Embora a Justiça de São Paulo tenha suspendido a cláusula de exclusividade do contrato de Rubens Barrichello com a Scuderia Bandeiras, as partes ainda travam uma disputa nos tribunais sobre os efeitos financeiros da rescisão do acordo firmado para a temporada 2026 da Stock Car. Documentos anexados ao processo que tramita na 1ª Vara Cível de Votorantim e obtidos pelo GRANDE PRÊMIO revelam agora como uma tentativa de acordo extrajudicial fracassou antes de a questão chegar à Justiça.
As conversas mostram duas propostas: R$ 600 mil da Scuderia Bandeiras, condicionados à participação de Barrichello em quatro eventos da equipe, contra R$ 750 mil pedidos pela representação do piloto, sem novas contrapartidas.
A diferença nominal entre as propostas era, portanto, de R$ 150 mil. O conteúdo das mensagens, porém, mostra que o principal impasse não estava somente no dinheiro.
As partes divergiam fundamentalmente sobre os efeitos da decisão da Scuderia Bandeiras de abandonar a Stock Car no meio da temporada: para Barrichello, a saída unilateral da equipe encerrava também suas obrigações de comparecimento a eventos; para a Bandeiras, compromissos comerciais e promocionais previstos no contrato continuavam válidos independentemente da participação no campeonato.
As mensagens foram anexadas à contestação apresentada pela Bandeiras na ação em que Barrichello e a B11 Marketing Esportivo cobram aproximadamente R$ 2,4 milhões.

Bandeiras coloca R$ 600 mil na mesa e exige quatro eventos
O histórico anexado ao processo começa em março, mas a negociação sobre o encerramento do contrato aparece efetivamente depois da saída da Scuderia Bandeiras da Stock Car.
Em 30 de julho, após uma chamada de vídeo de 15 minutos, a equipe encaminhou à representação de Barrichello um balanço do acordo. Segundo a mensagem, o salário previsto era de R$ 2 milhões, havia R$ 125.625 referentes a comissão da ALE e R$ 1.192.500 já tinham sido pagos.
Cinco dias depois, em 5 de agosto, a Bandeiras formalizou sua proposta para encerrar a relação.
A equipe ofereceu R$ 600 mil, divididos em quatro parcelas de R$ 150 mil com vencimentos entre setembro e dezembro. O pagamento, entretanto, ficaria condicionado à participação de Barrichello em quatro eventos, com datas definidas de comum acordo.
A Bandeiras justificou a condição afirmando que o contrato previa oito eventos que, segundo a interpretação da equipe, ainda não haviam sido entregues. O lado de Barrichello rejeitou essa premissa.

Barrichello pede R$ 750 mil e diz não dever mais eventos
No mesmo dia, Fabio Fakri, apresentado nos autos como empresário de Barrichello, respondeu que a saída da Stock Car havia ocorrido por iniciativa da própria Scuderia e que, por isso, o piloto entendia ter direito à multa proporcional prevista no contrato.
A representação de Rubens sustentou ainda que ele não tinha mais compromissos presenciais a cumprir com a equipe. Segundo a mensagem, Barrichello estava “bastante chateado” com o que havia acontecido e não tinha interesse em voltar a participar de eventos da Scuderia.
Fakri informou então que, pela interpretação do lado do piloto, a aplicação estrita do contrato produziria uma multa de R$ 1,109 milhão. Para evitar uma disputa, porém, apresentou uma proposta considerada final: R$ 750 mil em quatro parcelas de R$ 187.500.
No dia seguinte, a posição foi reiterada. A representação de Barrichello calculou que os R$ 750 mil representavam um desconto de aproximadamente 33% sobre aquilo que considerava devido contratualmente. A Bandeiras não aceitou.
