SÃO PAULO (estou sem óculos) – Red Bull com gelo, dizem, fica gostoso. Assim, se quiserem colocar quatro pneus de F-1 logo depois de um treino em Austin dentro de uma banheira do energético, vai cair bem. Nunca vi lugar para ser tão difícil aquecer pneus quanto essa pista americana onde os fracos não têm vez. O cara volta para os boxes e a borracha está gelada de queimar.
O único, claro, que não teve tanto problema assim foi Vettel, o caubói loiro. Foi o mais rápido em todos os treinos, todas as parciais, todos os Qs, um massacre. E larga na pole pela sexta vez no ano e 36ª na carreira em seu 100° GP amanhã. Alguma dúvida de que vai ganhar?
Eu tenho. Afinal, estamos falando da América, terra das oportunidades, onde todos, ao acordar, têm o direito de sonhar com um Big Mac, um Double Whopper ou um Dave’s Hot ‘N Juicy. Eu prefiro dois Double Cheese Sliders.
Assim, resta a Alonso isso aí mesmo: sonhar com alguma chance surpreendente e inesperada, pois se até Romero Britto se deu bem na América, por que não ele?
Vettel fez 1min35s657 na volta da pole, a quarta ou quinta seguida com o mesmo jogo de pneus, não contei. Alonso larga em oitavo e estava esquentando a borracha até durante a sua volta mais rápida. Um drama térmico. Hamilton até que chegou perto de Sebby, 0s109 atrás, e o grid ficou assim, já considerando a perda de cinco posições de Grojã, que trocou o câmbio: 1) Sebby; 2) Hammy; 3) Webby; 4) Kimmy; 5) Schummy; 6) Philly; 7) Hulkky; 8) Fernie; 9) Rommy; 10) Maldy.
Philly larga na frente de Fernie pela segunda vez no ano — a outra foi na Itália. Deve deixar o colega passar antes de chegar no fim da ladeira, na largada. A tarefa do espanhol na corrida toda, se nada de anormal acontecer, será apenas tentar adiar a conquista de Sebby. Para isso, se o tedesco vencer, ele tem de terminar em quarto, pelo menos. O problema para ele seu companheiro é que ambos largam do lado par do grid. Pelo que andam dizendo os pilotos, talvez seja melhor largar em 21° do que em 2°, tamanha a falta de aderência do lado par da pista. É capaz que essa turma do lado par seja ultrapassada até pelo safety-car e pelo furgão da SWAT.
A temperatura em Austin até que não estava tão baixa quando começou a classificação. Pouco antes do terceiro treino livre, era de 10 graus, com sol e céu azul. Depois do almoço, 21 graus, 32 na pista. Falo em Celsius, não Farenheit. Como a Pirelli escolheu na prateleira pneus de pau para levar aos EUA — com medo de a borracha ficar espalhada pelo asfalto, voar algum pedacinho e acertar o olho de um gorducho qualquer, o que resultaria numa ação na Suprema Corte que poderia condenar o presidente da fábrica italiana a 300 anos em Guantánamo —, a questão do aquecimento acabou sendo central no sábado texano. Os cobertores elétricos não resolveram. É possível que nem tenham funcionado, porque nos EUA é tudo 110 v e na Europa, 220 v.
Mas o gramado é ruim para todos, como dizia João Avelino, e então não há muitas desculpas para desempenhos pífios de equipes como a Sauber (Sergie em 15°, Kobby em 16°), a Caterham (que ficou no Q1 com dois carros atrás dos marússios) e alguns pilotos avulsos, como Rosbby (17°), Brunie (11°) e Jensy (12°, mas o carro da McLaren teve algum problema mecânico no Q2).
Faz-se necessário destacar que a HRT, que estava com medo de não conseguir fazer tempo nos 107% (o limite foi 1min43s317), passou com folga. Kartty, o último no grid, virou em 1min42s740, sem maiores problemas.
O autódromo estava cheio, uma visão alentadora para quem, como eu, acha que o automobilismo será extinto antes da instalação da próxima UPP no Rio. No primeiro ano de Indianápolis também foi desse jeito, uma multidão animada e colorida. Que continue assim. A pista é linda, acolhedora, técnica e rápida. Não será uma prova de ultrapassagens tão fartas, mas elas vão acontecer. Pena que a estratégia de pneus deverá ser a mesma para todo mundo, uma parada, o que reduz a atividade de box e a chance de surpresas. Nesse asfalto liso e com temperaturas baixas, pneus muito duros gastam pouco. Ano que vem, a Pirelli que leve supermacios e ultramacios, para chutar o balde.
A corrida, amanhã, começa às 17h. Não vai passar ao vivo em TV aberta, porque tem futebol no mesmo horário. Acabou indo para a Sportv, que pertence à Globo. Todo mundo sabia disso há semanas. TODO MUNDO. Ninguém é bobo, ninguém é otário, as pessoas pensam, sabem das coisas. Mas, mesmo assim, teve gente que perdeu o emprego só porque avisou os amigos pelo Twitter que a prova seria transmitida pela Sportv. O que, repito, TODO MUNDO, QUALQUER IDIOTA, já sabia.
Não há limites para a canalhice.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.