
SÃO PAULO (sequinho) – Kimi Antonelli venceu sua terceira corrida seguida e disparou na liderança do Mundial. Ele agora tem 100 pontos, 20 de vantagem sobre seu companheiro de Mercedes, George Russell. O italiano de 19 anos ganhou o GP de Miami, quarta etapa do campeonato, disputado de cabo a rabo com pista seca – a FIA antecipou a largada em três horas com medo de uma tempestade prevista para a região no final da tarde. O time alemão continua estatisticamente invicto em 2026 – só não ganhou uma Sprint, a de ontem, que não conta para os anais. São quatro poles e quatro vitórias em quatro GPs.
A dupla da McLaren, Lando Norris e Oscar Piastri, completou o pódio. Russell foi o quarto. A prova foi divertida e agitada. Num circuito menos sujeito às intempéries do regulamento, com mais freadas fortes e trechos lentos para carregar baterias, não houve nenhuma intercorrência motivada por queda brusca de velocidade em retas. A pista fez com que o espetáculo fosse melhor. É verdade que houve um ou outro iô-iô. Mas nada tão comprometedor como em Melbourne, Xangai e Suzuka. Miami agradou. Já vimos coisas muito piores e ficamos contentes.
Antonelli se tornou o terceiro piloto a vencer seus três primeiros GPs de forma consecutiva. Antes dele Damon Hill (Hungria, Bélgica e Itália em 1993 pela Williams) e Mika Hakkinen (Europa em 1997, Austrália e Brasil em 1998 pela McLaren) lograram a façanha. Mas pela primeira vez na história um piloto converte suas três primeiras poles em vitórias. O jovem Kimi está escrevendo capítulos importantes na F-1. E não só pela idade.
Ao final da prova, alguns pilotos foram informados que estavam sob investigação por possíveis irregularidades na corrida. Entre eles Russell, o quarto colocado, Max Verstappen, o quinto, e Charles Leclerc, o sexto. “Em havendo” alguma mudança – como tem gente falando assim, que coisa horrorosa –, alteramos o texto aqui.
E HOUVE – Por volta das 18h30 começaram a sair as punições. Leclerc teve 20s acrescidos ao seu tempo total de prova por fazer várias curvas por fora dos limites da pista depois da rodada na última volta. Assim, caiu de sexto para oitavo — a posição final já está atualizada no restante deste relato. Verstappen tomou 5s por cruzar a linha da saída de box depois de sua parada, mas o pênalti não mudou sua posição e ele manteve o quinto lugar. Russell saiu sem penalidades.
E vamos saber como foi a tarde em Miami, que até o fim da prova ostentava um céu cinzento e nublado, com termômetros marcando 26°C.

A largada foi confusa e deliciosa. A Mercedes, de novo, largou mal e Antonelli foi ultrapassado por uma turminha do barulho. Mas, de alguma forma, se recuperou e conseguiu se posicionar em segundo, atrás de Leclerc. Este, como de hábito, partiu como se tivesse um caramuru no rabo. Quem se atrapalhou miseravelmente foi Verstappen, que era o segundo no grid. Perdeu posições, entrou forte na curva 2, rodou. Deu um giro de 360 graus e ninguém o acertou, quase um milagre. Caiu para nono e pediu desculpas à equipe. No meio da volta, uma briga desigual chamou a atenção: Franco Colapinto x Lewis Hamilton. E Franco deu um chega-pra-lá em Lewis, vingando os soldados de seu país em 1982. As Malvinas são argentinas, como se sabe. Mas perdeu a posição.
Na quarta volta, Antonelli mergulhou sobre Leclerc na curva 17 e reassumiu a ponta. Com muita facilidade, diga-se. E com a mesma facilidade, na volta seguinte, Charlinho passou Kimi. Ousadia? Garra? Arrojo? Não, bateria, mesmo. Depois, também graças às baterias, Norris passou Antonelli como se cortasse um tablete de Aviação com faca quente – adoro essa comparação. Então houve a entrada do safety-car, na volta 6. Dois carros parados no meio da pista: Isack Hadjar, esmurrando o volante de raiva, e Pierre Gasly com seu Alpine trepado numa barreira de proteção. Nessa hora Verstappen parou e trocou seus pneus médios por duros caindo para o fim do pelotão. Tentou consertar a bobagem da primeira volta com uma estratégia que dependeria da chuva para dar certo.