Bandeiras diz que Barrichello não era apenas piloto, mas embaixador
A resposta da equipe revela o ponto central da divergência. A Bandeiras argumentou que, ao contratar Barrichello, não havia contratado “apenas um piloto para disputar a Stock Car”, mas também um embaixador da equipe.
Segundo a Scuderia, o contrato estabelecia compromissos envolvendo eventos próprios, ações com patrocinadores, convenções, entrevistas, feiras, congressos e outras atividades comerciais. A equipe sustentou que parte dessas entregas não havia sido realizada durante a vigência do acordo por indisponibilidade de agenda do piloto. Por isso, a Bandeiras não aceitava pagar pela rescisão sem receber qualquer contrapartida.
A equipe afirmou que a exigência de quatro aparições não representava a criação de uma nova obrigação, mas uma redução de compromissos que já estariam previstos no contrato.
Contrato previa 12 atividades da equipe e quatro ações de marketing
Em 12 de agosto, a Scuderia detalhou nas conversas as cláusulas usadas para sustentar sua interpretação. A cláusula 3.2.5 separava a participação nas etapas e eventos promocionais da Stock Car de outra obrigação: o comparecimento a 12 atividades organizadas pela própria equipe, limitadas a uma por mês e previamente programadas em conjunto com o piloto.
Já a cláusula 3.2.7 previa a participação em feiras, eventos, congressos, convenções, entrevistas e outras atividades promocionais organizadas pela Scuderia, limitadas a quatro participações no ano.
A Bandeiras argumentou que o contrato utilizava expressões diferentes para compromissos do “Campeonato” e compromissos da “Equipe”. Por isso, na interpretação da Scuderia, deixar a Stock Car não eliminava automaticamente as obrigações comerciais assumidas por Barrichello.
O lado do piloto manteve entendimento diferente: como a rescisão havia sido provocada unilateralmente pela Scuderia, Rubens não teria mais qualquer prestação a realizar e deveria receber a multa correspondente.
Bandeiras diz que pagamentos estavam R$ 66,8 mil adiantados
As mensagens revelam ainda outro argumento que passou a integrar a disputa financeira.
A Scuderia afirmou que, pelo cronograma contratual, R$ 1.125.625 deveriam ter sido pagos até aquele momento, enquanto os pagamentos efetivamente realizados somavam R$ 1.192.500. Pelas contas apresentadas pela equipe, portanto, havia R$ 66.875 pagos antecipadamente em relação ao cronograma.
A Bandeiras usou o número para sustentar que não estava inadimplente no momento em que a relação terminou e que a discussão deveria considerar não apenas a multa pleiteada por Barrichello, mas também as obrigações que, segundo a equipe, não haviam sido entregues.
Negociação termina sem acordo e partes vão à Justiça
Em 12 de agosto, Fakri comunicou que não via mais possibilidade de avanço. A representação de Barrichello manteve a proposta de R$ 750 mil e afirmou que, diante das interpretações diferentes do contrato, o melhor seria cada lado defender sua posição “pelos meios jurídicos adequados”.
A Bandeiras lamentou o encerramento das conversas, mas também manteve sua interpretação.
Barrichello e a B11 posteriormente ingressaram com a ação de aproximadamente R$ 2,4 milhões. Além dos valores relacionados ao contrato e à rescisão, o piloto pediu a suspensão da cláusula de exclusividade para poder voltar à Stock Car.
A Scuderia posteriormente negou que pretendesse impedir Barrichello de voltar ao campeonato e chegou a oferecer gratuitamente carro, carreta, engenheiros, mecânicos e estrutura para viabilizar um retorno.
A questão esportiva recebeu uma primeira decisão judicial. A 1ª Vara Cível de Votorantim suspendeu a cláusula de exclusividade e determinou que a Bandeiras não poderá utilizá-la para impedir Barrichello de assinar com outra equipe ou ser inscrito na Stock Car. A vitória, porém, foi parcial.
