A edição de 2026 das 500 Milhas de Indianápolis foi realizada somente há alguns dias, mas certamente já é uma das mais memoráveis em 110 anos de história. Além dos pouquíssimos 0s023 que separaram Felix Rosenqvist de David Malukas nos metros finais, a prova também foi movimentada do início ao fim — um completo contraste em relação ao ano passado.
A chuva, que ameaçou encerrar a corrida antes das 200 voltas programadas, trouxe um tempero a mais de indefinição para a corrida, que foi interrompida com bandeira vermelha na volta 106 e mais uma amarela no 116° giro. Porém, os céus optaram pela decisão mais coerente e deixaram a prova rolar, o que provou ser a escolha mais lógica: a história foi escrita com a chegada mais apertada de todos os tempos.
Entre a celebração dos vitoriosos e o choro dos perdedores, a Indy 500 provou mais uma vez que não é chamada de ‘O Maior Espetáculo do Automobilismo‘ por acaso. Confira cinco coisas que aprendemos com as 500 Milhas de Indianápolis:
Rosenqvist tem atuação de gênio na última volta

O piloto do #60 sempre teve a fama de leão de treino e era favorito para ficar com a pole-position em Indianápolis. Porém, não conseguiu ser tão rápido no Fast 6 quanto nas outras fases da classificação e teve de se contentar com o quarto lugar no grid. E durante a corrida, só foi se colocar entre os candidatos à vitória por conta de uma estratégia alternativa.
Depois de ser superado por Marcus Armstrong na penúltima relargada, Rosenqvist iniciou o último giro na terceira posição. Após ver Malukas ultrapassar Marcus logo na relargada, partiu para o ataque em cima do companheiro de equipe, com direito a um leve toque na entrada da curva 1. Apesar da pouca vantagem, a tendência era de que a Penske saísse vencedora, já que ambos os carros da Meyer Shank estavam lado a lado durante a volta toda.
Rosenqvist provou ser uma daquelas pessoas que deixa tudo para a última hora — ou últimos metros, nesse caso: só foi superar Armstrong na saída da última curva. Depois aproveitou o vácuo e executou a manobra com maestria para superar Malukas praticamente na linha de chegada.
É necessário destacar que o sueco fez a volta toda longe do traçado ideal, por fora, ao lado do companheiro de equipe — qualquer deslize e os dois bateriam. Porém, Rosenqvist arriscou quando precisava arriscar, ao contrário de Pato O’Ward, que tirou o pé para não colocar três carros lado a lado na penúltima relargada. De quebra, ainda teve a ultrapassagem de Felix no jovem do #12. Uma atuação de gênio na última volta para ficar na história.
Apesar da derrota, Malukas tem futuro brilhante pela frente

É completamente justificável ficar aos prantos depois de chegar em segundo lugar na Indy 500. Fica ainda mais compreensível depois de perder por míseros 0s023 — a lamentação só mostra o quão grande a corrida é. Porém, Malukas tem somente 24 anos e uma carreira toda pela frente: cedo ou tarde vai ter outra oportunidade de vencer.
Claro, a frustração é ainda maior considerando que o estadunidense nunca venceu na categoria. Aliás, com a desclassificação de Marcus Ericsson no ano passado, também ficou na segunda colocação em Indianápolis. O substituto de Will Power na Penske não pode se deixar abalar pela derrota, porque apesar da falta de vitórias, tem se mostrado extremamente regular na temporada 2026 e não assumiu a vice-liderança do campeonato por acaso.
Malukas enfim tem a primeira oportunidade de pilotar em um carro de ponta neste ano e não tem deixado a desejar. Não seria surpresa nenhuma se o #12 terminar o campeonato à frente dos companheiros de equipe, que são bem mais experientes e com anos de casa.
Meyer Shank se agiganta com vitória, mas erra feio com Castroneves

É bem verdade que a operação da Meyer Shank não é uma das maiores na Indy, embora tenha conquistado as 500 Milhas de Indianápolis duas vezes. Além disso, a estratégia alternativa nos últimos dois stints provou ser um acerto, já que colocou Rosenqvist e Armstrong em condições de brigar pela vitória. Helio Castroneves, no terceiro carro do time, até queria seguir a mesma estratégia dos dois, mas teve o pedido rejeitado.
O brasileiro não só teve de seguir a tática padrão — que o fez perder mais posições —, como foi prejudicado ao longo da corrida com pit-stops lentos. Para piorar, teve problemas mecânicos e precisou abandonar a corrida a seis voltas do fim.
Castroneves pagou caro por estar no carro que não disputa a temporada completa, tanto com a tática diferente quanto pela demora nos boxes, frutos de uma equipe que aparenta ser maior do que realmente é — obviamente, pelo fato de já ter vencido a Indy 500 duas vezes em um período de seis anos.
Collet vai para o tudo ou nada. E leva a pior

É evidente que Caio Collet foi de longe o novato que mais brilhou ao longo de todas as atividades em Indianápolis. Foi o mais rápido nos testes abertos, garantiu o décimo lugar no grid — até ser desclassificado e cair para 32° —, além de ter liderado nove voltas na corrida. Dennis Hauger e Mick Schumacher, os outros estreantes, tiveram desempenhos bastante discretos em comparação com o brasileiro.
Largando do fundo do grid, era preciso arriscar para chegar ao pelotão da frente. Por isso, ousou ao ficar na pista logo na primeira bandeira amarela da prova. E não parou por aí: superou Romain Grosjean, assumiu a liderança e ainda brigou de igual para igual com ninguém menos que Álex Palou, o maior nome da categoria nos últimos anos.
Depois de retornar ao meio do grid, Collet ocupava a décima posição com menos de dez voltas para o fim, mas bateu forte na saída da curva 2 e abandonou a corrida. Com isso, perdeu a chance de ser eleito o Novato do Ano da Indy 500, prêmio que ficou com Schumacher, que apesar de não brilhar como o brasileiro, fez o feijão com arroz, avançou na prova e cruzou a linha de chegada em 18° lugar. Indianápolis nunca perdoa erros, ainda mais vindo de novatos. No entanto, Caio mostrou o mais importante: velocidade. E tem condições de evoluir no restante da temporada, inclusive nos ovais.
Magia de Indianápolis manteve prova indefinida até o fim

Se no ano passado a Indy 500 ficou bem aquém do padrão com uma corrida pouco movimentada e com domínio de Palou, o cenário foi completamente diferente em 2026. Apesar de o espanhol ter liderado o maior número de voltas, outros 14 pilotos também comandaram a prova em algum momento. Além disso, a etapa deste ano teve 70 mudanças de liderança, o maior número em 110 edições.
A chuva até ameaçou estragar a festa — a previsão do tempo já acendia o sinal de alerta nas equipes, pois até a largada poderia ser adiada —, mas, na verdade, só introduziu um tempero extra. Como também existia a possibilidade de a prova não ter as 200 voltas programadas, os competidores não economizaram combustível na maior parte do tempo, como é normalmente feito.
Ao longo das 500 milhas, era extremamente difícil cravar um vencedor antes da hora, simplesmente porque não havia um favorito que se destoasse dos demais. Além disso, havia o fator da imprevisibilidade, tanto destacada pelos pilotos. Não por acaso, a corrida só foi decidida nos metros finais. Se Indianápolis de fato escolhe seus vencedores, talvez não seja exagero dizer que tenha mudado de ideia no último segundo.
A Indy retorna já no próximo fim de semana, no dia 31, com o GP de Detroit, em circuito montado nas ruas da cidade mais populosa do estado do Michigan, nos Estados Unidos.
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