SÃO PAULO (que seja feliz) – O Bottas é um bom companheiro, ninguém pode negar. Tanto que mereceu de Lewis Hamilton, hoje, palavras supercarinhosas via redes sociais, às quais respondeu com a conhecida objetividade dos mais tagarelas finlandeses: “Thank you Lewis”, sem perder tempo com vírgula, ponto de exclamação ou outra bobagem qualquer. Foi pela […]
Publicado em 06/09/2021 às 15:15
Atualizado em
5 min de leitura
Compartilhar
O anúncio: nada de bombástico
SÃO PAULO(que seja feliz) – O Bottas é um bom companheiro, ninguém pode negar. Tanto que mereceu de Lewis Hamilton, hoje, palavras supercarinhosas via redes sociais, às quais respondeu com a conhecida objetividade dos mais tagarelas finlandeses: “Thank you Lewis”, sem perder tempo com vírgula, ponto de exclamação ou outra bobagem qualquer.
Foi pela manhã que as partes envolvidas divulgaram o anúncio oficial de sua saída da Mercedes, para correr na Alfa Romeo no ano que vem e por mais alguns — o contrato contempla mais de uma temporada, embora ninguém tenha revelado quantas. Era esperado. Hamilton até tentou segurar o parceiro, fez campanha para ele, mas o talento represado de George Russell, em quem a Mercedes aposta para o futuro de longo prazo, não podia mais ser contido. Já são três anos amassando barro na Williams. Como pedir para o menino esperar mais um pouco?
Mensagem de Hamilton: “Thank you”
Lewis disse que nunca teve um companheiro tão bom na vida, atribuiu a ele muitos méritos pelas conquistas dos últimos cinco anos (Bottas chegou ao time em 2017), falou que vai sentir muito sua falta e arrematou: “Você é maior do que imagina, e sei que há um futuro brilhante à sua frente”.
É compreensível o apreço que Hamilton tem por Valtteri. Ele chegou depois de uma temporada psicologicamente estafante, em que disputou — e perdeu — o título para Nico Rosberg, um ex-amiguinho dos tempos de kart. Viraram inimigos. Essas coisas acabam com a gente. Bottas nunca incomodou o inglês e esteve disponível sempre que foi chamado a ajudar. É um cara de paz. Bom piloto, confiável, embora careça do brilho que forja os campeões. Depois da guerra de 2016, ao seu lado, Lewis viveu tempos de paz. E passou a ganhar tudo. Ficou claro que ele precisa de um ambiente tranquilo para render o que pode. E se você tem um piloto como Hamilton e ele te pede paz, o melhor que você tem a fazer é entregar-lhe paz.
Algo que talvez Lewis não tenha com Russell a partir de 2022, mas é melhor esperar um pouco antes de fazer previsões apocalípticas. Tenho a impressão de que Toto Wolff deve ter conversado longamente com o menino para dizer a ele exatamente como se comportar enquanto Hamilton estiver na ativa. Resumidamente: não encha o saco do cara, aproveite o tempo para aprender e quando for lhe pedir alguma coisa diga sempre “por favor”; use as camisetas que ele recomendar e elogie suas roupas; e jamais fale bem de alguma churrascaria na frente dele.
Bottas estreou na F-1 em 2013 pela Williams, depois de se destacar nas categorias menores em vários momentos. O principal título foi da GP3 em 2011, quando trabalhou com Frédéric Vasseur — atual CEO da Alfa Romeo que o contratou. Em 2014 fez um belo campeonato e terminou o ano em quarto lugar. Foi quinto na temporada seguinte e oitavo em 2016. Quando Rosberg anunciou a aposentadoria de supetão, poucos dias depois de ser ganhar o Mundial, a Mercedes não contava com nenhum jovem pronto para seu lugar — a escolinha de formação tinha Ocon e Wehrlein como nomes mais proeminentes; Russell seria adotado em 2017. A escalar um moleque inexperiente e cheio de vontade, que com carros vencedores nas mãos podem se transformar em bombas-relógio, o time preferiu buscar alguém que não causaria problemas e traria na bagagem um histórico de regularidade e eficiência. Bottas foi uma escolha lógica. Os alemães são muito lógicos.
Cinco anos de Mercedes: bons momentos na casa
Valtteri tem 169 GPs nas costas, 77 deles pela Williams, 92 na Mercedes. Desde 2014, só guia carros com os motores alemães (em 2013, a Williams usava Renault). Ganhou nove corridas, fez 17 poles e subiu ao pódio 63 vezes (54 com a Mercedes), o que faz dele o nono piloto com mais troféus na história. Quando assumiu o segundo carro do time prateado — que agora pinta seus carros de preto –, foi terceiro colocado no ano de estreia, quinto em 2018 e vice-campeão nas últimas duas temporadas. No atual campeonato, ocupa a terceira colocação.
No período em que dividiu o teto com Bottas, Hamilton venceu 46 GPs — cinco vezes mais que o parceiro. Olhando assim, pode parecer que o cara é um desastre. Não é verdade. Ter um piloto como Lewis como companheiro é difícil. Batê-lo, quase impossível. Pode custar sua carreira e sua saúde mental — Rosberg sempre fala disso. Valtteri nunca teve esse perfil. Digamos que nestes cinco anos ele foi bom o bastante. Fez aquilo que a Mercedes precisava. Ninguém nunca pediu muito mais a ele. Nem ele disse que poderia entregar mais do que entregou.
Na Alfa Romeo, a tendência de Bottas é de se tornar alguém ainda mais discreto. Se mesmo na Mercedes nunca esteve sob os holofotes, tendo ocupado por meia década uma posição clara de coadjuvante, não será numa equipe pequena que conseguirá brilhar intensamente. Mas pode ser que se divirta por alguns anos, e pode ser que o regulamento do ano que vem vire a F-1 de cabeça para baixo, e pode ser que aconteça algo extraordinário e ele suba ao pódio ou ganhe uma corrida como fizeram Gasly, Pérez e Ocon nos últimos anos. Pode ser tudo.
Importante é que ele se sinta bem no novo endereço. Acabou o ciclo na Mercedes? OK, vamos para o próximo. Com um sorriso no rosto.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.