F1 2026, AZERBAIJÃO, CORRIDA, MERCEDES, GEORGE RUSSELL
Russell retoma o gesto tradicional: terceira vitória na temporada

SÃO PAULO (com emoção) – Quem será que disse pela primeira vez “lavei a alma”? A etimologia nos ensina a origem das palavras. É das ciências mais lindas. Mergulhar na origem das palavras é uma viagem quase lisérgica. “Alma”, por exemplo, vem do latim “anima”. Asics, a marca de tênis, é um acrônimo de “Anima Sana In Corpore Sano”, que você já deve ter ouvido da boca de sua avó – mente sã em corpo são –, quiçá de algum antigo professor de Educação Física. “Quiçá”, por sua vez, chegou ao português vindo da vizinha Espanha como “quizá”, nascido da junção de “qui sapit”, que quer dizer “quem sabe” em latim.

(Eu tive professores de Educação Física militares, durante a ditadura. Era bem comum nas escolas. Eles viviam dizendo isso: mente sã em corpo são, enquanto nos obrigavam a fazer flexões de braço ou polichinelo. Era tudo que conseguiam ensinar, com sua sabedoria da caserna. Eu era criança e não entendia direito as palavras “sã” e “são”. Mas também não era burro. Por dedução, compreendia que fazer ginástica deixava o corpo em forma e a cabeça, idem. “Sã” e “são”, pois, deviam ter algo a ver com saúde. Não era preciso ser nenhum gênio para chegar à conclusão.)

Mas as expressões de cada língua, como “lavar a alma”, nem sempre têm origem conhecida. Algumas, sim. “Terminou em pizza”, por exemplo, é criação de jornalista Milton Peruzzi, que escrevia na “Gazeta Esportiva” e eu via na TV no “Mesa Redonda”, quando era moleque. Teve uma crise qualquer no Palmeiras nos anos 60, uma longa reunião que não acabava nunca, e foi toda a italianada para uma pizzaria perto do Parque Antarctica para pôr um fim às discussões. E as brigas não deram em nada. Tudo terminou em pizza. Em certos casos, a procedência de determinada expressão pode ser ao menos localizada no tempo e no espaço, como “segurar vela”. Ainda se diz isso? Bom, eu dizia. “Segurar vela” era o que fazia o irmão mais novo da namorada, escalado para ficar na sala vigiando o casal quando os pais iam dormir. Ou aquele sujeito inconveniente que encontra um casal num bar ou restaurante e se convida para sentar. “Segurar vela”, dizem, surgiu na Idade Média na França como “tenir la chandelle”. Era a função de serviçais para iluminar minimamente o ninho de amor dos patrões ricos que queriam dar uma trepada e tinham medo do escuro. A ordem era ficar de costas, mas sempre davam uma espiadinha. Óbvio.

Alguém aí tinha de segurar a vela, senão não acontecia nada

Do que trata mesmo este texto?

Ah, Fórmula 1. Lavar a alma. É que eu ia começar assim: “George Russell lavou a alma hoje ao vencer o GP do Azerbaijão, em Baku, garantindo uma sobrevida no Mundial de F-1. Foi sua terceira vitória no ano, oitava na carreira. O inglês da Mercedes fez a pole, a melhor volta e liderou a prova de ponta a ponta, fazendo seu primeiro Grand Chelem na categoria. Seu companheiro de equipe e líder do campeonato depois de 15 etapas, Kimi Antonelli, foi o quinto colocado depois de uma previsível recuperação partindo de 16º no grid – recuperação esta que contou com a contribuição, no fim da prova, das duplas de McLaren e Alpine, envolvidas em incidentes ou barbeiragens. Max Verstappen e Isack Hadjar, da Red Bull, foram ao pódio ao lado de Russell, que com o resultado reduziu de 81 para 66 pontos sua desvantagem na tabela de classificação. Faltam oito provas para o fim da temporada”.

Um parágrafo assim resumiria bem o que aconteceu neste sábado, um lead clássico de texto jornalístico, respondendo às seis perguntas básicas que qualquer lead deve responder: o quê? (15ª etapa da F-1, vencedor lava a alma e garante sobrevida no campeonato); quem? (George Russell, da Mercedes); quando? (hoje); onde? (Baku, no Azerbaijão); como? (de ponta a ponta, com pole e melhor volta); e por quê? (explicando o “lavou a alma”, premissa da abertura do texto, porque reduziu de 81 para 66 pontos a diferença na tabela a oito provas do final). E ainda ofereço os bônus dos outros dois que foram ao pódio, o ineditismo do Grand Chelem e os infortúnios dos pilotos de outras duas equipes, que serão detalhados adiante. Um lead perfeito.

