A história que chegou nesta semana a uma vitória parcial de Rubens Barrichello na Justiça contra a Scuderia Bandeiras começou menos de um ano antes, quando o bicampeão decidiu encerrar uma relação de 13 temporadas com a Full Time e apostar em um projeto que havia acabado de chegar à Stock Car.
Entre novembro de 2025 e setembro de 2026, a relação passou da expectativa de disputar vitórias e títulos a uma batalha judicial. No meio do caminho, a Scuderia Bandeiras entrou em conflito com a Stock Car, foi à Justiça contra empresas ligadas à categoria, sofreu punições esportivas, abandonou o campeonato e deixou Barrichello sem carro.
A separação entre piloto e equipe também não aconteceu imediatamente. Documentos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO e anexados à ação que tramita na 1ª Vara Cível de Votorantim mostram que houve uma tentativa de acordo entre julho e agosto.
Barrichello aceitava R$ 750 mil para encerrar o vínculo sem novas contrapartidas. A Bandeiras colocou R$ 600 mil na mesa, mas condicionou o pagamento à participação do piloto em quatro eventos. O acordo não aconteceu. Entenda como a relação chegou a esse ponto.
Novembro de 2025 — Barrichello deixa Full Time e aposta na Bandeiras
Em 19 de novembro de 2025, Barrichello anunciou a saída da Full Time depois de 13 temporadas e assinou com a Scuderia Bandeiras. Era uma das maiores movimentações do mercado.
A Bandeiras havia estreado na Stock Car em 2025 e tinha Átila Abreu como CEO e Christian Fittipaldi no comando esportivo. Para a segunda temporada, reforçou significativamente a operação.
Além de Barrichello e Nelsinho Piquet, Rafael Suzuki deixou a TMG e assinou com a Bandeiras. Átila completava a formação.
O contrato de Rubens previa remuneração de R$ 2 milhões em dez parcelas de R$ 200 mil, além de valores relacionados a patrocínios. Também estabelecia exclusividade e obrigações comerciais e promocionais. Essas cláusulas se tornariam centrais meses depois.
Maio — Barrichello e Piquet são desclassificados em Interlagos
O primeiro grande conflito esportivo aconteceu depois da passagem da Stock Car por Interlagos.
A CBA desclassificou Barrichello e Nelsinho Piquet da etapa depois de encontrar inconformidades nas pinças de freio dos carros da Bandeiras. A equipe discordou da decisão e levou o caso ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva.
A discussão extrapolou os resultados perdidos. A Bandeiras questionou procedimentos adotados na fiscalização técnica e passou a travar uma disputa cada vez mais aberta com a estrutura da categoria.
17 de junho — Bandeiras vence primeira disputa judicial contra empresas da Stock Car
Antes mesmo da definição do recurso esportivo, outra divergência já havia chegado à Justiça. Em 17 de junho, a Justiça de São Paulo suspendeu a cobrança pelas modificações realizadas nos carros para a instalação dos motores V8.
A ação havia sido movida pela Scuderia Bandeiras contra Audace Tech e Vicar.
A equipe sustentava que alterações nas características básicas do projeto deveriam ser custeadas pela fabricante, promotora ou patrocinadores, e não pelas escuderias. Em decisão liminar, a Justiça acolheu o argumento e suspendeu a cobrança.
A relação entre Bandeiras e Stock Car, porém, continuava se deteriorando.

Junho de 2026 — Bandeiras leva cobrança pelo V8 à Justiça
Enquanto discutia esportivamente as punições de Interlagos, a Scuderia Bandeiras abriu outra frente contra empresas responsáveis pela Stock Car.
Em 17 de junho, a Justiça de São Paulo concedeu liminar em ação ajuizada pela equipe e suspendeu a cobrança por modificações feitas nos carros para receber os motores V8.
A mudança de motorização havia exigido alterações no SNG01. A Bandeiras argumentou que o contrato previa que modificações nas características básicas do projeto deveriam ser custeadas pela Audace Tech, Vicar ou patrocinadores, e não pelas equipes.
A Justiça, em decisão preliminar, acolheu o argumento e proibiu a cobrança, estabelecendo multa em caso de descumprimento.
