SÃO PAULO (grande jogada) – O mistério durou coisa de quatro meses, depois do anúncio da saída da Red Bull: para onde iria Adrian Newey? O destino óbvio era a Ferrari. Houve conversas, como confirmou Frédéric Vasseur. Passou perto. No fim, prevaleceu a força do francês, que não queria alguém com plenos poderes técnicos em […]
Publicado em 10/09/2024 às 15:01
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Newey com Lance, Alonso, Lawrence Stroll: fim do mistério
SÃO PAULO(grande jogada) – O mistério durou coisa de quatro meses, depois do anúncio da saída da Red Bull: para onde iria Adrian Newey?
O destino óbvio era a Ferrari. Houve conversas, como confirmou Frédéric Vasseur. Passou perto. No fim, prevaleceu a força do francês, que não queria alguém com plenos poderes técnicos em Maranello. Williams e Aston Martin estavam na fila. A Williams, sempre disse aqui e nas nossas lives no YouTube, era só espuma. Não tinha condições de oferecer muita coisa ao projetista. Já a Aston Martin…
A Aston Martin levou Newey, em junho, para conhecer sua nova fábrica. Fica em Silverstone, onde nasceu a Jordan — que deu origem à equipe atual. O cicerone foi Lawrence Stroll, bilionário canadense que comprou a Force India em agosto de 2018 por US$ 117 milhões e assumiu uma dívida de pouco menos de US$ 20 milhões para não deixar o time ir à falência. Stroll rebatizou a equipe como Racing Point e em 2021 transformou-a em Aston Martin, já que é um dos maiores acionistas da montadora inglesa.
Então, começou a gastar. As instalações que encantaram Newey formam o AMR Technology Campus, que incluem fábrica, escritórios e um novo e moderníssimo túnel de vento que entra em operação no ano que vem. Além de lindos jardins e lago com carpas. A Aramco, petrolífera estatal da Arábia Saudita, passou a ser sócia de Stroll-pai (não nos esqueçamos nunca que ele comprou uma equipe para deixar seu filho Lance correr em paz) no time. A Honda será sua parceira técnica a partir de 2026. Hoje está na Red Bull, disfarçada. Faltava alguém como o engenheiro britânico, que tem o currículo mais vencedor da história da F-1. Não falta mais.
Newey será acionista da Aston Martin, além de receber um ordenado cujo valor tem sido especulado entre US$ 25 milhões e US$ 40 milhões por ano por quatro temporadas, inicialmente. Mas a nomeação do projetista como Managing Technical Partner, título oficial, mostra que sua relação com a Aston Martin irá além da condição patrão-funcionário. Assim, calcular quanto ele vai ganhar é tarefa cujo resultado nunca será dos mais precisos. Vai ter muito chute por aí.
“Assim que Adrian ficou disponível, eu sabia que tinha de fazer acontecer”, disse Stroll-pai hoje, lembrando de sua saída do time dos energéticos em maio. “Quando ele viu o que fizemos em Silverstone, entendeu rapidamente onde queremos chegar.” Segundo o dono da equipe, a visita à nova fábrica foi decisiva para Newey aceitar o que lhe fora proposto. Ele ficou impressionado com o que viu. E como escrevi aqui na semana passada, tudo que pediu Lawrence topou.
De acordo com Newey, que começa a trabalhar para valer em 1º de março de 2025, tudo conspirou para que o convite da Aston Martin acabasse sendo aceito. Tem o novo pacote de regras de 2026, que incluem chassis e motores, e ele gosta de começar projetos do zero. Tem também o trabalho de integração com a Honda e o desenvolvimento de novos combustíveis com a Aramco. O novo túnel de vento foi descrito como “empolgante”. Além de muita grana, liberdade para fazer o que quiser e montar sua equipe como bem entender, seguir morando na Inglaterra e trabalhar com alguém como Fernando Alonso — a quem passou boa parte da vida tentando derrotar. “Lawrence está determinado a construir uma equipe vencedora. Sua paixão e seu comprometimento são muito grandes. Ele é o único dono majoritário de uma equipe na F-1 que está ativamente engajado no esporte”, falou em entrevista coletiva hoje pela manhã. “Eu precisava de um novo desafio.”
Newey chegou à F-1 em 1980 pelas mãos, vejam só, dos irmãos Fittipaldi, na Copersucar. Depois foi para a Indy. Voltou à Europa em 1987 para trabalhar na March e em sua sucessora, a Leyton House. Em 1991 foi contratado pela Williams. Em seis temporadas, até 1996, seus carros ganharam quatro Mundiais de Construtores e ficaram duas vezes em segundo. De 1997 a 2005 vendeu sua genialidade à McLaren. Em nove anos, um título de Construtores e quatro vices. No fim de 2005 cerrou fileiras com a Red Bull, onde em quase duas décadas de serviços prestados ganhou seis títulos entre as equipes e entregou cinco vices. No total, contando títulos de Pilotos e Construtores, os carros de Newey na F-1 foram 25 vezes campeões.
É um sujeito que vale cada centavo. Com sua liderança técnica, estrutura prestes a entrar em funcionamento, dinheiro ilimitado e parcerias como as da Honda e da Aramco, é bem provável que a Aston Martin atinja o objetivo estabelecido por Lawrence quando resolveu entrar de cabeça no negócio da F-1. A saber: se tornar uma das grandes e ser campeã. Mas ele tem os pés no chão. Sabe que, em algum momento, vai precisar de alguém para conduzir o fruto de seu trabalho às taças e conquistas. Esse alguém não será o filhote Lance, um piloto de recursos limitados que talvez nem estivesse na F-1 se não fosse quem é. Nem Alonso, que possivelmente não terá tempo de desfrutar do que está sendo erguido agora em Silverstone — aos 43 anos de idade, tem consciência de que a aposentadoria tende a chegar antes dos resultados.
Por isso, preparem-se. Lawrence, como se viu hoje no anúncio da chegada de Newey, quer o melhor que o dinheiro pode comprar para seu time.
E o melhor que o dinheiro pode comprar atualmente se chama Max Verstappen.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.