O juiz não antecipou os pagamentos pedidos por Barrichello nem determinou o bloqueio de até R$ 2,405 milhões em ativos das rés. A decisão considerou que a definição sobre os efeitos econômicos da rescisão, o cumprimento das obrigações de cada parte e os valores eventualmente devidos exige a continuidade do processo.
Assim, a Justiça já resolveu a questão que tinha efeito imediato sobre a carreira de Barrichello: ele está livre para voltar à Stock Car por outra equipe. A discussão que aparece nas conversas — quem rompeu o contrato, quais obrigações sobreviveram à saída da Bandeiras e quanto cada parte efetivamente deve — permanece aberta.
O que dizem as conversas envolvendo Barrichello e Scuderia Bandeiras
Os diálogos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO foram transcritos mantendo a grafia e pontuação originais do anexo do processo.
O primeiro contato exposto entre as partes foi uma ligação não atendida da Bandeiras para Fakri, realizada às 16h do dia 6 de março. Alguns segundos depois, o empresário retornou com uma mensagem escrita:
— “Boaa [sic]”
Um mês depois, em 6 de abril, às 5h26, a equipe enviou a seguinte mensagem:
— “Booooooom dia Fábio ! Apenas para agradecer a indicação do motorhome, deu tudo certo, compramos e vamos estrear já em Interlagos, abs [sic]”
O empresário retornou no mesmo dia, às 6h47:
— “Bom diaaaa !!! Ja [sic] fiquei sabendo !! Q [sic] maravilha !! Parabens [sic] pela compra !! Grande abraço [sic]”
As partes voltaram a se falar no dia 21 de julho, às 18h55, semanas após a Scuderia Bandeiras ter anunciado a saída da Stock Car, que se tornou pública em 30 de junho. Neste caso, a equipe foi quem procurou Fakri:
— “Boa noite meu amigo Fakri, tudo bem ? Consegue um horário amanhã para falarmos por celular ? Só não consigo das 9:00 às 10:00, fora isso qualquer outro horário é bom [sic]”

A resposta veio às 18h57:
— “Graaaande João !!! Td [sic] bem ? Claro… Vamos falar sim !! Vamos falar umas 11:30hs [sic] ?”
No dia seguinte, às 11h30, Fakri e a Bandeiras conversaram por 31 minutos por chamada de vídeo, sendo que o teor da conversa não consta nos autos do processo.
Em 30 de julho, a Bandeiras tornou a contatar Fakri. Às 13h31, a equipe tentou um contato por chamada de voz e outro por vídeo, sendo que ambos não foram atendidos. No minuto seguinte, o time enviou uma mensagem perguntando se poderiam conversar às 16h, o que foi respondido positivamente às 14h01.
Às 16h01 foi iniciada uma chamada de vídeo com duração de 15 minutos. Porém, às 16h08, a Bandeiras encaminhou a seguinte mensagem com os números do contrato para Fakri:
— “Acerto com Rubens:
Salário: R$ 2.000.000,00
Comissão Ale: R$ 125.625,00
Já foi pago: R$ 1.192.500,00
Saldo: R$ 933.125,00
Pelo contrato deveria ter sido pago até agora: R$ 1.125.625,00
Foi pago: R$ 1.192.500,00 [sic]”
No mesmo dia, às 19h13, Fakri realizou uma ligação de voz que teve duração de 1 minuto.
Em 5 de agosto, às 9h48, Fakri contatou a Bandeiras via mensagem de áudio. Às 11h35, a equipe respondeu por texto:
— “Oi Fakri, te retorno até o fim do dia, guenta aí ! [sic]”
Oito minutos depois, o empresário respondeu:
— “Combinado“
Às 16h49, a equipe retornou com uma proposta para a rescisão de Rubens Barrichello e apontou para um detalhe contratual: a realização de eventos do time que, de acordo com a Bandeiras, não haviam sido entregues:
— “Oi, Fakri. Considerando que o contrato previa a realização de 8 eventos que não foram entregues, nossa proposta para a rescisão consiste no pagamento de R$ 600.000,00, conforme o cronograma abaixo, mediante e condicionada a participação do Rubens em 4 eventos, cujas datas serão previamente definidas em comum acordo.
