SÃO PAULO (cqd) – Surpresa mesmo, vou te dizer, só uma: a Red Bull não ter se classificado bem. Webber é o quinto e Vettel, o sexto. Não houve domínio, massacre, covardia. E é a boa notícia que essa classificação nos deixou. Não vai haver domínio, massacre, covardia. O resto foi mais ou menos esperado, inclusive aquilo que pode parecer surpreendente mas, por se tratar da primeira corrida do ano, não é tanto assim.
Isso posto, palmas para a McLaren que ela merece. Merece porque não fez aquele bico horrível e conseguiu cravar a primeira pole do ano com Hamilton (20 na carreira) e a primeira fila completa com Button em segundo. Trabalhou direito no inverno, a formiguinha, enquanto a cigarrinha cantarolava e passava o carnaval em Olinda.
E aí, depois dos cromados de Woking, apareceu o Visconde de Sabugosa, Grosjean, em terceiro. Eu falo que esse moleque é melhor do que aquelas corridas ruins de 2009. Soube dar um passo atrás, se encontrou na GP2 e agora volta, e bem. Não foi à toa que tanta gente investiu nele, e nele acreditou, nesse tempo todo. A Lotus já tinha mostrado que ia andar bem, durante a pré-temporada. Raikkonen foi o degolado no Q1, mas não se enganem: ele fez uma cagada na sua volta, errou e pagou por isso.
A primeira degola, aliás, degolou os de sempre. E aí aparece a primeira decepção do dia, a Caterham. Petrov e Kovalainen ficaram longe demais do Q2 e esperava-se que lutassem por ele. Os marússios incrivelmente se classificaram e a HRT, não. Tadinha. Mas não tenho muita pena, não. Detesto fundos de investimentos, ainda mais os que são donos de equipes de corrida. Eles que vão… investir. Dó zero. Tenho dó das pequenas quase sempre, mas no caso desse time aí, não. A última grande pequena que tivemos na F-1 foi a Super Aguri. A HRT (nome horroroso) ainda precisa conquistar nossos corações.
Q2 em marcha e a grande curtição: ver o que seria da Ferrari. No Q1, Massa e Alonso, vejam só, passaram na bacia das almas, e usando pneus macios. Se Kimi não erra, era capaz de Felipe ficar. Como é que pode? E de lá não passaram. Alonso dôzimo, Massa décimo-sêxtimo. Com direito a Fernandinho atolado na brita. Puta vexame. Segundo o Capelli, é a pior posição de largada de uma primeira Ferrari no grid em prova de abertura de campeonato. Que carro ruim, pelamor…
O Q2 acabou também com as chances de Bruno (mal), Vergne (bem), Koba-san e Pérez (mais ou menos) e Di Resta (mal). Na Toro Rosso e na Force India, creio que será assim o ano todo, os dois pilotos se revezando no Q3, às vezes indo os dois, às vezes nenhum. Mas esse Vergne não é bobo, não. E a Sauber pode mais. O primeiro-sobrinho falou que foi cauteloso. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, alguém dirá. Mas na F-1, fazem. Aparece num motorhome com um prato de canja pra ver se não vão te olhar com nojinho. Acelera, filho. Deixe a cautela para outras coisas.
O Q3 viu uma McLaren estável e sólida, resolvendo as coisas com uma volta só, no caso de Hamilton. A Red Bull terá alguma dificuldade com esse carro, aparentemente. Achei que Vettel andou discutindo demais com Abbey em todos os treinos. Não me pareceu um carro dócil, previsível. Vai ser interessante, depois de um ano hegemônico, ver como os rubrotraurinos conseguirão reagir.
Ricciardo, Maldonado (em 20 GPs, o menino foi ao Q3 quatro vezes, o que não é nada mau; Barrichello não conseguiu nenhuma vez e Senninha, hoje, também não) e Hülkenberg travaram boa disputa e assim será o ano todo nesse pelotão intermediário, que promete. Todos se classificaram entre os dez primeiros. E a Mercedes, que nem ford, nem sai de simca, começa bem o ano com Schumacher em quarto (seu melhor grid desde a volta; tinha um quinto na Turquia em 2010 e outro em Mônaco no ano passado) e Rosberguinho mais discreto, em sétimo.
Pode-se esperar uma boa corrida, sim. Raikkonen virá babando, os mercêdicos terão um bom ritmo de corrida, os rubrotaurinos tentarão de tudo para mostrar que foi só um acidente de percurso, os mclarianos chegarão ao grid pimpões e orgulhosos como favoritos e a Ferrari… A Ferrari vai ter uma grande batalha com seus novos amiguinhos toro-rôssicos, force-índicos e sauberianos.
Daqui a pouco eu volto, estou esperando um telefonema profundo.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.