A Haas anunciou oficialmente na última quinta-feira (15) que Rafael Câmara foi o escolhido como titular da equipe para a próxima temporada da Fórmula 1, garantindo dois nomes brasileiros no grid de 2027. Do outro lado da garagem, é apenas questão de tempo até que a equipe confirme também a permanência de Oliver Bearman, que traz algo em comum com o pernambucano: o apoio da Ferrari nas categorias de base.
Decisiva na chegada de ambos à F1, a Ferrari vem dando suporte às carreiras de ambos exatamente com o objetivo de poder tê-los prontos para assumir a equipe, se assim desejar. No entanto, a presença da equipe italiana, por si só, não garantiu a caminhada a nenhum dos dois — e resultados foram necessários em cada uma das categorias de base.
Separados por apenas três dias no nascimento (5 de maio de 2005 para Câmara e 8 de maio de 2005 para Bearman), cada um trilhou um caminho diferente rumo à F1: se Rafael empilha títulos como forma de argumento e impressiona em testes com carros antigos, Oliver chutou a porta de vez em uma emergência — a apendicite que tirou Carlos Sainz do GP da Arábia Saudita de 2024.
No Lado a Lado de hoje, o GRANDE PREMIUM relembra como foram as temporadas de Câmara e Bearman ao longo da trajetória na base. Não apenas por meio de números e comparações, mas com o histórico completo desde as primeiras participações na Fórmula 4 até as decisões que trilharam o caminho de cada um à F1.
No fim, uma tabela comparativa resume os feitos de cada um da entrada nos monopostos à chegada na Fórmula 1.

Rafael Câmara
2022
Cotado como favorito em 2021 para a final do Mundial de Kart, último degrau antes dos monopostos, Câmara liderava a decisão quando foi afetado por um furo de pneu. Ainda terminou com o vice-campeonato, mas viu o finlandês Tuuka Taponen celebrar a conquista. No mesmo ano, Andrea Kimi Antonelli conquistava o bi europeu da modalidade.
E o primeiro encontro entre os dois veio logo no ano seguinte — e em dose dupla. Na disputa da F4 Italiana, Antonelli foi campeão e Câmara terminou em terceiro, com Alex Dunne entre os dois; na F4 Alemã, mesma história: título de Kimi e terceiro lugar para Rafa, com Taylor Barnard em segundo.
Na F4 Alemã, porém, uma explicação se faz necessária: o pernambucano perdeu duas etapas (seis corridas) por uma questão de saúde e acabou prejudicado na reta final do campeonato. Para se ter uma ideia, Barnard venceu quatro delas e foi ao pódio em todas.
Por fim, o primeiro ano de Câmara nos monopostos ainda reservaria a F4 do Oriente Médio, que teve o brasileiro em segundo lugar, atrás de Charlie Wurz. Rafa, no entanto, venceu seis corridas contra duas do campeão, além de não ter disputado as quatro primeiras provas.

2023
A segunda temporada de Rafa nos monopostos seria também a última sem títulos do brasileiro até aqui — a depender do desfecho da F2 de 2026, claro. Foram apenas dois campeonatos disputados naquele ano, ambos regionais: a europeia FREC e a FRMEC, do Oriente Médio.
E a história não foi diferente do ano anterior: título de Antonelli nas duas, justificando a precocidade com a qual o italiano foi lançado na F1 — e que está prestes a render o primeiro título mundial. Novamente, Barnard foi vice na FRMEC e deixou Câmara em terceiro.
O maior golpe em toda a trajetória de Câmara na base veio, sem dúvidas, na FREC. O título de Antonelli não foi surpresa, mas a quinta colocação deixou o brasileiro atrás também de Martinius Stenshorne, Tim Tramnitz e Kas Haverkort, o que levantou algumas questões e obrigações para o ano seguinte.
A decisão (acertada) foi de permanecer na FREC por mais um ano e partir para o que seria, na prática, um ‘tudo ou nada’ pela F1. Com o salto de Kimi para a F2 e o descolamento entre os dois, a solução seria basicamente ser campeão ano a ano — e foi o que aconteceu.

