SÃO PAULO (nem lá, chuva?) – Domingo de sol, algumas nuvens, 23 graus. Previsão de chuva para o fim da tarde. Danou-se, pensei. Vai ser uma corrida chata. No seco, numa pista como a de Spa, com um carro como a Mercedes largando na primeira fila, não há espaço para grandes surpresas.
E só não foi integralmente aborrecida, esta prova, porque o segundo escalão teve bastante movimento, com ultrapassagens acontecendo a todo momento — embora nenhuma que possa ser colocada na categoria de “espetacular”. E porque Rosberguinho teve algum trabalho para chegar em segundo, depois de u’a má largada. Para o pole Hamilton, foi um passeio pela floresta. Voltou bem das férias, o inglês. Com a sexta vitória no ano, foi a 227 pontos, contra 199 do companheiro de equipe.
O início do GP da Bélgica foi razoavelmente tumultuado. Hülkenberg, com problemas anunciados pelo rádio, foi para o grid mesmo assim. Quando chegou, o carro apagou. Nova volta de apresentação, distância original da prova reduzida em uma volta. Houve punições a granel depois da classificação, e uma delas, não relatada ontem, foi a de Kimi Raikkonen — que caiu um pouco no grid por troca de câmbio. Para a segunda largada, Sainz, também reclamando de falta de potência, foi para os boxes. Quando a Toro Rosso descobriu o que tinha acontecido, já estava uma volta atrás.
Com 18 carros finalmente alinhados, começou a prova, sob aquela interrogação da largada: quem iria se atrapalhar com a proibição da ajuda dos boxes para regular embreagem?
Rosberg foi o pior, caindo de segundo para quinto. Ricardão saltou para terceiro. Bottas, terceiro no grid, perdeu uma posição. E Pérez apareceu em segundo. Mais para trás, Massa caiu para nono e Vettel subiu para sexto. Foi mais ou menos isso. No fundo, no fundo, Rosberguinho foi quem se estrepou mais.
Sapattos foi ultrapassado logo de cara por ele, no entanto, e por Tião Italiano na sequência. Maldonado foi o primeiro a quebrar na pista. Com neguinho abandonando já no início, Alonso apareceu em 13° nas primeiras voltas, embora tenha largado da Noruega, o que fez com perdesse algum tempo na imigração.
Discretíssimo, Massa se segurava em oitavo. Foi ultrapassado por Kvyat na sexta volta, como se estivesse parado. Isso aconteceria novamente no fim da corrida. A Williams não estava num bom dia, o que era estranho. Nesse tipo de circuito, deveria andar bem.
Na oitava volta, Ricardão parou e colocou pneus médios. Bottas foi ultrapassado por Grojã e caiu para sexto. Depois da primeira janela para valer de paradas, um pouco mais adiante, Hamilton voltou sossegado na frente, com Rosberguinho já em segundo. Pérez ficou para trás, em terceiro. Mas o mais legal foi a Williams, com Bottas. Colocou três pneus macios e um médio no seu carro. Dá para acreditar? A punição, não prevista em regulamento algum, foi um drive-through. Fora a vergonha.
Lá na frente, Grojã era o cara, escalando o pelotão com ultrapassagens bonitas em gente grande, como Ricciardo e Pérez. O mexicano foi para os boxes e, na mesma hora, na saída da antiga Bus Stop, o australiano da Red Bull pifou. Com o safety-car virtual acionado, uma pá de gente aproveitou para fazer mais um pit stop. Os líderes, não.
[bannergoogle] A prova seguiu na maior normalidade, com Hamilton e Rosberg, firme em segundo, fazendo suas segundas paradas e mantendo as posições. Vettel se segurava em terceiro, com apenas um pit stop. Mas Grosjean, com pneus mais novos, chegou nele, a duas voltas do final. Kvyat, um pouco mais atrás, também fazia bem seu papel, passando Massa e Pérez para assumir o quinto lugar.
Vettel aguentou até uma volta e meia para o final, com seus pneus esbugalhados. O traseiro direito estourou. Tião tinha parado na volta 14. Era uma aposta arriscada ficar com a mesma borracha até o fim. Não se pagou, e o pódio caiu no colo, merecidamente, do francês da Lotus. Acontece, às vezes.
Hamilton conseguiu a 39ª vitória na carreira — é mais um que logo, logo alcança Senna. Rosberguinho foi o segundo, com Grosjean em terceiro. Fecharam a zona de pontos Kvyat em quarto, uma excelente prova, Pérez em quinto, igualmente bem, Massa em sexto, mais ou menos, Raikkonen em sétimo, também mais ou menos, Verstappen em oitavo, corrida honesta, Bottas em nono, fraco e atrapalhado, e Ericsson em décimo, salvando o domingo da Sauber.
Previsível, a dobradinha da Mercedes. Menções honrosas a Kvyat, Pérez e, claro, Grojã. Nota de rodapé: Massa passou Bottas na classificação, foi a 82 pontos e empatou com Raikkonen na quarta colocação. Faz um campeonato honestíssimo, o brasileiro, embora longe de ser brilhante.
Acabaram as férias. Mas está tudo igual.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.