- 15/09: R$ 150.000,00
- 15/10: R$ 150.000,00
- 15/11: R$ 150.000,00
- 15/12: R$ 150.000,00
Entendemos que esta é uma proposta equilibrada e justa para ambas as partes, permitindo o encerramento da relação contratual de forma consensual e organizada. Fico no aguardo do seu retorno. [sic]”
A resposta foi dada no mesmo dia, às 17h53:
— “Seu João, boa tarde. Tudo bem? Antes de mais nada, acho importante destacarmos um ponto. Percebo que vocês ainda estão vinculando essa questão dos eventos ao pagamento, mas esse não é o nosso entendimento. Para nós, vale o que está previsto no contrato: o contrato foi rompido por iniciativa de vocês e, por isso, entendemos que temos direito ao recebimento da multa proporcional, da forma como está prevista. Então é importante deixar claro que o Rubens não tem mais nenhum evento a cumprir com vocês. E, sendo bem sincero, depois de tudo o que aconteceu, ele ficou bastante chateado com a situação e também não tem interesse em voltar a fazer eventos com a empresa. Sobre a proposta, eu acho que não esta [sic] longe. Vocês chegaram em R$ 600 mil, divididos em quatro parcelas. Conversei com o Rubens e, até para evitar aquele desgaste de ficar indo e voltando com valores, resolvemos colocar nossa posição final na mesa. Inclusive, é importante destacar um ponto: se formos seguir estritamente o que está previsto no contrato, o valor da multa chegaria a R$ 1.109.000,00. Justamente por entendermos que um acordo é sempre o melhor caminho para os dois lados, estamos fazendo um esforço para encerrar essa questão de forma consensual. Por isso, nossa proposta final é de R$ 750 mil, pagos em quatro parcelas de R$ 187.500,00. Na nossa visão, é uma proposta bastante equilibrada e representa uma redução grande em relação ao valor que entendemos ser devido pelo contrato. Realmente precisamos encerrar esse assunto hoje. Essa é a nossa posição final e acredito que seja uma boa oportunidade para resolvermos isso de forma definitiva, simples e amigável, evitando que essa situação se prolongue desnecessariamente. Abraço e fico a disposição [sic]”
A Bandeiras retornou ao empresário no mesmo dia, às 21h22:
— “Oi Facri, saindo de um compromisso só agora. Eu fico triste com essa posição dele, sentimos muito por isso, temos o Rubens em mais alta conta e não era nosso desejo esse clima ruim, gostaríamos que ele continuasse a conviver conosco. Mas, apesar disso, eu não consigo fechar um acordo nesses termos ainda hoje, nesses patamares, sem nenhuma contrapartida dele, justamente num momento em que precisaríamos dessa parceria. Se ele entender possível a gente continuar no diálogo para construirmos algo melhor, inclusive para sentarmos todos juntos, nós aqui temos o maior interesse e as melhores das intenções. Peço sinceramente que reflitam mais um pouco sobre todo esse cenário e vamos continuar buscando um consenso. Aguardo você.”