O episódio aprofundou uma relação que já vinha se deteriorando entre a Bandeiras e a estrutura responsável pela categoria.
Junho de 2026 — STJD mantém punições de Interlagos
No dia 25 de junho, o STJD rejeitou por unanimidade o recurso apresentado pela Scuderia Bandeiras contra as punições aplicadas após Interlagos.
A equipe pretendia recuperar os resultados e pontos de Barrichello e Piquet, cancelar as multas e reverter outras sanções.
O tribunal entendeu que a inspeção das pinças havia seguido os procedimentos estabelecidos pelo Código Desportivo do Automobilismo e considerou insuficientes as provas apresentadas pela Bandeiras para derrubar a conclusão técnica. Cinco dias depois, o acórdão foi publicado.

30 de junho e 1º de julho — Scuderia Bandeiras rompe com a Stock Car
Foi o ponto de ruptura. Em 30 de junho, o GRANDE PRÊMIO antecipou que a Scuderia Bandeiras deixaria a Stock Car com efeito imediato. A saída foi confirmada pela equipe no dia seguinte.
O rompimento, entretanto, foi muito além da derrota no STJD. Ao explicar a decisão, a Bandeiras alegou “insegurança jurídica” e “deterioração” da relação com a Vicar.
A equipe apontou questionamentos relacionados aos procedimentos tributários envolvendo pneus, bloqueio de acesso ao sistema Stock Manager, problemas no fornecimento de componentes e preocupações de segurança relacionadas ao carro introduzido pela categoria.
Também foram citadas multas que, segundo a Bandeiras, ultrapassavam R$ 2,37 milhões.
A Stock Car apresentou outra versão. Em resposta, a Vicar afirmou que segurança era um “valor inegociável” e relacionou a saída ao julgamento que havia mantido as punições por irregularidades técnicas. A promotora também afirmou que a retirada da equipe não alteraria o calendário da temporada.
A CBA posteriormente lamentou a saída da Bandeiras e afirmou não ter tido influência na decisão tomada pela equipe.
Julho de 2026 — quatro pilotos são atingidos pela saída
O rompimento aconteceu depois de apenas cinco das 12 etapas previstas para 2026 e afetou diretamente Átila Abreu, Barrichello, Nelsinho Piquet e Rafael Suzuki.
Suzuki conseguiu uma solução rápida e voltou à Full Time para continuar no campeonato. Barrichello, Piquet e Átila permaneceram fora.
A situação produziu ainda outro capítulo incomum. Em julho, o site da Stock Car retirou o nome da Scuderia Bandeiras da classificação e passou a identificar os pilotos como “Sem Equipe”.
Na classificação disponibilizada pela CBA, porém, a Scuderia Bandeiras continuava aparecendo normalmente.
Agosto de 2026 — Barrichello processa a Scuderia Bandeiras
A disputa ganhou uma nova dimensão em agosto. Barrichello e a B11 Marketing Esportivo entraram com uma ação contra a Scuderia Bandeiras cobrando aproximadamente R$ 2,4 milhões por suposto descumprimento do contrato para a temporada de 2026.
O GRANDE PRÊMIO teve acesso ao processo. O acordo previa remuneração de R$ 2 milhões, dividida em dez parcelas mensais de R$ 200 mil, além de condições envolvendo patrocínio e uma cláusula de exclusividade.
A tese de Barrichello é de que cumpriu suas obrigações até a saída da Bandeiras e que a decisão da própria equipe de abandonar o campeonato tornou impossível a continuidade do contrato.
Como apenas cinco das 12 etapas haviam sido realizadas quando ocorreu o rompimento, Barrichello pediu valores relativos ao restante do acordo, multa contratual proporcional, comissão de patrocínio e indenização por danos morais e à imagem.
Mas havia uma questão que afetava diretamente a carreira do piloto: a cláusula de exclusividade continuava existindo.
Por isso, além da cobrança financeira, Barrichello pediu à Justiça a suspensão imediata da obrigação para poder negociar com outra equipe e retornar à Stock Car ainda em 2026.