Mas se tivesse feito só isso, vocês não saberiam que as brigas dos palestrinos nos anos 60 terminavam diante de uma meia aliche/meia muçarela, tampouco que casais franceses, no fundo, adoravam ser espiados transando na Idade Média. A segunda informação, inclusive, é de interesse mais amplo e, com alguma criatividade, capaz de alimentar animadas conversas em tempos tão sombrios – que hão de se iluminar daqui a algumas semanas com mais um chute certeiro desferido no saco do lumpesinato de extrema-direita que viceja na vida política do país.

Ao GP.

Largada civilizada: nenhum problema, Russell na frente

Baku/2026 teve a largada mais cuidadosa que se viu na F-1 desde 1950. Por favor, passe, senhor. O senhor primeiro, camarada. Agradecido, companheiro. Ninguém encostou em ninguém. O grid tinha 12 pilotos com pneus médios – entre eles o pole Russell – e dez de macios – como a dupla da Ferrari. Com tanta tranquilidade nos movimentos iniciais, George, na segunda volta, já tinha mais de 1s sobre Oscar Piastri, o segundo, que havia ultrapassado Charles Leclerc nos primeiros metros. Antonelli, de 16º no grid, pulou para… 17º. Sem pressa e com muita cautela.

Verstappen, de médios, foi o nome das primeiras voltas: saltou de oitavo no grid para quinto em três voltas, aparecendo rapidamente no retrovisor de seu jovem companheiro Hadjar. Os dois carros da Red Bull rendiam bem. O francês, na quarta volta, passou Leclerc depois de duas tentativas. Max fez o mesmo no fim da volta, mas só precisou de uma. Antonelli, a quem convinha monitorar, só foi fazer sua primeira ultrapassagem naquele momento, sobre Nico Hülkenberg. Na passagem seguinte, deixou Carlos Sainz para trás e subiu para 15º. Na sexta, passou Arvid Lindblad. Sem pressa e com cautela. Depois da corrida, admitiu que esteve em “modo de segurança, e não de ataque”. “Foi meu pior fim de semana do ano em termos de performance. Estava a 85% de minha capacidade. Na próxima voltarei ao meu nível”, falou.

(Para não ficar descrevendo cada ultrapassagem de Antonelli mais atrás, deixemos o italiano de lado até ele chegar à zona de pontos. Para tal, teria pela frente carros menos estrelados como os de Esteban Ocon, Alexander Albon, Liam Lawson e Oliver Bearman. Quando chegasse à décima colocação, a diferença dele para o líder Russell daria uma boa ideia de qual objetivo poderia almejar a partir dali.)

Russell se mantinha sereno e altivo na liderança, ampliando sua vantagem sobre Piastri à razão de quase meio segundo por volta. Oscar, por sua vez, passou a ser avisado pelo rádio: a Red Bull seria um problema. “Sim”, respondeu o piloto ao engenheiro, com sua habitual verborragia. A inquietação do time papaia fazia sentido. Verstappen estava firme em seu intento de buscar um troféu bonito para a coleção. Passou Hadjar sem dificuldade e foi para cima da McLaren.

Antonelli atrás de Sainz: recuperação sem grandes sustos

Na décima volta, Russell já tinha 5s de vantagem para Piastri, que àquela altura precisava verdadeiramente se preocupar com Verstappen. Havia uma diferença de pneus ali: médios para o holandês, macios para o australiano. Russell, Piastri, Verstappen, Hadjar, Leclerc, Lando Norris, Lewis Hamilton, Pierre Gasly, Franco Colapinto e Bearman eram os dez primeiros.

Curiosamente, o ímpeto de Verstappen arrefeceu depois de algumas voltas atrás de Piastri. O tetracampeão passou a escoltar o carro papaia a uma certa distância, com Hadjar um pouco mais atrás sem ameaçá-lo, apenas perguntando pelo rádio o que deveria fazer — manda quem pode, obedece quem tem juízo. Foi na 17ª volta que algo aconteceu, mas mais atrás: Hamilton passou Norris e foi para sexto. Foi quando Antonelli entrou nos pontos, na volta 17: superou Bearman e assumiu o décimo lugar. Sua diferença para Russell, o líder: 29s6.

Kimi precisou exatamente de um terço da corrida para chegar entre os dez primeiros. Bem diferente do que fizera em Monza, da última fila para o meio do pelotão em, sei lá, meia volta. Sua tarefa dali em diante seria um pouco mais complicada, pois encontraria carros um pouco melhores à frente. Cautela e paciência. Era tudo que o jovenzinho precisava ter na cabeça, para somar os pontos possíveis num fim de semana que começara mal. Pódio era um sonho mais distante.

