A temporada 2025 da Fórmula 1 entrou na reta final com um cenário que não se vê o tempo todo: dois companheiros de equipe disputando o Mundial de Pilotos. Diante da superioridade técnica da McLaren, Lando Norris e Oscar Piastri transformaram a disputa pelo campeonato em um duopólio. Max Verstappen ainda ensaiou uma reação na segunda metade do ano, mas o prejuízo pelo fraco início da Red Bull foi muito grande, e o neerlandês jogou a toalha após a vitória de Norris no GP de São Paulo.
Ao contrário de muitos casos de disputa entre companheiros de equipe, a relação entre os dois jovens virou o grande tema do ano não por um clima tenso entre ambos. Ao invés disso, pelas decisões estratégicas que passaram a influenciar diretamente na corrida pelo título, motivadas pela política de igualdade — talvez até ilusória — da equipe papaia.
Mas a história mostra que, quando dois pilotos dividem box, carro e ambição, a conta quase sempre chega — para o time, para a dinâmica interna e, às vezes, até para o próprio resultado esportivo. Por isso, o GRANDE PREMIUM relembra dez disputas históricas entre companheiros de equipe que levaram a Fórmula 1 ao limite da competitividade — e, em muitos casos, da convivência.
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Lewis Hamilton x Nico Rosberg (2014–16)
A rivalidade entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg marcou a primeira fase da era híbrida da Fórmula 1 e definiu completamente o domínio da Mercedes entre 2014 e 2016. Amigos de infância, companheiros de kart e, depois, vizinhos no paddock, os dois encontraram na F1 o cenário perfeito para transformar afinidade em conflito.
Hamilton levou os títulos de 2014 e 2015, quase sempre com mais velocidade e arrancadas decisivas após as férias de verão. Rosberg, porém, nunca deixou de provocar incômodo: conquistou poles, venceu corridas importantes e cresceu dentro da equipe, que insistia no discurso de igualdade técnica — mas lidava diariamente com o desgaste entre seus dois pilotos. O ápice veio em 2016, quando Rosberg mudou o estilo de pilotagem e passou a errar menos. As batidas em Barcelona e na Áustria aumentaram a tensão e escancararam a ruptura definitiva dentro da Mercedes.
Rosberg se beneficiou de um início de temporada perfeito, contou com problemas mecânicos de Hamilton em pontos-chave e confirmou o título em Abu Dhabi após segurar a pressão psicológica — e também na pista, já que Hamilton reduziu o ritmo para tentar colocar rivais entre eles. Cinco dias depois, o alemão anunciou a aposentadoria. Encerrava-se uma das rivalidades mais intensas, explosivas e desgastantes entre companheiros na história recente da Fórmula 1.
Sebastian Vettel x Mark Webber (2010)
A parceria entre Sebastian Vettel e Mark Webber foi tensa durante todos os anos juntos na Red Bull, mas nada se compara ao que ocorreu em 2010, quando ambos surgiram como candidatos ao título mundial. Webber começou o ano mais constante, venceu corridas importantes na Espanha e em Mônaco e assumiu a liderança do campeonato. A disputa chamou atenção porque cinco pilotos — Hamilton, Jenson Button, Webber, Vettel e Fernando Alonso — seguiam na briga pelo título nas primeiras etapas.
A relação começou a azedar de vez na Turquia: Vettel tentou ultrapassar Webber pela liderança e os dois se tocaram. O alemão abandonou, e o australiano caiu para terceiro. A situação piorou no GP da Inglaterra, quando a Red Bull retirou um novo aerofólio do carro de Webber para instalá-lo em Vettel após o alemão danificar sua peça. O veterano venceu a prova e disparou no rádio: “Nada mal para um segundo piloto”.
No fim do ano, Alonso e Webber chegaram a Abu Dhabi como favoritos. A Ferrari decidiu ignorar Vettel e focou a estratégia em cobrir o australiano, mas o tiro saiu pela culatra. Ambos acabaram ficando presos atrás de Vitaly Petrov, e o alemão venceu a corrida com autoridade para se tornar campeão mundial pela primeira vez — o mais jovem da história da Fórmula 1.

Lewis Hamilton x Fernando Alonso (2007)
A temporada de 2007 produziu uma das parcerias mais turbulentas da história da Fórmula 1. Recrutado como bicampeão mundial, Fernando Alonso esperava liderar a McLaren com tranquilidade. Mas Lewis Hamilton, então novato, mostrou velocidade e consistência desde a primeira etapa e rapidamente equilibrou a disputa interna.
O clima implodiu de vez no GP da Hungria: o espanhol segurou o companheiro nos boxes para impedir que abrisse volta rápida na classificação. Alonso foi punido, Hamilton venceu e abriu vantagem na liderança — episódio que deflagrou o escândalo do “Spygate”, já que o bicampeão teria ameaçado divulgar e-mails internos revelando que a equipe tinha obtido informações sigilosas da Ferrari.
A relação ficou insustentável, e a McLaren anunciou a saída de Alonso no fim da temporada. A disputa pelo título seguiu aberta até a última etapa, com Kimi Räikkonen surgindo como azarão. Um abandono de Hamilton na China e problemas de câmbio no Brasil colocaram o troféu nas mãos do finlandês da Ferrari, que venceu em Interlagos e superou os dois por apenas um ponto.
Damon Hill x Jacques Villeneuve (1996)
Com Michael Schumacher chegando em uma Ferrari capenga após dois títulos pela Benetton, 1996 virou um duelo interno da Williams: Damon Hill contra Jacques Villeneuve. O britânico vivia seu último ano na equipe, enquanto o canadense, recém-coroado campeão da Indy, estreava com grande prestígio na Fórmula 1.
Hill abriu a temporada em ritmo dominante, vencendo quatro das cinco primeiras corridas, mas Villeneuve respondeu na parte final do campeonato e chegou às últimas etapas com chance real de virar o jogo. O canadense venceu em Estoril e reduziu a diferença para apenas nove pontos antes da corrida decisiva em Suzuka.
Villeneuve largou na pole-position, mas acabou abandonando após perder uma roda. Hill venceu, levou seu único título mundial e deixou a Williams logo depois.
Ayrton Senna x Alain Prost (1988–89)
O maior duelo interno da história da F1. Ayrton Senna chegou à McLaren em 1988 para enfrentar Alain Prost, já bicampeão. O carro, o lendário MP4/4, dominou a temporada com 15 vitórias em 16 provas. Como apenas 11 resultados contavam naquela época, os oito triunfos de Senna superaram os sete de Prost — mesmo o francês tendo somado mais pontos totais — e o brasileiro conquistou seu primeiro título mundial.
Em 1989, a tensão explodiu. Logo na segunda corrida, em Ímola, Prost acusou Senna de quebrar um acordo interno e a relação desandou. Prost passou a reclamar de tratamento desigual da Honda, e a temporada terminou de forma dramática: na disputa direta pelo título em Suzuka, os dois se chocaram na chicane após a curva 130R. Senna continuou, venceu, mas foi desclassificado. Prost, que já tinha assinado com a Ferrari, ficou com o título.

