A Justiça Estadual de São Paulo deferiu o pedido do piloto Bruno Baptista e autorizou a realização de uma perícia técnica no carro da Stock Car para apurar possíveis falhas estruturais e térmicas no chassi SNG01, utilizado na principal categoria do automobilismo brasileiro. A decisão foi proferida pela juíza Cláudia Guimarães Santos, da 2ª Vara Cível de Cotia, no âmbito de uma ação de produção antecipada de provas movida por Baptista contra a fabricante do chassi Audace Tech, a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e a promotora Vicar, que organiza o campeonato. A medida admite recurso.

A sequência de problemas apresentados pelo chassi e dúvidas quanto à homologação do SNG01 levaram Baptista a buscar a Justiça Comum, onde sustentou que o modelo disponibilizado às equipes pode apresentar riscos à segurança dos competidores. O pedido ganhou ainda mais relevância após um acidente sofrido pelo próprio Bruno durante o treino livre 1 da etapa de Brasília, disputada em novembro passado. Em nova solicitação, Baptista requereu a preservação do carro #44, por ele utilizado. “Seja determinada a imediata proibição de transporte do veículo #44 (chassi e destroços) […] e a expedição de mandado de Busca e Apreensão do veículo #44, onde quer que este se encontre”, registrou a defesa.

Em decisão anterior, a juíza Cláudia Guimarães dos Santos já havia concedido tutela de urgência, determinando que os réus preservassem um exemplar do SNG01 sem qualquer modificação estrutural. As rés contestaram a medida, alegando, entre outros pontos, que o caso deveria ser analisado pela Justiça Desportiva, conforme o artigo 217 da Constituição, e que eventual perícia poderia ser feita apenas com base em projetos e desenhos técnicos.

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Bruno Baptista não escondeu a frustração com a situação atual da Stock Car (Foto: Magnus Torquato / Stock Car)

No novo despacho, a juíza rejeitou a tese de incompetência, afirmando que “a Justiça Desportiva tem atuação restrita a questões disciplinares e de competição” e que “a pretensão do autor extrapola as questões relativas à infração disciplinar ou à competição esportiva, pois busca, em última análise, salvaguardar seu direito fundamental à incolumidade física”.

Ainda, a juíza manteve a liminar e determinou a realização de perícia abrangente, que deverá analisar: um exemplar do modelo SNG01, sem alterações estruturais; o carro #44, utilizado pelo autor e cujo chassi está lacrado; além de projetos, desenhos técnicos e ficha de homologação do veículo, com preservação de eventuais segredos industriais.

A CBA informou nos autos que não possui veículos sob sua guarda, pois os carros foram desenvolvidos pela Audace e entregues às equipes, e que o modelo foi homologado em abril de 2025. Ainda assim, o juízo considerou necessária a prova técnica direta.

Diante da complexidade do objeto, as partes tiveram 10 dias a partir da publicação no Diário Oficial — prazo que vence nesta quarta-feira (4) — para indicar técnicos especializados aptos à realização da perícia. Após esse prazo, caberá ao juízo a nomeação do perito judicial, dando prosseguimento ao processo.

Ao GRANDE PRÊMIO, a CBA confirmou nesta quarta-feira (4) o recebimento do despacho do juiz e disse que, “como parte envolvida, está cumprindo integralmente o que a ela foi solicitado”. “A vistoria ainda não tem data determinada e, obviamente, a CBA cumprirá suas obrigações também na ocasião em que a mesma ocorrer”, declarou.

Procurada pelo GRANDE PRÊMIO, a Vicar respondeu que não conseguiria responder a tempo da publicação desta reportagem. Se o fizer, a matéria será devidamente atualizada.

CBA informa indicação de perito judicial e de membro do CTDN como assistente técnico

A CBA indicou Danilo José Brandão Gazel, graduado em Engenharia Automotiva, Engenharia Industrial Mecânica e Engenharia Mecânica, para atuar na perícia dos carros. A petição da CBA, à qual o GRANDE PRÊMIO teve acesso, data de 2 de fevereiro e responde à decisão da juíza Cláudia Guimarães Santos, da 2ª Vara Cível de Cotia.

A confederação também solicitou uma substituição e apontou Eduardo Sala Polati, membro do Conselho Técnico Desportivo Nacional (CTDN), para atuar como assistente técnico na condição de representante da própria entidade no acompanhamento da perícia.

Na mesma petição, a CBA ressaltou que está cumprindo a parte da decisão referente à indicação de assistente técnico para acompanhar a perícia dos veículos, mas destacou que “não está abrindo mão do seu prazo recursal” em relação à decisão sobre a alegada incompetência da Justiça Desportiva.

O GRANDE PRÊMIO apurou que pelo menos uma das partes — CBA, Vicar ou AudaceTech — deve ingressar com recurso contra a decisão judicial, após o recolhimento das custas referentes ao Agravo de Instrumento.