Piastri: bom começo, péssimo fim

Na volta 20, Piastri já tinha escapado de Verstappen. Hadjar chegou no companheiro. Pouco antes, tinha dito pelo rádio para ninguém se preocupar, não iria atacar o parceiro. Mas talvez fosse o caso. Os pneus do holandês começaram a piorar. Isack, de macios, ponderou que talvez fosse o caso de passar. Falou baixinho, quase inaudível, nem responderam. Então, ficou quieto onde estava.

Na volta 21, o primeiro pit stop do dia: Sainz foi para os boxes e colocou pneus macios. Três voltas depois Antonelli passou Colapinto e assumiu o nono lugar. A diferença para o líder subira para 32s. Russell operava em velocidade de cruzeiro, dominando a corrida sem nenhuma dificuldade. Corrida que, diga-se, era bem chatinha. Nada acontecia. Nenhum muro lambido. Nenhum galho de árvore caído na pista. Nenhuma rajada de vento para pegar alguém de surpresa. Os dois abandonos àquela altura, da dupla da Aston Martin, haviam sido silenciosos e discretos.

As emoções, se houvesse, ficariam para as estratégias de pit stops – eventuais trocas de posição nos boxes, especialmente envolvendo o trenzinho Piastri-Verstappen-Hadjar. Eles andavam juntos, mas sem ataques que pudessem colocar qualquer um em risco. A vida passando lá fora e nenhum remédio para livrar-nos daquele tédio.

Na volta 31, porém, um sopro do destino mudou o cenário da corrida. Logo depois de Norris errar uma freada e perder duas posições, caindo de sétimo para nono, Albon bateu sozinho. E o safety-car foi acionado para a retirada de seu Williams da pista. Todo mundo foi para os boxes, claro.

Albon bate: primeiro safety-car do dia

O maior prejuízo caiu na conta de quem tinha construído alguma vantagem para o amiguinho de trás. Falamos de Russell, que tinha mais de 11s sobre Piastri e 35s sobre Antonelli, então em oitavo, quando as bandeiras amarelas foram acionadas. Atrás do carro de segurança, o pelotão se reuniu para a relargada em fila indiana. Russell, Piastri, Verstappen, Hadjar, Leclerc, Hamilton, Gasly, Antonelli, Norris e Colapinto eram os dez primeiros. A ordem era exatamente igual à de antes do safety-car, mas agora sem diferenças significativas entre os destemidos competidores.

O que mudou para a relargada foi a condição pneumática de cada um. Entre os primeiros, Russell e Verstappen colocaram pneus macios, o que lhes concederia benefícios dali até o final. Piastri, de médios, teria problemas sérios. O mesmo valia para os ferraristas. Hadjar, outro que largou de macio, teria de torcer por algum azar de quem estava na frente para chegar ao pódio.

A relargada aconteceu na volta 36. Assim que a bandeira verde foi mostrada, Verstappen passou Piastri como um foguete. E, mais para trás, uma batida na curva 1 levou a direção de prova a chamar o safety-car de novo. O acidente envolveu Colapinto, Gasly e Norris. O argentino leva crédito integral pela confusão. Tentou um mergulho por dentro, não conseguiu frear e acabou levando de arrasto os outros dois, que abandonaram imediatamente. Franco conseguiu voltar aos boxes, mas também teve de deixar a corrida. Pediu desculpas, assumiu o erro, martirizou-se, mas mesmo assim foi criticado por todo mundo. Norris defendeu seu banimento da categoria, quiçá (olha o quiçá de novo) do planeta. Gasly, inconformado, amaldiçoou de Borges a Cortázar, de Maradona a Messi, de Perón a Evita. “Não acredito! Quantos pontos no lixo! Que desgraça!”, gritou. As palavras foram outras, mas o sentido foi esse. Flavio Briatore, o chefe da Alpine, falou em “tomar medidas enérgicas” – não vai fazer nada. A FIA considerou o portenho culpado pelo acidente e ele perderá cinco posições no grid da próxima etapa, na Malásia.

Trapalhada de Colapinto: Norris e Gasly levados de arrasto

Na volta 39, nova relargada. A ordem: Russell, Verstappen, Piastri, Hadjar, Leclerc, Hamilton, Antonelli, Ocon, Bearman e Lindblad.

George partiu bem novamente, pela terceira vez. “Veja bem”, começou, entrando no rádio. “Considerando que é minha terceira boa largada, julgo pertinente reivindicar uma música no ‘Fantástico’. Não será um sertanejo sobre traições, picapes e bebedeiras, muito menos um louvor desses entoados em templos pentecostais por vozes esganiçadas. Sou inglês. Amo o rock, nós britânicos somos o rock”, seguiu, com ênfase no verbo em primeira pessoa do plural. “Posso pedir alguma coisa do Oasis ao Tadeu Schmidt, Toto? Gostaria muito de ‘Don’t Look Back In Anger’, é uma canção que diz tudo sobre meu momento”, perguntou, e incontinenti começou a cantarolar: “Slip inside the eye of your mind, don’t you know you might find a better place to play? You said that you’d never been, but all the things that you’ve seen will slowly fade away, so I start a revolution from my bed, adoro este trecho, a revolution from my bed…”, quando foi abruptamente interrompido por seu engenheiro. “George, o ‘Fantástico’ é domingo e hoje é sábado. Tadeu Schmidt apresenta o ‘Big Brother’. Toto não está aqui hoje, foi ver o filho correr de kart na Itália. E é melhor você se concentrar porque quem está atrás de você é o Max.”