Os infortúnios de Hadjar e Gasly não tiveram relação entre eles. O francês da Red Bull bateu sozinho ao saltar na zebra debaixo do viaduto, depois de tocar a roda esquerda no muro. O da Alpine se enroscou em Liam Lawson, num toque roda com roda que pareceu involuntário — a Maquininha Amarelinha explicaria depois que Lawson teve um problema no câmbio naquela curva. O carro de Gasly girou no ar, numa pirueta espetacular. O neozelandês abandonou, também, logo em seguida. Assim como Nico Hülkenberg, da Audi, que parou por forças ocultas na quarta volta.
Leclerc, Norris, Antonelli, Russell, Piastri, Hamilton, Colapinto, Alexander Albon, Carlos Sainz e Oliver Bearman eram os dez primeiros com o safety-car na pista. O único que tinha trocado pneus era Verstappen, em 16º. Gabriel Bortoleto aparecia num decente 14º lugar, longe de confusões e aproveitando-se dos quatro abandonos precoces do começo da prova. Mas, na prática, era o último colocado – atrás dele só havia lesmas, as duplas de Aston Martin e Cadillac. Em resumo, a posição era boa; o desempenho, não.
O safety-car saiu da frente do pelotão no final da 11ª volta. Uma volta depois da relargada, Norris foi para cima de Leclerc e assumiu a liderança. Antonelli fez o mesmo e almoçou o monegasco, que uma reta depois retomou o segundo lugar. Habilidade? Talento? Disposição? Não, bateria, mesmo.



Verstappen entrou na zona de pontos na volta 16, depois de atropelar quem viu pela frente – ninguém muito complicado, como Bortoleto, Arvid Lindblad, Esteban Ocon, Bearman. Encostou nos carros da Williams e passou os dois sem maiores problemas – chegou a tomar um X de Albon, mas devolveu com um Y rapidinho. Na volta 18, já estava em oitavo, depois de superar Sainz.
Com 20 voltas, Norris tinha mais de 3s sobre Antonelli, de novo em segundo. Leclerc vinha em terceiro, trocando chumbo com Piastri. Russell, Hamilton, Colapinto, Verstappen, Sainz e Albon eram os dez primeiros. Max estava numa situação interessante. Todo mundo à sua frente teria de trocar pneus, ainda. Se chovesse depois, a troca para pneus de chuva seria necessária para todos. E ele já estaria lá frente. Se não chovesse, porém, seus pneus chegariam ao final da corrida no osso, deixando-o em situação de altíssima vulnerabilidade.
Russell parou na volta 21. Colocou pneus duros e foi o primeiro a perder posição no box para Verstappen, que por sua vez passara Colapinto e já era o sexto colocado. Leclerc foi chamado aos boxes na volta 22. Não parecia ser uma ideia exatamente brilhante, já que todas as equipes tinham a informação de que dali a três ou quatro voltas começaria a chover. Chaleclé achou o mesmo. “Da próxima vez que tomarem alguma decisão, falem comigo. Eu estou aqui também”, esbravejou pelo rádio. A Ferrari nem respondeu. Max subiu para quinto.





A questão era tentar adivinhar a intensidade da chuva, se ela chegasse. O primeiro a falar sobre o assunto foi Norris, o líder. Na volta 26, reportou “algumas gotas” pelo rádio. Verstappen voava. Chegou em Hamilton e foi para cima do inglês da Ferrari. Passou na volta 27. Era o grande nome da corrida. Antonelli também parou para trocar pneus. Max subiu para terceiro.
Só que a borracha não espera pela água. Na volta 28, Norris foi chamado para trocar seus pneus, porque os médios já tinham ido para o vinagre. Voltou atrás de Kimi, tomando o chamado “undercut”, e perdeu a corrida ali. Piastri parou na 29ª. Verstappen virou líder, mas com Antonelli e Norris nos seus calcanhares, ambos com pneus novos. Aí, de novo, não tem milagre. Os dois ultrapassaram o holandês com facilidade.

