Depois do vacilo no sábado (22) e do sintoma de “paloufobia” na classificação, Kyle Kirkwood escreveu uma história totalmente diferente no domingo (23). Arriscou na primeira curva, assumiu a liderança e passou a controlar a prova — mesmo com Álex Palou bem próximo durante o primeiro stint. Uma vitória bastante segura nas ruas de Washington, que ratificou a sensação de que o norte-americano poderia ter feito muito mais na disputa pelo título.

Kirkwood é um piloto que foi talhado para correr na Indy desde as categorias de base, onde causou frisson. Foi o primeiro a ser campeão da USF2000, Pro 2000 e Indy NXT, feito ainda mais impressionante porque praticamente ficou parado em 2020, ano em que o último degrau antes da Indy não teve edição por conta da pandemia de covid-19.

Até por ter se desenvolvido visando a Indy, Kirkwood sempre mostrou velocidade na categoria — inclusive nos tempos de Foyt —, mas demorou para encontrar consistência. De 2025 para 2026, apresentou uma evolução clara: chegou a 13 top-10 em 15 etapas e nove resultados entre os cinco primeiros. É um retrospecto que confirma o salto, mas também ajuda a explicar a sensação de que ainda faltou alguma coisa para transformar o campeonato em uma briga de verdade.

Claro que a Andretti, apesar de ser uma das grandes forças do grid, ainda patina em alguns pontos, principalmente nos pit-stops. Em estratégia, por outro lado, a equipe avançou com Ron Ruzewski no comando. Não dá, portanto, para colocar toda a responsabilidade nas costas de Kirkwood. Mas faltaram mais atuações como a de Washington — e também como a de Arlington — para que Palou tivesse sido obrigado a conviver com uma pressão muito maior ao longo do campeonato.

Porque a sensação, já há algumas etapas — para não dizer anos —, é de que a disputa pelo título da Indy só espera a matemática confirmar aquilo que parece inevitável: Palou campeão. E o curioso é que Kirkwood mostrou, em Washington, que tinha condições de tornar esse caminho bem mais complicado.

Kyle Kirkwood (Foto: IndyCar)

Não é necessário repetir o ápice de Washington em todas as corridas. Seria irreal esperar isso. O que Kirkwood precisa é deixar para trás performances sem sal, como as de Indianápolis e Nashville — nesta última, largou da pole-position e terminou apenas em décimo —, além de evitar erros como o acidente em Markham. O norte-americano não precisa dominar todas as etapas, mas tem de parar de desperdiçar as oportunidades que aparecem.

A vitória em Washington também teve um componente importante: Kirkwood capitalizou em cima de uma jornada pavorosa de Palou. O espanhol acertou o pneu de Mick Schumacher na primeira parada, precisou cumprir um drive-through e, depois, cometeu um erro grosseiro ao pegar a zebra da curva 5 e bater no muro. Terminou em 20º, três voltas atrás do vencedor.

A diferença caiu de 133 para 91 pontos após a prova, e a disputa pelo título ainda está aberta. Com 162 pontos ainda em jogo, porém, a missão de Kirkwood segue sendo bastante complicada. Com duas corridas em Milwaukee e uma em Laguna Seca pela frente, Palou precisa apenas administrar a vantagem. Se o espanhol chegar em nono nas três provas restantes, por exemplo, já terá pontos suficientes para garantir o título. Também pode ser campeão ainda na primeira corrida do oval de West Allis se ampliar a vantagem para 108 pontos — leva na segunda corrida se tiver 54 tentos de frente ao #27.

Ou seja: Washington não mudou o favorito ao título. Mudou, talvez, a percepção sobre o que Kirkwood poderia ter feito neste campeonato.

Kyle Kirkwood (Foto: IndyCar)

Talvez a vitória em Washington sirva justamente para Kirkwood se lembrar do piloto que é. Quem sabe esse seja esse o principal recado que Washington deixa para 2027. Kirkwood não precisa comprar briga com Palou fora da pista, muito menos ficar repetindo, como fez no meio da temporada, que a fase do espanhol “não é tão boa assim”. Pode guardar esse tipo de comentário para si.

A melhor resposta, afinal, está na pista. Se conseguir transformar a velocidade mostrada em Washington em uma temporada inteira de consistência, aí sim Kirkwood poderá fazer o que ainda não conseguiu em 2026: desafiar Palou de verdade pelo título da Indy — e não deixar que o espanhol faça o grid de bobo, com disse o norte-americano.