SÃO PAULO (por una cabeza) – Sete milésimos, amigo. Sete milésimos. Foi isso que Hamilton conseguiu arrancar na sua volta rápida em cima do tempo de Rosberg para fazer sua sexta pole no ano e trinta-e-sétima na carreira. Trinta-e-sétima. Quando eu for presidente do mundo, talvez proponha isso no lugar de trigésima sétima.
Bem, sem digressões linguísticas. Vamos à pista.
Cingapura teve uma noite como são todas as noites por lá e outras coisas também, quente e úmida. Eu gosto dessa pista. Acho um milhão de vezes melhor que a de Abu Dhabi, talvez a pior do campeonato. No Q1, deu para ver logo de cara que usar pneus macios seria um risco. Os supermacios grudentos e melecados, como outras coisas também, estão sendo mais de 2s por volta mais rápidos que os outros.
Então, ninguém quis arriscar demais. E deu Ferrari em 1-2 (fazia tempo…), com o falante Raikkonen em primeiro e El Fodón em segundo. Tempo de Kimi: 1min46s685. A degola condenou ao ostracismo da noite de sábado, pela ordem, Fútil, Maldanado, Branquinho, Koba-Mito, Chaton e Sonyericsson. Tudo normal.
No Q2, nem pensar em usar pneus macios. Chicletão para todos. Com medo do tráfego, que em Cingapura é pesado, Hamilton, Alonso e Raikkonen fizeram seus tempos logo. Quando o cronômetro zerou, havia 11 pilotos na pista. Rosberguinho mostrou as garras e enfiou uma naba de 1min45s825 em Lewis, que ficou 0s462 atrás. Considerável. Caíram Bonitton, Verme, Hulk, Gutierros, Maria do Bairro e Grojã. Passaram ao Q3 as duplas favoritas de Mercedes, Red Bull, Ferrari e Williams, mais um Toro Rosso, de K-Vyado, e uma McLaren, de Magnólia Arrependida.
E aí ficou legal, bem legal.
O “primeiro tempo” do Q3, que é apertado e não permite enrolação nos boxes, teve uma surpresa: Massa em primeiro, com 1min46s007. Não era tempo para pole, OK. Afinal, Rosberguinho já tinha entrado na casa de 1min45s no Q2 e nada indicava que não pudesse repetir. A Williams, que tinha andado tão mal na sexta, conseguiu virar o jogo e voltou a ser competitiva. O fato é que nas suas primeiras tentativas, nenhum piloto conseguiu superar o brasileiro e a ordem ficou Massa, Ricciardo, Alonso, Raikkonen, Bottas, Hamilton, Rosberg, Vettel, Kvyat e Magnussen.
Não era o normal. Mercedes em sexto e sétimo? Claro que não. Então, faltando 4min para o encerramento da sessão, os dez foram para a pista de novo. Todos com aquela margem de erro próxima do zero. Drama, no entanto, foi o de Raikkonen. Seu motor passou a se comportar como o de um Fiat Cinquecento e a Ferrari pediu para ele encostar o carro.
Aí vieram as feras de fim de treino. Começando por Ricardão, que virou em 1min45s854 e desbancou Massa. Na sequência, veio Rosberguinho e subiu à pole. E com a quadriculada já agitada fazia algum tempo, apareceu o Comandante Amilton fritando pneus e subindo em zebras para virar 1min45s681, 0s007 mais rápido que o companheiro de equipe. Sete milésimos. Sete milésimos, amigo. Não é quase nada, mas pode ser tudo nessa corrida.
Uma prova de três paradas, com chances enormes de safety-car, com algum grau de imprevisibilidade porque é de rua. E corrida de rua é assim, tudo pode acontecer, até piloto bater de propósito, como vocês se lembram.
Foi a sétima primeira fila da Mercedes no ano. Depois de Hamilton e Rosberg fecharam os dez primeiros no grid Ricardão, Tião Alemão, El Fodón de La Quinta Posición, Massacrado, Kimi Dera que Eu Fosse o Pó da Estrada, Sapattos, Magnólia e K-Vyado.
O momento, no duelo interno da Mercedes, é de Hamilton, agora. Isso já mudou várias vezes ao longo do campeonato. Mas Lewis vem de uma vitória e fez outra pole. Parece um pouco mais seguro que Rosberguinho. Algo que pode virar de uma hora para outra. Acho que este Mundial será daquele que tiver um pouco mais de cabeça até o final. Claro que a vantagem, especialmente nos pontos, é do alemão. E ele é um sujeito mais frio e controlado que o inglês. Para mim, ainda é favorito.
Aliás, é minha aposta para amanhã.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.