Fakri entrou em contato com a Bandeiras no dia seguinte, 6 de agosto, às 15h08, quando enviou um áudio. Logo em seguida, mandou uma mensagem de texto ressaltando a rescisão unilateral:
— “Boa tarde, Sr. João. Tudo bem? Antes de mais nada, quero reforçar que temos total interesse em resolver essa situação de forma consensual. Mas, para que essa negociação faça sentido, precisamos partir de um entendimento básico: o contrato foi rescindido de forma unilateral e por iniciativa exclusiva da Scuderia. Independentemente dos fatos que levaram a essa decisão, o Rubens não teve qualquer participação nisso. Eu poderia entrar em diversos detalhes, mas acredito que o próprio contrato é bastante claro nesse ponto. A consequência prevista é o pagamento da multa contratual, sem qualquer contraprestação por parte do Rubens. Se não partirmos dessa premissa, a negociação acaba perdendo sua referência e fica muito difícil encontrarmos um ponto de equilíbrio. Vale destacar também que, se seguirmos estritamente o contrato, o valor devido seria de R$ 1.109.000,00. Justamente por acreditarmos que um acordo é o melhor caminho para ambos os lados, estamos propondo um desconto bastante significativo. Dessa forma, reiteramos nossa proposta final: R$ 750.000,00, pagos em 4 parcelas, o que representa um desconto de aproximadamente 33% sobre o valor contratualmente devido. Caso essa proposta não seja de interesse da Scuderia, peço, por gentileza, que nos informem até amanhã, 07 de agosto, para que possamos definir os próximos passos. Abraço.“
Apesar do prazo solicitado pelo empresário, a Bandeiras retornou em 10 de agosto, às 07h14:
— “Bom dia Fakri ! Obrigado pelo retorno. Entendo perfeitamente a posição de vocês, assim como espero que consigam compreender a nossa. Existe um ponto que, para mim, não pode simplesmente ser desconsiderado nessa negociação. Quando contratamos o Rubens, não contratamos apenas um piloto para disputar a Stock Car. Contratamos também um embaixador da Scuderia Bandeiras. Tanto que o próprio contrato prevê a participação dele em eventos organizados pela equipe, ações com patrocinadores, convenções, entrevistas, feiras, congressos e atividades de marketing da Scuderia. Infelizmente, ao longo do contrato, essa parte importante das entregas não aconteceu. Em diversas oportunidades fomos informados de que a agenda dele não permitia a participação nos eventos da equipe. Sempre respeitamos isso, mas é um fato que essas obrigações contratuais deixaram de ser cumpridas. Por isso tenho dificuldade em tratar essa negociação apenas sob a ótica da multa rescisória, como se todas as demais obrigações do contrato tivessem sido integralmente cumpridas. Na minha visão, quando buscamos um acordo, precisamos olhar o contrato como um todo, considerando os direitos e também as obrigações de ambas as partes. Nossa proposta de vincular parte do pagamento à realização de alguns eventos nunca teve caráter punitivo. Pelo contrário. Foi uma tentativa de permitir que encerrássemos essa relação de uma forma positiva, entregando à Scuderia uma parte daquilo que sempre foi um dos principais objetivos da contratação do Rubens: sua presença junto aos nossos patrocinadores, clientes e parceiros. Confesso que fico triste ao saber que ele não tem interesse em voltar a participar de nenhum evento da Scuderia. Sempre tivemos enorme respeito e admiração por ele, e sinceramente esperava que conseguíssemos encerrar essa história de uma maneira diferente. Por isso, antes de qualquer decisão definitiva, gostaria muito que conseguíssemos sentar pessoalmente com o Rubens. Acredito que uma conversa franca entre nós pode ser muito mais produtiva do que uma troca de mensagens entre advogados e representantes. Tenho convicção de que ainda existe espaço para construirmos uma solução equilibrada e que preserve o respeito que sempre tivemos por ele. Continuo com a melhor das intenções para resolvermos isso de forma amigável e espero que vocês também mantenham essa disposição. [sic]”
