SÃO PAULO (aqui, de azul) – Quando Hamilton foi para a Mercedes, muita gente achou que tinha feito a cagada mais monumental que um piloto poderia levar a cabo com sua carreira. Afinal, deixaria a McLaren, onde era tratado com carinho e sucrilhos pela manhã. Equipe forte, estruturada, que tinha terminado muito bem o ano passado e, assim, seria forte candidata ao título neste, já que o regulamento era praticamente o mesmo.
Ocorre que ele saiu mesmo assim, foi para um time com uma mísera vitória no currículo em sua fase século 21, e pode-se dizer que saiu na hora certa. Alguém, certamente, sabotou o projeto da McLaren deste ano. Não é possível. O time despencou de uma maneira tão vertiginosa que apenas a saída de Hamilton não explica o que está acontecendo.
Hoje, novo fiasco em casa. Bonitton em 11°, Pérez em 14° no grid. E Lewis lá na frente, pole requintada, daquelas de cinema.
Foi a 28ª do inglês, segunda no ano. E quinta da Mercedes em oito etapas nesta temporada. O carro prateado está voando e em Silverstone teremos o primeiro teste do teste pra valer. Teste do teste? É, saber se aquele famoso teste de Barcelona serviu para algo. Parece que sim. É verdade que em Mônaco e Montreal, pistas muito particulares para pneus (não são problemáticas para a borracha gosmenta da Pirelli), o time andou bem, ganhou até corrida, mas seja lá o que a Mercedes tenha aprendido nos treinos na Catalunha, não iria servir exatamente para as pistas monegasca e canadense.
Se aqueles três dias foram úteis, é agora que os resultados aparecerão, em circuitos de verdade. Em outras e mais simples e diretas palavras: se amanhã, na corrida, Hamilton e Rosberguinho não perderem rendimento depois de cinco ou seis voltas, como acontecia no começo da temporada, é porque os testes ajudaram, sim.
E aí teremos mais uma equipe para ganhar corridas com alguma frequência, o que é bom. Porque do jeito que está, a Red Bull vai ganhar esse campeonato com um pé nas costas. A McLaren está fora da briga. A Lotus perde força corrida a corrida, na relação direta de sua capacidade de investimento. E a Ferrari é um negócio de doido.
Vejam vocês. Em pistas velozes de curvas longas, como China e Barcelona, onde Alonsito ganhou, os vermelhotes deveriam andar bem, certo? Errado. A Ferrari não está andando rigorosamente nada em Silverstone. Alonso conseguiu um patético décimo lugar no grid, 1s372 atrás de Hamilton. Mais de um segundo. É de enfiar a cara num buraco e só sair de lá segunda-feira, quando não tiver ninguém olhando.
Massa, que bateu ontem, ainda trocou o motor e ficou em 12°. Igualmente mal, muito mal. Bem mal. Mal mesmo. Os dois mal. E nesse ritmo de eletrocardiograma, de montanha russa, não dá para o asturiano pensar em título. Até dava, algumas corridas atrás. Mas desse jeito, dá não. Alguém duvida que a diferença de pontos dele para Vettel, amanhã, só vai aumentar?
O treino de hoje aconteceu com sol de rachar para padrões britânicos, 19 graus escaldantes, e o Q1 desta vez foi o mais previsível e justo possível. Os quatro nanicos nas quatro últimas posições (pela ordem, Pica, Branquinho, Van Der Ley e Chaton, mas Van Der Ley larga em último, punido por algo que fez na corrida passada e não lembro o que foi), com as seminanicas Sauber e Williams dividindo as outras duas vagas da degola, com Sapattos em 17° e Guti-Guti em 18°.
No Q2, caiu quem tinha de cair, incluindo Massa. Não dava para imaginar o brasileiro passando para o Q3 com facilidade num fim de semana em que o carro não anda e no qual ele perdeu muito tempo de pista por conta da batida e dos problemas mecânicos. O normal era ficar, mesmo, como ficou. Pela ordem, os cortados foram Bonitton, Amassado, Verme, Chapolim, Incrível Hulk e Maldanado.
Mercedes, Red Bull, Lotus e Force India levaram suas duplas adiante. Ricardão, da Toro Rosso, ocupou a vaga que, em tese, deveria ser da outra Ferrari, para que um resultado absolutamente lógico se configurasse. Mas, como já dito, ilógico seria Massa passar, nas circunstâncias deste fim de semana.
O duelo Rosberguinho (que bela namorada, não? O que falam dele são calúnias, meu bem) x Hamilton foi o melhor do dia. Nico virou 1min30s231 na primeira tentativa. Lewis respondeu com 1min30s096. O alemão foi à luta e fez 1min30s059. Mas o Comandante Habilton fez uma volta em 1min29s607, enfiou quase meio segundo no parceiro e encerrou a conversa.
Foi uma das voltas mais espetaculares dos últimos tempos em Silverstone, podem acreditar. Primeira fila mercêdica, segunda rubrotaurina com Tião Alemão em terceiro e Canguru em Aviso Prévio em quarto. Resta Um e Ricardão formam uma interessantíssima terceira fila, com Force India e Toro Rosso lado a lado, os emergentes, a nova classe média. Legal, isso. Fútil e Grojã vêm a seguir e, em nono e décimo, os decadentes, desinteressados, envelhecidos e lentos Raikkonen e Alonso, ex-Fodón.
Amanhã? Pelo que andou nos treinos, é para dar Mercedes. Mas resta a dúvida dos pneus. Vou arriscar uma surpresinha. Di Resta entre os três primeiros. Puro chute. O normal é dar Red Bull na corrida, Vettel, mas fiquemos com o benefício da dúvida pneumática para apostar num prateado, qualquer dos dois. Vai dar para saber o que eles poderão fazer depois de umas dez voltas. Se seguirem voando, ganham. Ferrari no pódio, acho que dá para esquecer. Alonso vai começar a ficar putchinho logo, logo.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.