2024
Novamente, a temporada não começou da melhor maneira possível em 2024. Câmara seguia entre os ponteiros, mas viu Taponen levar o título da FRMEC e Barnard acumular outro vice. Na segunda oportunidade de disputar a FREC, porém, não decepcionou: sete vitórias e 12 pódios em 20 corridas e o título da competição.
O domínio de Câmara ao longo da temporada foi suficiente para construir uma vantagem de 75 pontos em relação ao vice James Wharton, com Taponen em terceiro. A partir daí, a subida para a Fórmula 3 passou a ser óbvia: caso Câmara conseguisse enfileirar FREC, F3 e F2 em anos consecutivos, os argumentos por uma vaga na F1 ficariam muito mais fortes.
2025
E a rota escolhida pelo brasileiro seguiu dando frutos no ano seguinte. Disputando apenas a Fórmula 3, Câmara até oscilou no início com a Trident, mas aproveitou principalmente as corridas principais dos finais de semana para conquistar mais um título e solidificar ainda mais o sonho de pilotar na Fórmula 1.
A disputa pela taça foi contra o búlgaro Nikola Tsolov, apadrinhado pela Red Bull, que somou 124 pontos — contra 166 de Câmara. Mari Boya chegou a encostar no vice com uma reta final positiva de campeonato, mas não ameaçou de verdade pelo primeiro lugar.

2026
Por fim, o ano que rendeu a confirmação de Câmara como piloto de Fórmula 1 não começou da melhor forma. Agora a bordo da Invicta, Rafa oscilou na primeira parte de temporada: voltou a mostrar força principalmente em classificações e corridas principais, com dois pódios nas duas primeiras etapas, mas zerou nas sprints, por exemplo.
A regularidade chegou com força a partir da fase europeia, principalmente, com uma vitória que escapou com um erro em Mônaco dando lugar a boas participações em Espanha, Áustria, Bélgica e Hungria. No fim, cortou a gordura de Tsolov, novamente o rival pela taça, e se colocou sete pontos à frente com a vitória na última prova, no Azerbaijão.
Agora, fica a dúvida para entender quem será o campeão. Restam duas etapas, em Catar e Abu Dhabi, mas as realizações ainda seguem pendentes por conta das tensões no Oriente Médio. Caso ambas sejam canceladas, Câmara deve ser confirmado campeão da F2 em 2026.
O rendimento na F2, contudo, foi apenas uma parte do que levou Câmara à F1. O brasileiro se preparou com a Ferrari em testes de carros antigos em 2026 e impressionou a Haas em sessão privada em Portimão, que envolveu — além de um tempo referência marcado por Bearman — pilotos como Leonardo Fornaroli (apoiado pela McLaren) e Ryo Hirakawa (apoiado pela Toyota). No fim, a velocidade maior do brasileiro venceu.

Oliver Bearman
2020
Mesmo possuindo a idade de Câmara, Bearman teve trajetória diferente ao ser ‘apressado’ aos monopostos em 2020, após uma série de títulos no kart. Extremamente jovem na época, o britânico foi sétimo na F4 Alemã e décimo na F4 Italiana, pela qual disputou oito corridas. Ao menos, venceu uma vez em cada uma delas.
Entre os rivais, curiosamente, estavam pilotos que permanecem na base até hoje, como Joshua Dürksen, Gabriele Minì e Dino Beganovic. O paraguaio, inclusive, ficou à frente de Bearman no campeonato alemão. A F4 Italiana daquele ano, por sua vez, terminou com título de Minì e quinto lugar para Gabriel Bortoleto, que venceu uma prova.
2021
No ano seguinte, o cenário melhorou bastante. Com a segunda oportunidade em cada uma das categorias, Bearman venceu ambas — com direito a uma campanha dominante na F4 Italiana. Na melhor sequência, o piloto chegou a vencer sete corridas seguidas. No total, levou 11 de 21 provas.
Nas duas campanhas, o vice-campeonato ficou com o alemão Tim Tramnitz. Bearman ainda correria na GB3, mas apenas com algumas participações ao longo da temporada; mesmo assim, faturou uma vitória e quatro pódios.