F1 2026, AZERBAIJÃO, CORRIDA, MERCEDES, GEORGE RUSSELL
Russell com Verstappen no cangote: final emocionante

Russell, apesar da aflição de seu engenheiro, fazia uma das melhores corridas de sua carreira, porém. Não deu chances a Verstappen de um ataque surpresa, como o holandês fizera sobre Piastri pouco antes. Oscar, por seu turno, não passava por um bom momento – na prova e, talvez, na vida. Na volta 40, errou feio a freada na curva 1 e foi para a área de escape. Caiu para 15º, dando adeus a qualquer possibilidade de levar um troféu para casa. Verstappen, então, insinuou um ataque a Russell. Mas o inglês não estava nem um pouco disposto a entregar o filé mignon do pódio depois de roer ossos nos treinos, na classificação e em mais de dois terços da prova.

Prova que ficou boa, é preciso reconhecer — agradecimentos a Albon e sua batida de dez voltas antes. Russell era ameaçado por Verstappen. Antonelli atacava Hamilton. Leclerc assediava Hadjar. A Audi, com Hülkenberg, aparecia em décimo com Sainz colado nele. A dupla da Haas, entrada nos pontos, deixava os dirigentes do time de cabelos em pé – eles não se bicam e Ocon, especialmente, está cheio de ódio no coração porque já foi avisado de que vai precisar procurar emprego no ano que vem; será substituído pelo brasileiro Rafael Câmara, que venceu na F-2 e assumiu a liderança do campeonato. Amanhã falo mais sobre isso.

Kimi passou Lewis na volta 42 e foi para quinto. Estava de bom tamanho. Graças aos infortúnios das duplas de Alpine e McLaren, somaria pontos importantes. George se mantinha na frente, mas se piscasse na hora errada, ou tivesse de coçar o nariz, perderia a corrida para Verstappen, intimidador em seu retrovisor. E perder o GP, naquela altura, seria uma tragédia para o britânico. Hadjar vinha mais distante em terceiro, seguido por Leclerc, Antonelli, Hamilton, Ocon, Bearman, Lindblad e Hulk.

Hadjar e Verstappen: Red Bull não fazia pódio duplo desde a China/2024

Enquanto George rezava para Nossa Senhora Aparecida para que a prova terminasse logo, mais atrás a zona de pontos era mexida com Lindblad passando Bearman e Sainz tirando Hülkenberg do décimo lugar. Max deixaria para a última volta a derradeira tentativa de ganhar o GP azeri.

Então, Valtteri Bottas bateu. Se fosse no meio da corrida, mandariam o safety-car para a pista de novo. Mas era a última volta. A direção de prova deixou o jogo seguir. Russell, ainda assim, deu uma tirada de pé na bandeira amarela onde estava o Cadillac do finlandês e Max colou nele. Faltavam poucos metros para a quadriculada. E George se salvou. Por muito pouco: recebeu a bandeirada apenas 0s196 à frente de Verstappen. Ganhou uma corrida, finalmente, depois de quase três meses – a última tinha sido na Áustria. Hadjar fechou o pódio. Leclerc, Antonelli, Hamilton, Lindblad (na linha de chegada), Ocon, Bearman e Sainz completaram a zona de pontos. O brasileiro Gabriel Bortoleto terminou em 13º, mas foi punido por passar Sergio Pérez sob bandeira amarela e caiu para 15º.

Os dez primeiros em Baku: Haas com dois nos pontos

A vida de Russell tem sido difícil, neste ano. Começou a temporada com vitória, mas depois viu seu companheiro ganhar cinco seguidas. Passou a apanhar do menino imberbe sem dó – Antonelli já tem oito triunfos no ano. Se viu no mato sem cachorro, sem conseguir se entender com o carro. Mas, em Baku, fez barba, cabelo e bigode.

Vai ser campeão? Não. São 66 pontos, como já dito: 302 x 236. Se Kimi não cometer erros bobos, administra a diferença sem maiores problemas.

Mas essa vitória fez George renascer. É o que acontece quando se lava a alma: um renascimento. Ele já estava começando a duvidar de si mesmo. “Superei”, resumiu.

E, agora, o que vier é lucro.