Nelson Piquet x Nigel Mansell (1986–87)
A Williams tinha o melhor carro da Fórmula 1 em 1986 e 1987, mas pagou caro por uma rivalidade interna cada vez mais amarga. Nelson Piquet, bicampeão mundial, chegava como referência, mas Nigel Mansell mostrou força e era visto por muitos como “queridinho” por ser da mesma nacionalidade da equipe.
Em 1986, quatro vitórias consecutivas do britânico colocaram pressão sobre Piquet, e sem ordens de equipe, os dois seguiram tirando pontos um do outro até o fim. No GP da Austrália, Mansell sofreu um estouro de pneu que acabou entregando o título a Prost, mesmo com a Williams tendo o pacote mais dominante.
Em 1987, Piquet mudou de abordagem após um acidente forte em Ímola: passou a priorizar regularidade. Mansell, agressivo como sempre, tentou rebater com vitórias e chegou na reta final do campeonato dependendo apenas de dois triunfos para ser campeão. Mas as chances do britânico foram por água abaixo quando sofreu um acidente sério na classificação em Suzuka, foi afastado e viu Piquet ser campeão.
Niki Lauda x Alain Prost (1984)
A McLaren reuniu duas figuras opostas em 1984. De um lado, Niki Lauda, já bicampeão mundial, puro estrategista da corridas. Do outro, o jovem Alain Prost, faminto na busca de seu primeiro título. O francês foi dominante em classificações, mas o experiente companheiro apostou em ritmo de corrida e inteligência estratégica.
O título se decidiu em detalhes. A vitória de Prost em Mônaco resultou apenas em meia pontuação, já que a prova foi interrompida pela chuva. Isso permitiu que Lauda, que emendou uma sequência de três vitórias, três segundos lugares e uma quarta posição nas últimas sete corridas, ficasse com o tricampeonato por apenas meio ponto, menor margem da história. Prost, que abandonou as três etapas vencidas pelo companheiro, teve de amargar o vice-campeonato — que teria sido seu primeiro título caso a vitória em Monte Carlo tivesse pontuação completa.

Mario Andretti x Ronnie Peterson (1978)
A Lotus dominou a temporada 1978. Mario Andretti era claramente o melhor piloto da equipe, mas Ronnie Peterson se manteve constante e veloz e leal, vencendo provas quando Andretti enfrentou dificuldades e garantindo diversas dobradinhas nas corridas vencidas pelo americano.
Na Itália, antepenúltima prova do campeonato, Peterson ainda tinha chance matemática de título, mas sofreu um acidente gravíssimo na largada em Monza, foi retirado com vida, mas faleceu no dia seguinte após complicações cirúrgicas. Andretti terminou a corrida em sexto e conquistou o título de forma melancólica.
Denny Hulme x Jack Brabham (1967)
A Brabham vivia seu auge técnico e esportivo, e 1967 terminou em um duelo interno entre o dono da equipe, Jack Brabham, e seu companheiro Denny Hulme. O neozelandês não tinha a mesma velocidade em classificação, mas compensava com consistência.
Jim Clark, da Lotus, chegou a ameaçar a dupla, mas intercalou vitórias com muitos abandonos e acabou ficando para trás. Em contrapartida, Hulme manteve uma campanha sólida, terminou quase todas as corridas entre os três primeiros e chegou ao México com cinco pontos de vantagem. Terminou em terceiro, atrás do próprio Brabham e de Clark, suficiente para garantir seu único título mundial antes de se transferir para a McLaren.
Phil Hill x Wolfgang von Trips (1961)
A Ferrari dominou 1961 com o famoso modelo “Sharknose”, e a disputa pelo título ficou entre Phil Hill e Wolfgang von Trips. O alemão era mais veloz, mas também mais propenso a acidentes. Hill era um piloto mais constante. Von Trips chegou a Monza precisando apenas de um pódio para ser campeão.
Na segunda volta, porém, seu carro tocou na Lotus de Jim Clark e foi lançado contra o público, provocando uma das maiores tragédias da história da Fórmula 1: Von Trips morreu na hora e 15 espectadores também perderam a vida. A corrida seguiu, Hill venceu e selou o título, mas a conquista ficou marcada para sempre pelo contexto dramático.