2022
E, mais uma vez, a carreira de Bearman toma um rumo diferente de Câmara por aqui. A precocidade da carreira do inglês o fez pular a FREC, que seria o próximo degrau natural, por uma vaga na Fórmula 3. E o rendimento foi bastante positivo para um novato ainda mais jovem que os concorrentes, com o terceiro lugar.
Bearman disputou o título durante toda a temporada, mas viu Victor Martins ficar com o troféu e Zane Maloney conquistar o vice. O grid incluía nomes como Isack Hadjar e Franco Colapinto, hoje na F1, além do brasileiro Caio Collet.
2023
O ritmo forte na F3, mesmo com o terceiro lugar e apenas uma vitória em 18 corridas, credenciou Bearman a seguir com a Prema na Fórmula 2. E foi aí que as coisas se complicaram um pouco mais: já como piloto de testes da Haas, Ollie não teve exatamente o brilho que se esperava na campanha de estreia, apesar do sexto lugar.
Em ano de título de um já experiente Théo Pourchaire, porém, a juventude do inglês pesou na análise final e algumas apresentações de brilho intenso, como em Baku, reforçaram a noção de que 2024 seria diferente.

2024
Afetado pela velocidade que a própria carreira tomou, Bearman chegou a 2024 com um segundo ano de F2 pela frente e sem títulos desde a F4. A temporada prometia ser decisiva, e a companhia de Antonelli na Prema também gerou uma espécie de embate entre os protegidos de Ferrari e Mercedes. Mas havia uma mudança de regulamento no caminho.
Iniciando a derrocada — também financeira — que culminou em uma equipe sumida hoje em dia, a Prema não se entendeu com o novo carro da F2, introduzido em 2024, e despencou em competitividade. Bearman ainda venceu três corridas, mas foi 12º e viu a ascensão à F1 tomar contornos diferentes do imaginado ao afundar com um carro raramente bem acertado e cheio de dificuldades.
O drama completo, no entanto, foi evitado por um apêndice. Bearman foi convocado às pressas para substituir Carlos Sainz na Ferrari, por conta de uma inflamação no órgão, no GP da Arábia Saudita daquele ano. De prontidão em Jedá para as atividades da F2, Ollie deu conta do recado e levou o carro a um respeitável sétimo lugar, mesmo tendo feito apenas um treino livre.
E essa apresentação, obviamente, deu à Ferrari a certeza de que Bearman estava pronto para a F1. Nada tão diferente assim do que fez a Mercedes, que também via Antonelli sofrer com a Prema e decidiu apostar no rendimento do italiano em testes de carros antigos de F1; ainda assim, o nível de pressão envolvido em uma corrida real deu indícios fortes de que Ollie estaria mesmo no ponto para o salto.
A partir daí, a pressão da Ferrari por uma vaga na Haas foi natural, e os novos bons desempenhos de Bearman ao substituir Kevin Magnussen em Azerbaijão e Interlagos só reforçaram os sinais. Meses depois, o britânico foi confirmado na equipe americana para a temporada 2025; daqui a mais alguns, receberá a companhia do brasileiro.

Câmara x Bearman: resultados na base
| Categoria | Rafael Câmara | Oliver Bearman |
|---|---|---|
| F4 Italiana | 3º (2022) | 10º (2020) 1º (2021) |
| F4 Alemã | 3º (2022) | 7º (2020) 1º (2021) |
| F4 do Oriente Médio | 2º (2022) | — |
| FRMEC | 3º (2023) 3º (2024) | — |
| FREC | 5º (2023) 1º (2024) | — |
| F3 | 1º (2025) | 3º (2022) |
| F2 | 1º* (2026) | 6º (2023) 12º (2024) |
| Titularidade na F1 | 2027 | 2025 |
* Restam duas corridas para o encerramento da F2, em Catar e Abu Dhabi