
SÃO PAULO (tudo cansa, uma hora) – Só li no “Daily Express”, então não sei se o cara falou isso mesmo. Mas o jornal inglês afirma que Schumacher disse, na Turquia, que está perdendo a alegria de correr.
Se estiver, que pare. Sua volta, eu disse isso desde o início, só se justificava pelo prazer de pilotar. Voltar a ganhar seria difícil, não só pela idade, mas também pela força emergente da Red Bull, pela juventude dos adversários, pelas dificuldades de uma categoria que na maioria das vezes exige três ou quatro anos de maturação de um conjunto piloto-carro-equipe para se tornar vencedor. Schumacher já passou por isso, na Benetton e na Ferrari, principalmente. Não sei se teria tempo ou saco para refazer o caminho. Talvez apostasse numa repetição do “fator Brawn”. Mas o que aconteceu em 2009 é mais raro que nota de dois dólares.
Na comparação com seu jovem companheiro Rosberguinho, Schumacher vem levando uma sova respeitável. Em 23 grids, Nico largou na frente em 19. Em corrida, o placar aponta 17 x 6 para o pequeno Rosberg, considerando que no abandono duplo da Austrália neste ano ele estava em 8º e Schumacher, em 20º.
Nada disso apaga o que Michael já fez na F-1. Mas se sua intenção ia além de se divertir, ele mesmo deve estar muito decepcionado. Quando a Mercedes anunciou sua contratação, muita gente acreditou que o heptacampeão poderia voltar a vencer corridas. Eu estava entre eles. Mas sempre acreditei que a prioridade deveria ser, mesmo, o lado pessoal. Vitórias seriam lucro.
O que estaria tirando a alegria de Schumacher nesta nova F-1? Andar atrás de Rosberg? Ser ultrapassado sem dó, nem piedade, por um monte de garotos imberbes? A zona que viraram as corridas?
É difícil decifrar a mente das pessoas. O que deve doer para um piloto como Schumacher é ler as bobagens que sobre ele são ditas e escritas. “Só ganhou com o melhor carro”, “nunca foi tudo isso”, “era um trapaceiro”. Nem sei se ele lê ou escuta, depois de uma certa idade a gente caga e anda para o que dizem de nós, mas é claro que devem chegar aos seus ouvidos, de alguma maneira, tais comentários desprovidos de qualquer fundamento, que têm como base unicamente a inveja e o ressentimento.
Seria legal se Schumacher conseguisse, nesse epílogo de sua carreira, um trofeuzinho, que fosse. Ganhar alguma corrida não será muito fácil. Aliás, não está sendo fácil para ninguém. Desde que o alemão voltou, no começo do ano passado, foram 23 GPs disputados, com 12 vitórias da Red Bull, seis da McLaren e cinco da Ferrari (todas de Alonso). Não é só Schumacher que não tem ganhado corridas, como se vê. Apenas cinco pilotos venceram nesse período. Os outros 19, em 2010 e 2011, não estão fazendo muito mais do que ele, em termos de resultado.
A esta altura de sua vida, qualquer pódio seria um prêmio para Schumacher, pelo conjunto da obra. E ele daria um enorme valor a uma taça, qualquer uma, que pudesse levar para casa depois dos 40.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.