. A vitória nas ruas de Baku foi construída em cima de um competente trabalho da engenharia e da sensibilidade de quem guia o carro. Novamente, Max orientou a Red Bull e recebeu em troca um carro revisado e excelente, porque, sim, os taurinos ainda enxergam uma chance nesta temporada. Afinal, não poderia ser diferente quando se tem nos boxes alguém como Verstappen.
A verdade é que a Red Bull, agora sob o comando de Laurent Mekies — que, segundo Max, faz as perguntas certas —, decidiu ouvir o neerlandês e está conduzindo uma interessantíssima virada de jogo. Tudo começou com as mudanças feitas no excêntrico RB21 após a pausa do verão europeu. Umas das grandes dificuldades deste carro era o ritmo em curvas de baixa e média velocidade, especialmente em traçados urbanos. O ataque às curvas era também uma questão delicada, porque provocava uma instabilidade enorme na parte da frente do modelo. Então, toda essa irregularidade resultava em uma grave falta de confiança. O único ponto forte era realmente os trechos rápidos e curvas de alta. Mas como achar um equilíbrio nisso? De fato, os engenheiros se debruçaram sobre as sensações passadas por Verstappen e se concentraram em revisar a asa dianteira, bem como assoalho e outros pequenos recursos aerodinâmicos.
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O esforço começou a aparecer em Zandvoort, e isso se desenhou quase como uma vitória, uma vez que a pista neerlandesa nunca foi terreno fértil para o carro austríaco. Neste ano, apesar de não ter conseguido brigar com a McLaren, Verstappen esteve no pódio e não foi ameaçado por ninguém. Só que os passos seguintes foram ainda mais importantes. Em Monza, onde a velocidade de reta é fundamental, a Red Bull olhou mais para as curvas, em uma sacada do próprio tetracampeão. Ali se achou um caminho também para essa asa dianteira. As dificuldades foram menores, e Max venceu com autoridade, sem ser incomodado pela McLaren. Duas semanas depois, a F1 desembarcou no Azerbaijão. As longas retas, as esquinas e o trecho da parte mais antiga cidade representaram de novo uma nova questão aos taurinos.
O trabalho recomeçou neste sentido, primeiro com o foco no segundo setor do circuito, o mais sinuoso, e depois no comportamento dos pneus. Mais uma vez, a asa dianteira com maior carga fez a diferença. E Verstappen foi capaz de driblar os infortúnios de uma classificação tumultuada para cravar a pole. Então, no dia seguinte e como de costume, não deu a chances a ninguém. O triunfo, aliado às mazelas da McLaren, agora colocam o neerlandês em uma posição de tentar aquilo que parecia inconcebível: brigar pelo título.
Mas será que ainda é possível? O avanço técnico da Red Bull é um ponto de partida. As mudanças realmente fizeram diferença na disputa contra os papaias, mas é preciso considerar que as pistas de Monza e Baku, especialmente, têm semelhanças e possuem características que se adaptam melhor ao RB21, como os trechos de alta velocidade. A combinação de um acerto de pouca carga aerodinâmica e o equilíbrio em curvas pode ser a grande arma dos taurinos, mas será preciso entender se a equipe vai conseguir reproduzir essa mesma configuração em traçados mais extremos, como o de Singapura, o próximo palco da F1. Historicamente, o circuito tem sido uma dor de cabeça e, curiosamente, é um dos raros lugares em que Verstappen ainda não venceu na carreira.
Além disso, é essencial colocar aqui: o circuito de Marina Bay tem tudo que o MCL39 da McLaren gosta. Ou seja, trechos lentos e maior carga aerodinâmica, bem como temperaturas mais altas — um dos segredos dos papaias na F1 é o cuidado com os pneus. O engenhoso sistema de arrefecimento usado pelos ingleses é fundamental para evitar um superaquecimento da borracha. Então, se a esquadra dos energéticos for capaz de ajustar o RB21 em um traçado com curvas tão singulares, a disputa começa se tornar mais palpável.
Até agora, Verstappen capitalizou o que pôde em cima dos infortúnios da McLaren. Desde a volta das férias da Fórmula 1, Max somou 68 pontos, contra 40 de Piastri e 24 de Norris. Além do pódio nos Países Baixos, ainda foram duas vitórias consecutivas (Itália e Azerbaijão). Em contrapartida, a equipe papaia se viu às voltas com esdrúxulas ordens para inversão de posições, problemas em trocas de pneus, sem falar na confiabilidade falha e erros dos dois pilotos. Max é um exímio ‘disputador’ de títulos. Portanto, se a chance aparecer — impulsionado pelo mérito técnico da Red Bull ou pelas patacoadas da concorrência — ele não vai desperdiçar a oportunidade.
São sete etapas até o fim da temporada e três sprints. Ainda há muitos pontos em jogo (199) e a diferença entre o líder Piastri e o tetracampeão é considerável (69), mas não é descartável. Singapura será o fiel desta balança. E se o crescimento de Verstappen se confirmar, então a F1 terá um campeonato de verdade, e só isso para salvar 2025.
Com o GP do Azerbaijão finalizado, a Fórmula 1 terá um fim de semana de descanso até a próxima etapa da temporada. Carros e pilotos voltam às pistas entre os dias 3 e 5 de outubro, para o GP de Singapura, com cobertura completa do GRANDE PRÊMIO.