A Cadillac vai até as últimas instâncias para ter Colton Herta na Fórmula 1 em 2027, apesar do fracasso retumbante na temporada 2026 da Fórmula 2. A equipe norte-americana vai colocar o piloto no quinto treino livre 1 do ano para que, enfim, conquiste a pontuação suficiente para obter a superlicença e, ao que tudo indica, ocupar o lugar de Valtteri Bottas no próximo campeonato. Enfim, o plano ficaria completo, mas, na pista, pouco Herta fez para merecer toda essa comoção — até mesmo quando correu na Indy.
O caso Colton Herta virou um paradoxo moderno do automobilismo. Enquanto a superfície mostra uma trajetória irregular na Indy e uma passagem discreta pela base, a Cadillac insiste que o valor real está no submerso — no trabalho invisível de simulador. No fim, o iceberg de Herta parece ser daqueles que ameaçam afundar mais pela ilusão de tamanho do que pelo peso real do que entrega no cronômetro.
A única coisa visível que temos de Herta que pode ser usada para argumentar uma ida à F1 foi a passagem do estadunidense pela Indy. Mas, esmiuçar cada cm² do iceberg vai reparar que essa comoção cadillaquiana é descabida: o piloto foi uma espécie de Benjamin Button na categoria norte-americana, pois mostrou ter mais maturidade no início da trajetória do que no fim, uma vez que não teve o amadurecimento devido.
Herta surgiu na Indy de forma espantosa e se tornou, em 2019, o vencedor mais jovem da história da categoria, que tem registros desde 1905. Com 18 anos, venceu o GP de Austin daquele ano pela Harding, quando disputava apenas a terceira corrida na categoria. Como todo jovem, patinou um pouco, mas seguiu muito veloz e continuou somando vitórias, como em Laguna Seca, no desfecho daquele ano.
Em 2020, ganhou em Mid-Ohio e chamou a atenção da Andretti. A partir de então, parecia questão de tempo para Herta ser campeão da Indy. Em 2021, obteve três vitórias, com direito a uma arrancada espetacular na estreita Long Beach, quando largou em 14º para vencer na maior escalada de um ganhador na etapa. No entanto, entre os erros da equipe, ficou o sinal de alerta ante a inconstância: foram oito corridas no top-10 e oito fora dele.

Em 2022, teve talvez a atuação mais memorável na Indy, quando venceu o GP de Indianápolis 1 dando um show sob pista molhada, com direito a segurar o carro com um famigerado drift no traçado misto do circuito para não rodar. Depois disso, derreteu diante da expectativa de ir para a F1. Foi quando testou diversos carros da categoria para obter de alguma forma a superlicença e correr pela AlphaTauri — atual Racing Bulls. Na época, Helmut Marko, consultor da Red Bull, disse com todas as letras que Herta seria o piloto da equipe caso a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) fizesse a exceção e liberasse o estadunidense.
Daí em diante, Herta passou a pensar mais na F1 e não viu que a Indy era o processo necessário para dar o salto. Amargou 799 dias sem vencer na categoria norte-americana e ficou longe da disputa pelo título, o que o fez somar poucos pontos para a superlicença. Em 2024, ganhou em Toronto e Nashville, no reencontro com o caminho das vitórias, e encerrou a temporada como vice-campeão. Não obteve a superlicença, mas a mente tinha virado uma chave: a F1 não era mais o foco.
Mas, de repente, Dan Towriss deixou de ser sócio-investidor e se tornou CEO da Andretti Autosport, assumindo o comando do grupo e sacando Michael Andretti da holding. Dias após o término da temporada, o sonho do ex-piloto da McLaren na F1 se concretizou com o novo chefão do agora TWG Motorsports: a equipe de Fórmula 1 saiu do papel, agora com o nome de Cadillac.
Pronto. Colton Herta se tornou novamente a última bolacha do pacote para ser o representante norte-americano na F1. E isso o fez, outra vez, olhar mais para a mudança do que para o que tinha em mãos. Chegou 2025 com apenas dois pódios e nove corridas fora do top-10, o que o deixou bem longe dos pontos necessários para a superlicença.

O fracasso foi tamanho que Herta e o TWG Motorsports começaram a planejar uma mudança para a F2 durante a temporada 2025 da Indy. Jogaram a toalha de conseguir a superlicença pela via considerada normal com a jornada ainda em curso. E, sem querer parecer engenheiro de obra pronta, todos sabiam que a mudança era arriscadíssima. O que particularmente não esperava era que o piloto fosse tão inoperante na categoria. A adaptação ao estilo de pilotagem e à abordagem com os pneus seria uma dificuldade, mas ficar fora dos nove primeiros lugares do campeonato — requisito para estar apto à F1 — não passava pela cabeça. O 19º lugar no certame é um baita de um rasgo na imagem.
Herta vai chegar à F1 por conta dos treinos livres 1 da Cadillac, que discursa em prol do que fica encoberto do iceberg. Era melhor ter deixado o estadunidense somente com isso, sem passar vergonha na F2 e dar voz a um discurso descabido de que os pilotos da Indy não são bons. Porém, se Herta estivesse entre os que de fato apresentam desempenhos dignos de nota na categoria de monopostos dos Estados Unidos, certamente já teria a superlicença faz tempo.