A corrida 1 do eP de Tóquio da Fórmula E foi quente por fatores muito além da disputa pela vitória entre Dan Ticktum e Jake Dennis. O incidente entre Pascal Wehrlein e António Félix da Costa, que também envolveu Sébastien Buemi, provocou uma discussão pública entre os pilotos, com cada um apresentando versões diferentes sobre a confusão que mudou completamente o rumo da prova, com direito até a acusação de que a batida foi de propósito e de combinação entre Jaguar e Envision na pista.

O episódio aconteceu quando a janela do Pit Boost foi aberta. Buemi, que já carregava uma punição de 5s por tocar Nyck de Vries na primeira volta, havia acionado o Modo Ataque cedo e escalado o pelotão até a segunda posição. Como teria de cumprir a penalidade após a parada obrigatória nos boxes, a Envision alterou a estratégia.

Segundo o próprio suíço, a equipe pediu que ele reduzisse drasticamente o ritmo para favorecer o companheiro Joel Eriksson, que vinha mais atrás. Questionado se considerava justa essa forma de disputar a corrida, admitiu que a decisão pode gerar discussão, mas ressaltou que apenas cumpriu as ordens recebidas.

“A estratégia mudou durante a corrida. A equipe percebeu que reduzir o ritmo do pelotão ajudaria muito, e foi exatamente isso que aconteceu”, explicou ao portal The Race.

“Se isso é totalmente justo ou não, é outra discussão. Recebi essa instrução e simplesmente fiz o que a equipe mandou. Talvez as pessoas não achem correto, mas isso não é proibido. Só fiz o que me pediram e, obviamente, acho que não fiz muitos amigos”, admitiu.

O piloto da Envision afirmou ainda que sequer percebeu o tamanho da confusão criada atrás dele durante a corrida. “Só fiquei sabendo depois. Estávamos tentando trabalhar com a Jaguar e, obviamente, quando você compromete a corrida de outros pilotos, eles não ficam nada felizes”, disse.

Batida entre Pascal Wehrlein e António Félix da Costa (Vídeo: GPTV)

Apesar de Buemi admitir que a estratégia da Envision poderia beneficiar a Jaguar — que fornece trens de força para a equipe britânica —, Da Costa foi um dos maiores prejudicados. O português vinha em posição confortável, liderou parte da corrida e acreditava que tinha estratégia suficiente para lutar pela vitória antes do incidente.

Da Costa criticou diretamente a desaceleração no momento da abertura da janela do Pit Boost. Apesar da insatisfação, o piloto da Jaguar deixou claro que não responsabiliza Buemi pessoalmente e lamentou que justamente uma equipe cliente da Jaguar tenha causado tantos problemas.

“Estou muito decepcionado porque fizemos a corrida perfeita. Tínhamos mais de 2% de energia em relação aos líderes. A estratégia era perfeita para vencer. Talvez tivéssemos uma disputa com Ticktum, mas achei que essa vitória seria nossa”, explicou.

“Por algum motivo que não consigo entender, quando a janela do Pit Boost abriu, Buemi puxou o freio de mão e perdeu 4s em apenas três curvas. Isso foi muito antidesportivo. Não posso ficar bravo com Seb, porque apenas seguiu ordens. O problema é com a equipe dele e com quem definiu essa estratégia. Se existe uma equipe com quem tentamos correr com mais respeito é justamente quem usa trem de força Jaguar. Tentamos não atrapalhar uns aos outros, mas hoje aconteceu exatamente o contrário“, esbravejou

Confusão começou quando Sébastien Buemi diminuiu ritmo na janela do Pit Boost (foto: Fórmula E)

A maior acusação, porém, foi direcionada a Wehrlein. Os dois não fazem nenhuma questão de esconder que não se gostam e que tiveram uma convivência complicada no período que foram colegas de equipe na Porsche — especialmente na última temporada, quando um desentendimento durante o desfile de pilotos no eP de São Paulo implodiu de vez a relação. Da Costa disparou e disse que o alemão bateu de propósito para forçar o abandono.

“Pascal me tirou da corrida de propósito. Ele já tinha danificado o carro na curva anterior e acho que decidiu que, se a corrida dele tinha acabado, a minha também acabaria“, afirmou.

Apesar do incidente, Da Costa conseguiu seguir na prova e cruzou a linha de chegada no 9º lugar. Mesmo assim, ficou insatisfeito e reconheceu a própria Jaguar poderia ter previsto melhor a situação. “Também precisamos assumir parte da culpa, porque deveríamos ter percebido o que estava acontecendo e evitado essa situação”, disse.

