SÃO PAULO (again) – Sou muito bom de previsões. Ontem disse que Rosberg iria dominar o fim de semana, que Hamilton estava meio macambúzio, que até Ricciardo poderia ameaçar o inglês…
Bem, Hamilton fez uma polaça agora há pouco em Austin. Polaça = grande pole. Tem golaço, voltaça, chutaço, por que não polaça?
Foi a 58ª de sua carreira e nona no ano. Num momento em que, para ele, não há muitas alternativas. Tem de ganhar, ganhar, ganhar, ganhar e torcer para Nico não fazer três segundos e um terceiro — resultados que dão o título ao alemão.
Mas vai que ganha amanhã e Rosberg quebra… A diferença cai de 33 para 8 pontos e temos um novo campeonato.
Não é provável, porém. Nico-Nico sabe exatamente o que precisa fazer para ser campeão e o importante para ele é não entrar em divididas desnecessárias e marcar Comandante Amilton de perto. O que ele fizer, que faça também. Sem dar sopa para o azar.
Hamilton fez duas excelentes voltas no Q3 e não esteve atrás em momento algum. Na primeira saída, 1min35s370 contra 1min35s442 de Rosberg, uma vantagem mínima de 0s072. Na segunda, encaixou uma volta “terrific” em 1min34s999, contra 1min35s215 do líder do Mundial, diferença considerável de 0s216. Inapelável.
O treino que definiu o grid do GP dos EUA não apresentou grandes surpresas. Uma coisinha ou outra, vá lá. No Q1, por exemplo, foram expelidos Grojã, Magnólia, Bonitton, Wê Lá, Hein?, Felipe II e L’Ocon (eu já tinha inventado apelido para esse cabra?). Pode-se dizer que Button decepcionou, já que Alonso passou tranquilo. O mesmo vale para Grosejan, 100 GPs amanhã, uma vez que o fraquinho Gutierros foi ao Q2. Nasr também não merece muita consideração. Com a bomba de carro da Sauber, Sonyericsson passou para a segunda parte da classificação. Muito ruim para o brasileiro.
O Q2 teve apenas uma eliminação surpreendente, a de Pérez — a Force India tem carro para ir ao Q3 sempre. O resto, normal. O mexicano ficou em 11º e foi varrido ao lado de El Fodón de La Eliminación, K-Vyado, Gutierros, Palmolive e Sonyericsson. Passaram ao Q3 as duplas de sempre — Mercedes, Red Bull, Ferrari e Williams –, mais Sainz Idade e Hulk.
[bannergoogle]Os dois pilotos da Mercedes e Verstappen fizeram seus melhores tempos no Q2 com pneus macios, em vez dos supermacios escolhidos por todos os outros. Significa que os três largam amanhã com borracha mais duradoura. Os demais terão de fazer a primeira parada muito cedo — o que coloca o jovem Max numa posição vantajosa em relação a Ricciardo, terceiro no grid a 0s510 do pole Hamilton.
Os dois rubro-taurinos dividem a segunda fila. A terceira tem os dois da Ferrari, Raikkonen à frente de Vettel. Hülkenberg, Bottas, Massa e Sainz Jr. fecharam as dez primeiras posições.
Não há previsão de chuva e a festa deve ser bonita em Austin, um lindo circuito, cheio de curvas interessantes e relevo imponente. O público americano foi em bom número ao autódromo e deve encher as arquibancadas amanhã.
Não se esqueçam que, para ver a prova pela TV, só no cabo. Hamilton tem um retrospecto invejável na pista texana. Três das quatro edições da prova no Circuito das Américas tiveram o inglês como vencedor — em 2012, 2014 e 2015; em 2013, Vettel venceu. No ano passado, Lewis tacou o boné de segundo colocado no rosto de Rosberg. Um gesto deselegante, que Nico não deve ter engolido até hoje.
Por isso, vou torcer para que o alemão vença amanhã, com Hamilton em segundo. Se isso acontecer, o mínimo que espero é que Rosberg faça o mesmo na salinha pré-pódio. Seria bem divertido.
Mas não vai acontecer. Digo, pode até acontecer uma vitória rosberguiana, mas duvido que ele faça algo parecido.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.