Depois de ser ofuscada pela McLaren nas duas últimas etapas, a Mercedes tem pela frente um terreno bem mais agradável neste fim de semana. Não é segredo algum que o W17 gosta mesmo de pistas de alta velocidade, mas Monza representa um pouco mais que isso. Porque é a chance de tirar proveito da já conhecida eficiência no gerenciamento de energia aliada a uma ótima configuração aerodinâmica. A combinação de retas e curvas rápidas é tudo que as Flechas de Prata queria neste ponto da temporada. Portanto, a liderança de George Russell no segundo treino livre, com Andrea Kimi Antonelli em terceiro não representa uma surpresa e ainda abre ao inglês a possibilidade de uma vitória importante na batalha do campeonato, uma vez que o colega de garagem terá de amargar o fundo do pelotão. Só tem uma questão neste cenário: a dona da casa, a Ferrari, também prepara o contra-ataque, enquanto McLaren tenta surpreender no domingo.

Importante deixar claro que a Mercedes é favorita ao GP da Itália. O icônico circuito possui trechos essenciais para o modelo alemão, principalmente as retas e as saídas de curva. Outro ponto de destaque é a excelente gestão de energia da unidade de potência. Praticamente, não se perde nada em performance. Os engenheiros também focaram em um desempenho mais forte no início da volta, para obter o máximo de ritmo nos setores cruciais para o W17. E de fato, Antonelli mostrou que há muito o que explorar ainda. Como o italiano vai pagar punição pela troca da unidade de potência, a equipe decidiu por um programa técnico diferente. Kimi se concentrou mais nas condições de corrida — uma vez que terá de se lançar em uma prova de recuperação no domingo. Neste aspecto, o líder do campeonato dividiu os trabalhos entre pneus macios e duros — estabelecendo as melhores marcas em cima dos compostos C3.

“Hoje foi um dia diferente das sextas-feiras habituais, porque me concentrei principalmente no ritmo de corrida. Foi um pouco estranho, não vou mentir. Mas foi um bom dia, coletamos muitos dados e agora mal posso esperar para voltar à pista”, confirmou Antonelli, que ficou a 0s141 do tempo de Russell, líder do TL2 em Monza.

George, por sua vez, investiu em classificação, tentando aproveitar os pontos fortes do traçado italiano, como a alta aderência em um dia quente na região da Lombardia. Os termômetros registraram marcas acima dos 55ºC no asfalto. “Tivemos uma sexta-feira bastante forte; conseguimos realizar um bom trabalho e parece que tivemos um ritmo decente tanto em volta rápida quanto em ritmo de corrida”, contou o britânico. “Fizemos alguns ajustes depois do TL1 que ajudaram, mas sabemos que ainda temos trabalho a fazer durante a noite.”

De fato, a Mercedes conduziu mudanças no carro de Russell entre os treinos, e isso parece ter facilitado o desempenho em volta única. O que é uma boa notícia para o sábado, uma vez que o piloto inglês tem nas mãos uma oportunidade de capitalizar em cima do companheiro de equipe. A pole tem de ser o único objetivo de George, especialmente diante do que a Ferrari pode aprontar. Inclusive, a dupla vê na escuderia uma clara ameaça. “A Ferrari certamente deu um grande passo à frente com o novo motor. Agora a velocidade deles é muito semelhante à nossa e sabemos o quão rápidos eles são nas curvas. Será uma disputa acirrada amanhã”, garantiu Antonelli.

Realmente não é possível esconder o trabalho ferrarista em tentar surpreender os rivais — também é de conhecimento público as limitações que o carro vermelho possui em pistas de alta velocidade, mas correr em casa pede medidas ousadas também. A decisão de colocar para jogo uma versão atualizada do motor, impulsionada pelas concessões do ADUO, foi acertada. Se há um lugar onde a unidade de potência faz diferença é Monza. Mas a engenharia de Maranello também tratou de aperfeiçoar a SF-26 para correr diante dos tifosi.

A equipe de Frédéric Vasseur levou a Monza um novo assoalho, além de uma revisada entrada de ar do freio traseiro. Ainda, as aletas laterais foram modificados pensando na redução do nível de arrasto aerodinâmico. E isso aqui resultou em uma melhora significativa da performance em curvas.

A Ferrari domina quase todas as curvas do traçado italiano, aliás. E ainda acertou a SF-26 para voar na reta que leva à curva final, como maneira de ampliar a eficiência na abertura da volta rápida. Charles Leclerc tirou proveito dessa configuração e se mostrou rápido o tempo inteiro. O monegasco terminou a 0s120 de Russell, depois de liderar o TL1. “Os concorrentes parecem fortes, mas, até agora, a sensação com o carro foi boa”, disse Charles à imprensa. “Conhecemos nossos pontos fracos e vamos nos concentrar neles, dando tudo de nós para conquistar o melhor resultado no domingo”, completou.

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Charles Leclerc foi o segundo melhor do dia em Monza (Foto: Ferrari)

Vasseur corroborou as impressões do piloto, embora tenha tentado manter os pés no chão. “Monza não é o melhor lugar para isso, mas no geral estamos melhorando passo a passo para diminuir a distância para a Mercedes”, disse o francês. Ainda assim, dá para esperar uma Ferrari na briga pela pole sim, uma vez que a diferença se mostrou bem menor do que o esperado antes do fim de semana.

Já Lewis Hamilton foi segundo colocado no TL1, atrás do companheiro de equipe e terminou o TL2 em quarto, a 0s4 de Russell. O heptacampeão chegou a reclamar do gerenciamento da bateria durante a segunda atividade, mas elogiou o motor da Ferrari. “A unidade de potência atualizada é um passo na direção certa. Fizemos algumas alterações ao longo do dia e há aspectos positivos a serem extraídos das sessões, mas ainda assim foi difícil tirar o máximo proveito do carro e dar uma volta completa. Precisamos ainda entender melhor algumas áreas, para tentar a melhor classificação possível.”

Também foi interessante notar que a Ferrari partiu para uma simulação diferente das rivais nesta sexta. Enquanto Mercedes e McLaren focaram nos pneus duros, com as Flechas de Prata à frente e em desempenho consistente, a escuderia mandou seus dois pilotos à pista com os compostos macios. A ideia era entender não só o ritmo, mas o desgaste em altas temperaturas. A SF-26 segue em desvantagem com relação ao W17, algo em torno de 0s3 — a potência em retas ainda faz muita diferença no ritmo de corrida. Mesmo assim, o time italiano continua como a primeira rival — ao menos em classificação.

De outro lado, a McLaren enfrentou mais dificuldades nesta sexta-feira. Embora seja muito rápida em curvas longas, as retas também são um problema para o carro laranja. Há uma perda de desempenho acentuada, que acaba por tirar a equipe da posição que ocupava duas semanas atrás, mas nada está perdido. “Mas ainda estamos em desvantagem. Não estamos numa situação muito boa neste momento. Vamos ver o que conseguimos fazer durante a noite, mas com certeza será mais difícil do que antes”, disse Lando Norris, quarto colocado na tabela.

Mas se o ritmo em volta única parece desafiador, o mesmo não acontece no desempenho em condições de corrida. Com os pneus duros, a equipe inglesa andou bem mais perto da Mercedes, menos de 0s1, na verdade, e à frente da Ferrari — com o adendo que os italianos optaram pela simulação com os macios.

De toda a forma, a sexta-feira se encerra com a sensação de que Russell e a Mercedes voltam a um patamar de domínio. Mas que todo cuidado é pouco.

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