Stock Car: irregularidades de segurança marcou 2025

Acidente entre João Paulo de Oliveira e Bruno Baptista (Foto: Magnus Torquato/Vicar)

A temporada 2025 da Stock Car foi marcada por uma grave polêmica envolvendo a segurança do carro SNG01, modelo introduzido no ano passado e utilizado ao longo de praticamente todo o campeonato. Documentos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO indicam que, em 10 das 12 etapas disputadas, os próprios relatórios oficiais da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) registraram que os carros não estavam aptos a ir à pista por irregularidades que colocavam em risco a segurança dos pilotos.

As informações constam nas chamadas pastas de prova, relatórios técnicos e desportivos elaborados etapa a etapa por membros do Conselho Técnico Desportivo Nacional (CTDN) e por comissários da CBA. Em apenas uma ocasião — a oitava etapa, disputada no Velocitta, no início de outubro — os documentos afirmam que todos os carros estavam liberados do ponto de vista da segurança. Mesmo assim, não há detalhamento público sobre quais problemas foram corrigidos nem sobre por que, nas etapas seguintes, os veículos voltaram a ser considerados irregulares — 12ª etapa, disputa em Interlagos, em dezembro, o relatório técnico constava apenas como “vistoria realizada”, sem qualquer especificação.

As suspeitas em torno do SNG01 ganharam força após o grave acidente entre Bruno Baptista e João Paulo de Oliveira, em Brasília, em novembro. Baptista rodou e ficou atravessado na pista; segundos depois, Oliveira o atingiu lateralmente a 133 km/h, sem qualquer sinalização de bandeira amarela ou alerta aos pilotos. As imagens mostraram carros destruídos, incêndio quase imediato e falhas evidentes no protocolo de segurança da pista.

Ambos os pilotos sofreram lesões sérias. Baptista passou por cirurgia na mão e teve fraturas na coluna e costelas; Oliveira sofreu fissura na bacia e trincas na coluna. As críticas se estenderam à demora no resgate e à falta de preparo dos fiscais, questões registradas inclusive no relatório do diretor de prova, Renan Casetta.

Acidente entre João Paulo de Oliveira e Bruno Baptista (Foto: Reprodução/Full Time)

Desde o início do campeonato, pilotos e equipes já vinham reclamando da confiabilidade e da segurança do novo carro, apontando quebras frequentes e falhas estruturais. As críticas, no entanto, resultaram em punições. Baptista e Felipe Massa foram multados. Posteriormente apurou-se que a penalidade a Baptista chegou a R$ 354 mil em perda de benefícios, segundo ação judicial movida pelo piloto.

Os documentos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO mostram também falhas no processo de verificação técnica. Em algumas etapas, a vistoria de segurança foi descrita como “parcial”; em outras, itens importantes sequer puderam ser checados por ausência das ECUs (módulos eletrônicos). Só na etapa do Velocitta houve registro de mudanças relevantes, como correções no DRS, vedação contra gases na cabine e a introdução obrigatória de barreiras térmicas na pedaleira.

A Audace Tech, empresa responsável pelo desenvolvimento do carro e ligada à Vicar, promotora da Stock Car, teve papel central nessas modificações. Seu diretor é Enzo Bortoleto, irmão de Gabriel Bortoleto [piloto da Audi na Fórmula 1] e filho de Lincoln Oliveira, CEO da categoria, o que ampliou questionamentos sobre governança e conflitos de interesse.

Além dos relatórios de pista, testes realizados pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) em 2024 apontaram que o chassi do SNG01 apresenta alta rigidez, mas baixa capacidade de absorção de energia, recomendando revisões de projeto. O documento não menciona crash-tests e sugere que esforços estruturais se concentram em poucos pontos, o que pode agravar consequências de impactos.

Bruno Baptista não se intimidou com a multa que recebeu da Stock Car (Foto: Rodrigo Guimarães)

Apesar disso, CBA e Vicar afirmam que o carro é plenamente homologado e seguro, atribuindo as anotações das pastas de prova a erros de formulário ou a um estágio anterior às correções feitas antes das corridas. Em juízo, a Vicar apresentou versão diferente da CBA, dizendo que os carros eram inicialmente reprovados, ajustados ainda na quinta-feira do evento e depois liberados.

A divergência entre as explicações oficiais aumentou a desconfiança. Para críticos, se os carros só ficavam aptos após ajustes emergenciais, isso indicaria que o modelo entrou em competição sem maturidade suficiente, especialmente em um esporte de alto risco.

O presidente da CBA, Giovanni Guerra, chegou a admitir publicamente que o carro ainda tinha “partes a serem homologadas”, antes de recuar e dizer que se tratava apenas de “adendos” de desenvolvimento. A declaração ganhou peso porque Baptista já havia acionado a Justiça antes mesmo do acidente, questionando a homologação do SNG01 e pedindo perícia independente.

Após o acidente em Brasília, o pai do piloto, Adalberto Baptista, afirmou que o filho não voltará a correr com o carro da Stock Car, alegando risco real de fatalidade. Bruno reforçou a posição, dizendo que o chassi e a gaiola de proteção “não reagiram como deveriam” e que “não dá mais para ignorar e brincar com a vida de quem está na pista”.

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