SÃO PAULO (o que é fermento seco?) – Falemos do resto. Não era Gola Profonda ao aparelho, portanto a Ferrari fica para depois. Começando com o começo, a primeira degola. Massa foi o mais rápido, dando muita esperança ao locutor oficial, já orgásmico com o 1-2 do time italiano no terceiro treino livre. A chance de uma primeira fila brasileira elevou o tom patriótico da transmissão (ah, do que me livrei nos 18 anos em que viajei atrás das corridas…). O sonho de todos nós! O verde-amarelo brilhando no céu da Catalunha! Argh.
Bem, no Q1 o que importa é o drama de quem fica. Sutil e Fisichella nas duas últimas posições, por exemplo. Indicativo de que a Caminho das Índias, com motor Mercedes e tudo, está mesmo condenada a ser a Minardi da vez. Bourdais, para alegria de Raikkonen, ficou em 17º. Kovalainen, dos pilotos mais apagados dos últimos tempos, empacou em 18º. E Kimi, em 16º, também ficou. Aparentemente, a Ferrari esqueceu de mandá-lo à pista, mas daqui a pouco Gola telefona e saberemos exatamente o que aconteceu.
No Q2, o melhor tempo do fim de semana registrado por Rubens “Deixa Minha Estrela em Paz” Barrichello, único a baixar de 1min20s: 1min19s954, belíssimo tempo. O locutor oficial insistia: ele me disse (a ele, não a mim) que quer a pole! Espantoso, pensei. Como é que alguém pode querer a pole?
Rolaram, na segunda parte da classificação, Nakajima-san, Piquet-pimpolho, Nick “Emofeld”, Luís Hamilton e Tião Boemia. Aqui, algumas observações. Hamilton, ontem, disse que nada do que a McLaren espetou no carro em Barcelona funcionou. Para não dizer que ficou uma merda, ele foi polido e falou que seria difícil passar ao Q3. Não passou. Sua equipe andou para trás. E Piquet-pimpolho, em 12º, conseguiu sua melhor posição de grid no ano e a pole entre as melhores declarações da temporada. À ariana repórter oficial, falou que não passou ao Q3 por “um pentelho de nada”.
Estabeleceu-se imediatamente, assim, o valor nominal de “um pentelho de nada”, que a partir desta data, por deliberação expressa e irrevogável de todos os órgãos mundiais que normatizam medidas de comprimento, tempo, peso, massa e volume, passa a valer 95 milésimos de segundo — o que faltou a Nelsinho para levar seu carro à parte final da classificação. O locutor oficial não gostou da expressão “pentelho de nada”, talvez preferisse “delgado e esguio pelo do saco” e prometeu “conversar” com o piloto depois do treino. Fosse eu o piloto e viesse o locutor oficial me dizer o que eu posso falar, mandá-lo-ia dar o rabo. Mas isso fica a critério de cada um. Sempre é bom pensar antes de mandar alguém dar o rabo, nem que se pense apenas por um pentelho de nada (vamos nos acostumando; quando alguém disser “pentelho de nada”, tenha sempre em mente que são 95 milésimos de segundo, “pentelho de nada” é uma medida de tempo), para não ser mal-interpretado.
Ops, telefone. Já volto.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.