Do outro lado da história, Wehrlein enxergou a situação de forma completamente diferente. Logo após o acidente, ainda pelo rádio, o alemão culpou Da Costa pelo contato. Em seguida, direcionou críticas à Envision, a quem acusou de agir de forma premeditada.

Da Costa ficou revoltado com o incidente apesar de ter conseguido completar prova (Foto: Fórmula E)

“Da Costa me jogou completamente no muro. Quebrou suspensão dianteira esquerda e asa”, alertou no momento.

“Vocês me foderam com Buemi, eu sabia. Deveríamos ter parado antes. Estava claro que eles iam jogar juntos. Foi um jogo sujo. Vou precisar abandonar. Eu sabia”, desabafou.

Quando perguntado pela equipe sobre o ocorrido, respondeu irritado. “O que aconteceu? A direção está completamente torta, o carro não faz curva. A asa está no pneu. Vamos abandonar essa merda. Olha a suspensão, acertei o muro”, seguiu.

Após a prova, Wehrlein voltou a questionar a estratégia utilizada por Buemi. Segundo o piloto da Porsche, o comportamento do suíço foi totalmente diferente do esperado quando a janela do Pit Boost foi aberta e insinuou novamente que a decisão fazia parte de uma estratégia conjunta entre Envision e Jaguar.

Pascal Wehrlein teve os maiores danos no carro com o incidente e precisou abandonar (Foto: Fórmula E)

“Não entendo qual era o plano do Buemi ao tentar segurar todo aquele grupo. Normalmente, quando a janela abre, todos aumentam o ritmo para tentar ganhar posições virtualmente antes da parada. Ele fez exatamente o contrário. Com certeza havia uma estratégia por trás disso. Depende apenas de quem deu essa ordem”, disse.

O alemão foi além ao afirmar que esse tipo de atuação extrapola os limites da disputa esportiva. Segundo Wehrlein, existe uma diferença entre ajudar um piloto que disputa o título e alterar deliberadamente o desenrolar de uma corrida.

“Se foi realmente isso — e foi o que pareceu — acho que é ir longe demais usar uma equipe cliente para controlar o ritmo da corrida. No fim da temporada sempre existe um pouco desse jogo, de não atacar tanto um companheiro de fabricante que disputa o título. Mas mudar ativamente o resultado de uma corrida, nós nunca fizemos isso“, reclamou.

Já sobre o contato com Da Costa, Wehrlein defendeu que estava ao lado do português antes da sequência de curvas. Segundo ele, o regulamento determina que o piloto por dentro deve receber espaço naquele trecho — o que, na sua visão, não aconteceu.

Wehrlein e Da Costa não escondem rusgas da época que foram companheiros na Porsche (Foto: Fórmula E)

“Estava lado a lado com António e praticamente ultrapassei dois carros. Existe uma regra para essa sequência de curvas. Se você está lado a lado na curva anterior, precisa receber espaço por dentro. Não me deram espaço. Fui empurrado contra o muro e isso destruiu completamente minha corrida“, opinou.

A direção de prova discordou da interpretação. O alemão foi considerado culpado pelo incidente e aplicou uma punição de 10s. Antes da decisão ser emitida, a Porsche mandou Wehrlein à pista novamente após o abandono no intuito de não carregar para a corrida de domingo qualquer sanção que pudesse ser imposta — como, de fato, aconteceu.

Apesar do clima quente nas entrevistas, o portal The Race informou que representantes de Porsche e Envision discutiram o episódio posteriormente de maneira mais tranquila para esclarecer o que aconteceu.

O acidente teve peso importante na disputa do campeonato. Wehrlein abandonou a corrida e perdeu a liderança do Mundial de Pilotos, enquanto Mitch Evans, que largou apenas em 16º, conseguiu terminar em quarto e assumiu a ponta da classificação após a primeira prova. Com a conclusão do fim de semana, ambos viram Dennis — que foi segundo e terceiro nas duas provas — assumir a liderança do campeonato.

A Fórmula E retorna entre os dias 15 e 16 de agosto, com a última etapa da temporada 2025/26, a rodada dupla do eP de Londres. Emissora oficial no Brasil, o GRANDE PRÊMIO transmite todas as atividades de pista AO VIVO e COM IMAGENS no YouTube e na GPTV.

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