Fakri respondeu em 12 de agosto, às 11h23, mantendo a pedida em R$ 750 mil e indicando o caminho judicial:
— “Bom dia João !! Tudo bem? Entendo a posição da Scuderia e respeito a interpretação de vcs [sic] sobre o contrato, mesmo que obviamente a nossa seja diferente. E acho que justamente por termos entendimentos diferentes em pontos tão importantes, não vejo que uma conversa pessoal com o Rubens agora vá mudar alguma coisa ou fazer a gente chegar em uma conclusão diferente. Não é de forma alguma uma questão de falta de respeito ou consideração pela Scuderia, muito pelo contrário!! Acho apenas que chegamos em um ponto onde não temos mais muito o que avançar nessa negociação. Da nossa parte fizemos um esforço real para tentar chegar em um acordo, inclusive chegando nos R$ 750 mil, que já representam uma redução bem significativa em relação ao valor da multa que entendemos ser devida pelo contrato. Como pelo que entendi da sua mensagem não conseguimos chegar em um consenso, acho que o melhor agora é cada lado seguir defendendo o seu entendimento pelos meios jurídicos e deixar que essa questão seja resolvida dessa forma. Uma pena não termos conseguido chegar em um acordo, porque nossa preferência também era resolver tudo de forma amigável. Mas de qualquer maneira isso não muda o respeito que temos por vc [sic] e por todos da Scuderia !! Abraço [sic]”

Às 13h47, a Bandeiras enviou uma mensagem que foi posteriormente apagada. Às 14h05, mandou:
— “Oi Fakri, boa tarde, ia responder, mas me chamaram aqui, te retorno mais a tarde [sic]”
Às 14h23, o empresário respondeu:
— “Sem problemas [sic]”
Seguido por “Abs [sic]”.
O retorno da equipe veio às 15h45, detalhando as cláusulas contratuais e a divergência de interpretação sobre as obrigações presenciais do piloto:
— “Oi Fakri, tudo bem ? Entendo sua posição e respeito a decisão de vocês de, neste momento, não avançarem na negociação. Mas antes de encerrarmos definitivamente essa conversa e encaminharmos a questão para os advogados, preciso registrar um ponto que considero muito importante, inclusive porque você me disse por telefone que, no entendimento de vocês, os eventos previstos no contrato estavam vinculados à Stock Car e que, como a Scuderia deixou de participar do campeonato, o Rubens não teria mais essas entregas a fazer. Voltei ao contrato assinado e, sinceramente, não consigo chegar a essa interpretação. O contrato faz uma distinção bastante clara entre os compromissos relacionados à Stock Car e aqueles relacionados diretamente à Scuderia Bandeiras. Veja o que diz a cláusula 3.2.5 Participação em Atividades: ‘(a) Participar de todas as etapas do Campeonato, incluindo treinos, classificatórios, corridas e eventos promocionais do Campeonato e organizados pela Organizadora do Campeonato;’ Aqui, sim, estamos falando claramente da Stock Car e de eventos organizados pela Organizadora do Campeonato. Mas logo depois o contrato estabelece uma obrigação diferente: ‘(c) Comparecer em 12 (doze) atividades organizados pela EQUIPE, limitadas a 1 (um) por mês, não acumulativas, que serão previamente programados em conjunto com o PILOTO.’ E o contrato vai além. Na cláusula 3.2.7 Comercial e Marketing, está previsto: ‘(a) Participar de feiras, eventos, congressos, convenções, entrevistas e outras atividades promocionais organizadas pela EQUIPE, promovendo sua marca e/ou de seus patrocinadores, conforme planejamento estabelecido entre as partes, limitadas a 4 (quatro) participações totais ano.’ Portanto, Fakri, pelo menos para mim, a redação é bastante clara. Quando o contrato quis tratar da Stock Car, escreveu expressamente ‘Campeonato’ e ‘Organizadora do Campeonato’. Quando tratou das demais atividades, escreveu expressamente ‘organizadas pela EQUIPE’. E ‘EQUIPE’, conforme a própria definição do contrato, somos nós. Por isso não consigo concordar que nossa saída da Stock Car tenha simplesmente eliminado essas obrigações ou que elas nunca devam ser consideradas nessa negociação. Ao longo da relação nós solicitamos a participação do Rubens em atividades da Scuderia e, em diversas ocasiões, recebemos como resposta a indisponibilidade de agenda. Sempre compreendemos e procuramos acomodar isso porque nossa intenção nunca foi criar qualquer tipo de conflito com ele. Mas uma coisa é compreendermos as dificuldades de agenda durante uma relação que pretendíamos manter por muitos anos. Outra completamente diferente é, no momento da rescisão, considerarmos essas obrigações como se tivessem sido integralmente cumpridas ou simplesmente não existissem. E esse é exatamente o ponto da nossa proposta. Não estamos tentando criar agora uma nova obrigação para o Rubens. Estamos propondo reduzir de 12 para apenas 4 eventos uma entrega que, no nosso entendimento, já fazia parte das obrigações assumidas contratualmente. Tampouco estamos nos recusando a discutir qualquer valor decorrente da rescisão. Tanto que colocamos R$ 600 mil na mesa. O que não considero equilibrado é analisar exclusivamente a cláusula que vocês entendem gerar um crédito para o Rubens e, ao mesmo tempo, desconsiderar as cláusulas que estabeleciam contrapartidas dele para com a Scuderia e que não foram entregues. Inclusive, existe outro ponto que precisamos colocar na conta: até este momento, pelo cronograma contratual, deveriam ter sido pagos R$ 1.125.625,00, enquanto efetivamente já foram pagos R$ 1.192.500,00. Ou seja, a Scuderia não estava inadimplente; ao contrário, os pagamentos estavam aproximadamente R$ 66.875,00 adiantados em relação ao cronograma. Por tudo isso, continuo achando prematuro concluirmos simplesmente que não existe mais espaço para negociação e levarmos uma relação como essa para uma disputa judicial. Tenho enorme consideração pelo Rubens e por você. Não gostaria que uma relação construída com tanta expectativa terminasse dessa maneira. Mas também tenho responsabilidade com a Scuderia, seus sócios e patrocinadores, e não posso simplesmente ignorar obrigações expressamente previstas no contrato e que, no nosso entendimento, não foram cumpridas. Nossa intenção continua sendo chegar a um acordo. Se vocês estiverem dispostos a reconsiderar a questão dos eventos, mesmo que possamos discutir quantidade, formato e datas, continuo acreditando que temos condições de construir uma solução boa para os dois lados. Abraço. [sic]”
Fakri respondeu no mesmo dia, às 16h56, reforçando o encerramento das tratativas amigáveis:
— “João, boa tarde… Li tudo com atenção, mas continuo entendendo que estamos partindo de interpretações diferentes do contrato. Poderíamos ficar aqui trocando argumentos e interpretações, mas acredito que isso não mudaria o entendimento de nenhuma das partes. Não acredito que uma nova troca de mensagens vá fazer qualquer um dos lados mudar de posição. Se a nossa proposta não atende às expectativas da Scuderia, respeito a posição de vocês. Acho que o melhor agora é deixar que cada parte defenda seu entendimento pelos meios jurídicos adequados. De qualquer forma, agradeço mais uma vez pela forma respeitosa com que toda essa conversa foi conduzida e desejo que, independentemente do desfecho, o respeito entre nós permaneça. Abraço. [sic]”
A Bandeiras finalizou o diálogo em texto às 16h58:
— “É uma pena ! Abraços [sic]”
Fakri voltou a procurar a equipe em 17 de agosto, às 18h34:
— “Boa noite Joao [sic], td [sic] bem? Pode falar?”
Após tentar ligar às 18h42 sem sucesso, recebeu o retorno por texto às 18h44:
— “Oi Fábio, aqui bem e você? Se sinta à vontade para ligar sempre que quiser, e sem formalidade alguma [sic]”
O empresário tentou uma nova chamada de voz às 18h49, que não foi atendida, mas a equipe retornou às 18h52 em uma ligação de voz de 6 minutos, encerrando o histórico de comunicações anexado ao processo.