A chegada da primeira temporada — de duas — do carro Gen3 Evo à Fórmula E indicava que o grid viveria apenas mudanças leves de um ano para o outro, considerando que o monoposto foi pensado como uma evolução do anterior. Mas a união entre os novos pneus e a tração integral gerou um Modo Ataque completamente revitalizado, que mudou a forma de encarar as corridas, enquanto a chegada (enfim) do Pit Boost realizou um sonho que a categoria já tinha há anos. Com problemas, é verdade, mas longe de qualquer papelão.

Entre as grandes mudanças para a temporada atual, uma das principais estava nos pneus da Hankook. Criados para funcionar em pista seca e molhada, os compostos são obviamente mais duros que os de outras categorias, por exemplo, e oferecem algumas dificuldades a mais. A principal delas está em gerenciar a temperatura, com uma janela ideal muito curta e aderência longe do ideal.

Para isso, a fabricante sul-coreana — que será substituída pela Bridgestone na era Gen4 — desenvolveu pneus mais macios para a temporada 2024/25. O composto era desenhado com dois tipos de borracha, uma mais dura e outra mais suave. Apenas a segunda foi incluída na nova fórmula, o que abaixou imediatamente os tempos de volta e trouxe uma sensação de controle muito superior aos pilotos.

Foi evidentemente um acerto da categoria, mas que cobrou seu preço em outras áreas. Em uma temporada estranhamente afetada pela chuva, mais do que qualquer outra da história da Fórmula E, os pneus mais macios sofreram. A categoria precisou paralisar e cancelar sessões devido aos riscos de segurança, o que comprovou a falta de confiança nos compostos.

Modo Ataque mudou profundamente para a temporada 2025/26 e agradou (Foto: Fórmula E)

Ao menos, os pilotos terão opções específicas para pista molhada a partir do carro Gen4, o que deve encerrar esse tipo de preocupação. Usando apenas um tipo de borracha para dois cenários completamente opostos, evidentemente não há como atingir um alto nível em nenhum dos dois lados — e a Fórmula E percebeu isso.

Se o aumento de velocidade já foi instantâneo com os novos pneus, a combinação entre a borracha mais veloz e a tração integral mudou completamente o Modo Ataque. Até a temporada anterior, o artifício funcionava basicamente como um estorvo para os pilotos, que tentavam perder o mínimo de posições ao ativar a potência extra. Desde a primeira etapa do último campeonato, isso mudou completamente.

Uma das principais novidades do Gen3 Evo foi a introdução da tração integral, que eleva absurdamente a aderência em determinados momentos da corrida. Só pode ser usada em largadas, duelos da classificação e na ativação do Modo Ataque, mas é exatamente neste ponto que veio o pulo do gato. Com pneus mais macios, tração integral e subida de potência para 350 kW, o carro da Fórmula E virou um foguete e passou a responder aos comandos facilmente. Como resultado, mudou as corridas da categoria.

Agora, a ativação do Modo Ataque não carrega a preocupação de perder várias posições, mas a dúvida de quantos postos poderão ser ganhos. A diferença na pista, inclusive, é visível entre os que estão com a potência extra ativada e os que não. Após anos convivendo com uma tecnologia que não convencia, a Fórmula E conseguiu dar sentido e transformar o artifício naquilo que deveria ser — e no que o próprio nome indica.

Tecnologia do Pit Boost é aplicada em carro de Dan Ticktum, da Cupra Kiro (Foto: LAT/Fórmula E)

Por fim, a maior novidade de todas (ao menos para a Fórmula E) foi a chegada do Pit Boost. Planejada há anos, mas sem a confiabilidade necessária, a tecnologia só entrou em ação no último momento — já que a categoria pensava em abandonar os planos se não conseguisse introduzi-lo em 2025. A chegada marcou o retorno dos pit-stops e ofereceu um cenário de corrida completamente diferente, ao ponto de levar Stoffel Vandoorne à primeira vitória em mais de três anos devido a belo um acerto estratégico.

A tecnologia aumenta a energia disponível aos pilotos em cerca de 10%, conforme as determinações da Fórmula E a cada etapa, mas o grande ponto-chave é entender quando parar. Em todas as aparições do Pit Boost em 2025, sempre em apenas uma corrida das rodadas duplas, as equipes que acertaram o momento certo da recarga levaram vantagem. Em alguns casos, como o de Vandoorne, valeu até a vitória.

Naturalmente, porém, toda nova tecnologia encara seus problemas. A confiabilidade do Pit Boost — antes Attack Charge — foi um ponto de questionamento constante ao longo dos últimos anos, e a decisão de introduzi-lo só foi tomada após muitos testes e profunda consideração. Mesmo assim, os defeitos aconteceram, com recargas que não funcionaram em alguns momentos. A principal falha veio com Nico Müller, que poderia até ter vencido o eP de Mônaco sem o problema. É algo que precisa ser urgentemente corrigido, mas que também não assusta — justamente pelo baixíssimo número de casos.

Já vivendo a expectativa pela entrada em uma nova era, a Fórmula E escreveu um grande capítulo na primeira temporada do Gen3 Evo. Com mais um campeonato pela frente, o carro precisou de pouquíssimo tempo para se provar um acerto — e deixa as expectativas em alta pelo que virá em 2025/26. Caberá à Fórmula E encontrar uma forma de não jogar o conceito no lixo com a chegada do Gen4, algo que a categoria precisa pensar. Mas isso é assunto para outro texto.

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