SÃO PAULO (gostaram?) – E vamos à corrida, enfim. The big picture. Como se imaginava, Vettel passeou. Mas Webber, não. Foi apagado, ficou longe do piloto que, na metade do ano passado, deu a impressão de que poderia ser campeão. O título de Tiãozinho Alemão parece tê-lo abatido. Seu pior momento foi quando chegou em […]
Publicado em 27/03/2011 às 06:24
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SÃO PAULO (gostaram?) – E vamos à corrida, enfim. The big picture. Como se imaginava, Vettel passeou. Mas Webber, não. Foi apagado, ficou longe do piloto que, na metade do ano passado, deu a impressão de que poderia ser campeão. O título de Tiãozinho Alemão parece tê-lo abatido. Seu pior momento foi quando chegou em Alonso, com pneus macios e novinhos, e abdicou da luta.
A Red Bull informou que não usou KERS algum em Melbourne. A história do mini-KERS permanece um mistério, que o time não vai revelar a ninguém. Mas o fato é que mesmo sem a traquitana (dispensável, não?) Vettel não foi ameaçado em momento algum. Quando seus pneus começaram a dar algum sinal de fadiga, parou e trocou. Duas vezes. Talvez em pistas mais abrasivas e quentes, como na Malásia, sejam necessárias três.
Três que a Ferrari fez, assim como Webber, que não soube administrar a borracha como seu jovem companheiro. Já a McLaren foi para duas paradas. Ninguém precisou de quatro, como muita gente apostou que poderia acontecer, e Pérez fez a prova toda com apenas um pit stop. O lance dos pneus, de fato, provocou várias mudanças de posição. Mas elas aconteceram nos boxes. O festival de ultrapassagens prometido não aconteceu, porque piloto não é bobo. Na aproximação de alguém com pneus mais inteiros, vai para o pit stop antes de levar nabo na pista. Isso se viu bastante na Austrália.
A asa móvel só serve para narrador falar “olha lá a asa abrindo”. Algo que vai cansar, uma hora. Em circuitos com retas maiores, talvez tenha alguma serventia. Mas continuo achando uma babaquice artificial e injusta com quem está na frente. E nem funciona direito. Um bom vácuo é muito mais eficiente. Uma tolice, em resumo.
Não foi uma corrida inesquecível. Os dois primeiros, Vettel e Hamilton, foram também os dois primeiros no grid. Deu para perceber que os pneus, de fato, perdem rendimento bruscamente, mas o antídoto para que isso não estrague a corrida de ninguém é parar nos boxes. Os macios são ótimos em uma ou duas voltas, mas depois estabilizam. Não são uma arma duradoura para passar adversários de pneus mais duros. Basta se defender por uma ou duas voltas e pronto.
Se não havia um favoritismo absoluto da Red Bull por conta das novidades do regulamento, que sempre podem atrapalhar aqui e ali, agora há. E nem se pode dizer que esse favoritismo é da Red Bull inteira. É, sim, de Sebastian. O pequeno tedesco chegou à sua 11ª vitória na categoria (empatou com Barrichello e Massa nas estatísticas; passará os dois em pouquíssimo tempo) e me deu a impressão de que colocou Webber no bolso de vez. A vitória foi muito fácil, sem sustos, tranquila. Esse rapaz é melhor que quase todos seus pares. Com um carro bem superior aos demais, e agora sem a ânsia de querer ser campeão a qualquer custo — portanto, menos propenso a erros —, passa a ser quase imbatível.
Assim, no balanço das horas, não deu para ficar otimista demais com esse campeonato a partir desta corrida de abertura. A McLaren me parece ser a única esperança de bater de frente com os rubrotaurinos. Achei a Ferrari frágil. Alonso terminou a corrida esbaforido, mas em nenhum momento brigou por algo muito melhor que um terceiro lugar — que acabou nem conseguindo.
Não sei vocês o que acharam. Pensem no assunto. Enquanto isso, levantem-se e coloquem a mão no peito. Sim, chorem incontrolavelmente, infames capitalistas! Porque eu vou é comemorar a chegada da gloriosa URSS ao pódio com o camarada Petrov.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.