26 de agosto — Bandeiras nega veto e oferece estrutura para Barrichello correr
A Bandeiras reagiu publicamente. A equipe negou que estivesse impedindo Barrichello de procurar outra equipe, afirmou que nunca havia se oposto à liberação e colocou gratuitamente à disposição de Rubens carro, carreta, engenheiros, mecânicos e estrutura para ajudar a viabilizar seu retorno ao grid.
Átila afirmou que o desejo era voltar a ver Barrichello “acelerando e disputando vitórias”. A manifestação não encerrou a disputa contratual.
28 de agosto — outra disputa entre Bandeiras e Stock Car chega à Justiça
A crise entre a equipe e a categoria também continuava em outra frente.
Em ação movida por Vicar e Audace Tech, a Justiça negou pedido para obrigar Átila Abreu e a Scuderia Bandeiras a remover vídeos publicados nas redes sociais.
A disputa era distinta daquela envolvendo Barrichello, mas mostrava que o rompimento entre Bandeiras e Stock Car já havia produzido diferentes processos judiciais.
17 de setembro — Justiça libera Barrichello para voltar à Stock Car
O caso Barrichello x Bandeiras teve a primeira decisão com consequência esportiva direta nesta semana. A Justiça de São Paulo suspendeu a cláusula de exclusividade e liberou Barrichello para defender outra equipe. A decisão foi uma vitória parcial.
A Scuderia Bandeiras não poderá utilizar a exclusividade contra Rubens, outras equipes ou entidades responsáveis pelo campeonato. O descumprimento pode gerar multa de R$ 20 mil por ato.
Por outro lado, o juiz não antecipou os pagamentos pedidos pelo piloto e também não concedeu o arresto de até R$ 2,405 milhões em ativos solicitado pelos autores.
A Justiça entendeu que ainda é necessário analisar o cumprimento das obrigações de cada lado, os efeitos econômicos da rescisão e os valores eventualmente devidos.
18 de setembro — documentos revelam por que acordo fracassou
O capítulo mais recente ajuda justamente a explicar o que a Justiça ainda terá de decidir. Nesta sexta-feira, documentos obtidos pelo GRANDE PRÊMIO revelaram as negociações realizadas antes da abertura do processo.
As mensagens mostram que Barrichello aceitaria R$ 750 mil para encerrar a relação sem novas contrapartidas, embora sua representação calculasse em R$ 1,109 milhão o valor da multa contratual.
A Bandeiras ofereceu R$ 600 mil, mas vinculou o pagamento à realização de quatro compromissos presenciais.
A documentação também mostra a divergência que permanece no centro da disputa: Barrichello sustenta que a decisão unilateral da equipe de abandonar a Stock Car encerrou suas obrigações; a Bandeiras entende que os compromissos comerciais eram independentes do campeonato e continuavam válidos.
A Justiça já decidiu que essa divergência não pode impedir Rubens de procurar outra equipe e voltar às pistas.
Stock Car hoje: perguntas frequentes
Quem lidera a Stock Car 2026?
Felipe Fraga lidera a Stock Car 2026 com 746 pontos após a etapa de Curvelo. O atual campeão tem 143 pontos de vantagem sobre Gabriel Casagrande, segundo colocado, restando quatro etapas para o fim da temporada.
Quando é a próxima corrida da Stock Car 2026?
A próxima etapa da Stock Car será em Brasília, no dia 27 de setembro. Depois, a temporada ainda terá rodadas em Cascavel, Velopark e Interlagos.
Felipe Fraga pode ser campeão da Stock Car 2026 em Brasília?
Fraga chega a Brasília com 143 pontos de vantagem sobre Gabriel Casagrande, mas a definição matemática do título depende da pontuação disponível na etapa e da diferença que o líder mantiver ao final das corridas. A temporada ainda terá outras três etapas depois de Brasília.
Por que Rubens Barrichello e Scuderia Bandeiras estão na Justiça?
A disputa começou depois que a Scuderia Bandeiras deixou a Stock Car no meio da temporada 2026. Barrichello entende que a decisão encerrou suas obrigações e cobra aproximadamente R$ 2,4 milhões no processo; a equipe contesta essa interpretação e sustenta que havia compromissos comerciais ainda não cumpridos. A Justiça já suspendeu a exclusividade e liberou Rubens para correr por outra equipe, mas ainda não decidiu o mérito financeiro.