SÃO PAULO (pra constar) – Meio tarde para falar do último dia de testes em Barcelona, né? Acho que sim. Dia longo, muita coisa para resolver, deixei para a derradeira hora da sexta-feira. Paciência. Mas pelo menos dá para escrever com calma. Bem, comecemos com o resultado do dia: Hamilton em primeiro, fechando a semana […]
Publicado em 25/02/2022 às 23:25
Atualizado em
6 min de leitura
Compartilhar
Russell: segundo tempo geral com a Mercedes
SÃO PAULO(pra constar) – Meio tarde para falar do último dia de testes em Barcelona, né? Acho que sim. Dia longo, muita coisa para resolver, deixei para a derradeira hora da sexta-feira. Paciência. Mas pelo menos dá para escrever com calma.
Bem, comecemos com o resultado do dia: Hamilton em primeiro, fechando a semana com o melhor tempo da pré-temporada. Nada de excepcional, nenhum massacre na concorrência, mas sinal de vida da Mercedes. E podia ter sido um pouco mais rápido, abriu voltas que não foram concluídas com boas parciais, mas isso não vem ao caso. Todo mundo, entre os que importam, guardou alguma coisinha em Barcelona.
Vamos aos tempos agregados dos três dias. A informação pneumática é importante. A gama da Pirelli vai de C1, borracha mais dura, a C5, a mais mole e veloz. Como dá para perceber, a Red Bull não se preocupou em saber o que dava para fazer com os pneus mais aderentes. A Ferrari também não fez muita questão.
O melhor tempo na pré-temporada de 2020 em Barcelona (em 2021 os testes foram deslocados para o Bahrein) foi de Hamilton com 1min15s732. Hoje o inglês fechou sua volta mais rápida 3s055 acima do tempo de dois anos atrás. Mas segundo quase todo mundo das equipes na segunda metade do campeonato os tempos serão parecidos. Os carros nasceram mais lentos, mas seu desenvolvimento será rápido e há muita margem para melhorar.
No geral, quem deixou uma impressão mais positiva, inclusive na concorrência, foi a Ferrari. A equipe teve um desempenho sólido, consistente e muito confiável. Foi o time que completou mais voltas: 439 entre Leclerc e Sainz. Depois vieram Mercedes (393), McLaren (367), Red Bull (358), Williams (347), AlphaTauri (308), Aston Martin (296), Alpine (266), Alfa Romeo (175) e Haas (160).
Sainz e a Ferrari: bom começo
De tarde, molharam a pista para experimentar os pneus de chuva, mas nem todo mundo andou. Alguns com problemas técnicos, outros por desinteresse, mesmo. Aston Martin e Alpine encontraram algumas dificuldades pela manhã e o carro azul e rosa de Alonso chegou a ter um princípio de incêndio.
A Haas, como prometido, retirou todas as inscrições de sua patrocinadora russa e as cores da bandeira do país de Nikita Mazepin — que, no entanto, treinou normalmente. Günther Steiner, o chefe do time, foi questionado sobre uma possível substituição do piloto caso a Haas perca o patrocínio da empresa de seu pai, a Uralkali. Falou que Pietro Fittipaldi seria a primeira opção para o lugar, pois é o reserva oficial, já disputou dois GPs em 2020 (quando Grosjean sofreu o acidente no Bahrein) e conhece o time por dentro.
Mazepin na Haas: toda branca
Mas a situação, claro, não é tão simples assim. Sem o dinheiro da Rússia, a Haas vai ter dificuldades até para sobreviver. Alguém terá de vir em seu socorro, pois seria um vexame a F-1 começar a temporada com apenas nove equipes. O nome de Michael Andretti foi muito falado hoje no paddock. O ex-piloto tentou comprar a Sauber/Alfa Romeo no ano passado, não conseguiu, e há alguns dias tornou pública sua intenção de montar uma equipe própria, americana e com um piloto dos EUA — seria Colton Herta.
Se a Gene Haas perceber que não tem para onde correr — não vai querer bancar a operação do bolso, já tomou muito prejuízo nessa brincadeira –, é só dar um telefonema e oferecer a equipe prontinha para Michael. “Paga quando e como puder”, dirá. Andretti vai curtir a ideia. E ninguém vai se opor.
Ainda efeitos do conflito na Ucrânia: a F-1 anunciou o cancelamento do GP da Rússia, marcado para 25 de setembro, dizendo ser impossível correr lá “nas atuais circunstâncias”. Não ficou claro se o cancelamento é definitivo. Se as atuais circunstâncias forem outras em setembro, quem sabe… Mas pelo tom do comunicado e das reações da F-1 — toda ela baseada na Europa Ocidental e controlada por americanos –, dá para esquecer, sim, essa corrida. As feridas não cicatrizarão tão cedo. Malásia e Turquia são destinos possíveis para a data. Portugal também pode tentar, já que o GP da Rússia estava no calendário como etapa seguinte à de Monza, ainda na Europa. Quem pagar mais leva.
Pérez: Red Bull ainda discreta
Foi interessante, depois de três dias, ouvir dos pilotos o que eles acharam de seguir de perto os adversários com os novos carros, cujo conceito foi elaborado justamente para permitir que a turbulência gerada pelo carro da frente não fosse tão prejudicial à eficiência aerodinâmica de quem está atrás. Isso vai permitir que eles andem mais próximos, aumentando as possibilidades de ultrapassagens.
Quem descreveu melhor o que sentiu foi Sainz, da Ferrari. “Quando você está entre um e três segundos atrás, melhorou. Não se sente a perda de ‘downforce’ como antes. Entre meio e um segundo, o comportamento do carro é similar. Quando se está a menos de meio segundo do carro da frente, é bem melhor”, explicou. No geral, seus colegas concordaram. Ninguém reclamou muito dos novos carros, destacando apenas algumas características pontuais — como a visibilidade pior por causa das rodas de 18 polegadas com os pneus dianteiros cobertos por asinhas.
É tudo questão de se adaptar. Nada grave, resumindo.
Os carros agora voltam à pista de 10 a 12 de março no Bahrein, para mais três dias de pré-temporada. A impressão geral é que Mercedes e Red Bull devem se apresentar com muitas modificações em seus carros, e que a Ferrari, neste momento, está um pouquinho à frente na preparação para prova de abertura do Mundial no dia 20, lá mesmo no deserto de Sakhir.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.