SÃO PAULO (façamos as nossas) – A BBC encerrou sua série de reportagens sobre os maiores pilotos de todos os tempos, que resultou numa lista de 20 repleta de estrelas e ídolos atemporais. Senna ficou em primeiro lugar, com Fangio em segundo, Clark em terceiro e Schumacher em quarto. Veja a lista completa:
1 – Ayrton Senna
2 – Juan Manuel Fangio
3 – Jim Clark
4 – Michael Schumacher
5 – Alain Prost
6 – Stirling Moss
7 – Jackie Stewart
8 – Sebastian Vettel
9 – Niki Lauda
10 – Fernando Alonso
11 – Alberto Ascari
12 – Gilles Villeneuve
13 – Nigel Mansell
14 – Mika Hakkinen
15 – Lewis Hamilton
16 – Nelson Piquet
17 – Emerson Fittipaldi
18 – Jack Brabham
19 – Graham Hill
20 – Jochen Rindt
A BBC rasga elogios a Senna e fala do “brilho romantizado” do brasileiro, potencializado pela maneira como morreu. Interessante notar que quatro pilotos ainda em atividade aparecem entre os 20, o que mostra como estes últimas anos da F-1 têm sido interessantes e ricos. Concordo com a presença de todos eles, até de Hamilton, o que tem menos títulos entre eles — os outros são Vettel, Alonso e Schumacher. Outro dado curioso: alguns da relação nem foram campeões, como Moss e Villeneuve.
Acho que se todos resolvermos fazer uma lista dos 20 melhores, provavelmente a maioria dos nomes escolhidos pela BBC se repetirá. Talvez faltem alguns, como Ronnie Peterson, Mario Andretti, Jenson Button, Kimi Raikkonen (estes dois, campeões mundiais ainda em atividade), Denis Hulme, James Hunt, Jacky Ickx, Clay Regazzoni, Carlos Reutemann, Jody Scheckter… Mas é quase questão de gosto. Muitos deles nem vi correr e deles sei por leituras, testemunhas e vídeos.
Minha ordem, no entanto, certamente seria diferente. Alonso e Piquet estariam muito mais para cima, Schumacher seria o primeiro e a briga pelo segundo lugar seria duríssima entre Senna, Prost e Fangio, pelos meus critérios.
De qualquer forma, o resultado mostra como Senna foi marcante em seus dez anos e pouco de F-1, tendo deixado a sensação de que poderia, mesmo, ter feito muito mais se não fosse o acidente de 1° de maio de 1994.
ATUALIZANDO…
Não que seja uma surpresa, mas vale a pena ler os comentários para ver como tem gente dando chilique à simples afirmação “Schumacher é melhor que Senna”. E a palavra é essa mesma: chilique. Não há argumentos para discutir com esse pessoal. Chega uma hora que, sem muitas condições de contrapor números e realizações, eles vêm com “caráter”, “esportividade” e coisas do tipo. Todos muito íntimos de Senna (e de Schumacher), pois parecem conhecer profundamente a alma de ambos. É incrível como alguns anos de canonização pela TV alteram a percepção das pessoas. Falam, por exemplo, do que “Senna fez com a Toleman”. Um segundo lugar. Nessa mesma equipe, renomeada como Benetton, Schumacher ganhou dois títulos. Falam dos “adversários muito melhores”. Senna teve dois, em forma e com carros competitivos: Prost e Mansell. Do francês, perdeu dois títulos (1989 e 1993), ganhou um com menos pontos (1988) e outro jogando o carro sobre o rival (1990). Do inglês, ganhou um (1991) e perdeu outro (1992). Tem também o famoso “só ganhava porque tinha o melhor carro”. Ou o “os carros da época do Senna eram mais difíceis de pilotar”. A McLaren era ruim, nos tempos do Ayrton… E é fácil guiar com 50 botões no volante. Mas tudo bem. Vale a discussão. Senna foi, realmente, um fenômeno. Não bastasse o que fez na pista, e foi muito, estabeleceu laços quase incestuosos com homens e mulheres brasileiros.
Eu me divirto.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.