Na volta 30, Antonelli, Norris, Verstappen, Colapinto, Russell, Leclerc, Piastri, Hamilton, Ocon e Bortoleto eram os dez primeiros. Colapinto, Ocon e Bortoleto não tinham trocado pneus, ainda. Seu Jorge não conseguiu segurar Leclerc e caiu para sexto na volta 31. Colapinto finalmente parou e voltou em oitavo. Como não tinha caído uma gota d’água sequer até ali sobre o município de Miami Gardens, condado de Miami-Dade, a estratégia de Verstappen de parar no safety-car — depois de rodar sozinho na primeira volta, lembremo-nos — começou a caminhar solenemente para o brejo. No caso da Flórida, para o pântano. Se tivesse chovido na hora certa para a Red Bull, ele poderia até ganhar a corrida.
Piastri e Russell trocaram posições nas voltas 35 e 36, ultrapassagens bonitinhas de videogame. No fim o australiano se manteve na frente. Quem começava a se preocupar era Antonelli, na liderança. Reclamou que não conseguia trocar as marchas direito, com problemas nas borboletas atrás do volante. Norris chegou. Na volta 37, a 20 do final, estava a menos de 1s do bolonhês. Só que Lando, às vezes, dá a impressão de que não está… a fim. Mesmo podendo apertar todos os botões disponíveis para tentar ultrapassar o #12 da Mercedes, o campeão mundial flanava pelo circuito passivamente sem esboçar um ataque. O máximo que fazia era narrar a corrida e alcaguetar Kimi. “Ele está excedendo os limites da pista”, entregou.


Na volta 45, Verstappen foi alcançado por Leclerc. Valia o terceiro troféu do dia. Com pneus bem melhores, o monegasco não quis perder muito tempo. Mesmo sabendo com quem estava lidando, aproximou-se em duas voltas e na 47ª passou. Tomou um repasse – bateria – e na reta seguinte passou de novo. Não foi tão emocionante assim. Mas deve render alguns vídeos no TikTok para provar que a F-1 está maravilhosa.
Max, sem pneus, se tornou uma presa fácil. Logo depois foi ultrapassado por Piastri e caiu para quinto. Em breve seria avistado por Russell. O que aconteceu na volta 54. O tetracampeão resistiu na primeira tentativa de seu Jorge, que também tinha pneus não muito bons. No fim, sucumbiu. E na última volta outra briga boa: Piastri x Leclerc pelo terceiro lugar. O ritmo do australiano no fim surpreendeu a Ferrari. Ele chegou e passou. Charlinho se desesperou, acelerou mais do que devia numa saída de curva, rodou, tocou no muro, e completou a corrida se arrastando, tendo sido ultrapassado ainda por Russell e Verstappen a metros da bandeirada. “Foi erro meu”, assumiu o ferrarista.


Antonelli, Norris e Piastri foram ao pódio. Russell, Verstappen, Leclerc, Hamilton, Colapinto, Sainz e Albon fecharam a zona de pontos. Horas depois da prova Leclerc foi punido e caiu de sexto para oitavo, como já informado lá no alto. Hamilton subiu para sexto e Colapinto, para sétimo — seu melhor resultado na categoria. Bortoleto foi o 12º.
F-1, agora, só daqui a três semanas. Ainda na América do Norte, no Canadá, dia 24 de maio. Neste momento, existe um sujeito que vai ficar noites sem dormir até a prova de Montreal. Seu nome é George Russell. Ele não esperava que aquele garotinho que anda de mochila nas costas e tem bichinhos de pelúcia no quarto fosse tão bom.
Ou talvez até achasse, sim, que um dia o menino se tornaria um grande piloto. Afinal a Mercedes apostou alto no moleque, como fizera com ele mesmo, Russell, anos atrás.
Mas não imaginava que seria tão rápido assim.