Mesmo antes de a Fórmula 1 desembarcar nos Países Baixos, já existia uma sensação de que a McLaren seria a grande ameaça à Mercedes. Isso porque o carro papaia encontrou em Zandvoort um cenário perfeito para mostrar do que realmente é capaz. Os trechos rápidos e sinuosos, bem como a combinação das curvas de média velocidade fazem do modelo MCL40 um foguete. Portanto, a pole de Lando Norris neste sábado (22) não pode ser encarada com surpresa. É uma confirmação de força e favoritismo. Mas é importante dizer: a equipe laranja precisou mudar para obter a performance esperada desde a sexta-feira, e isso deve também se refletir nas 72 voltas da corrida de amanhã.
Ainda que a sessão que definiu as posições de largada da corrida sprint tenha colocado o pole George Russell e o segundo colocado, Norris, separados por apenas 0s041, a prova curta mostrou um cenário preocupante para as ambições da esquadra chefiada por Andrea Stella. É que, mesmo sendo uma pista tão agradável ao carro inglês, o desgaste do pneu médio ao fim das 24 voltas da sprint fez com que o atual campeão não só perdesse contato com o líder Russell, como também a segunda colocação para Charles Leclerc — único entre os ponteiros a escolher os compostos macios. A queda de ritmo ligou o alerta nas garagens do time de Woking, o que motivou uma série de mudanças para a classificação. Alterações essas que ajudaram na conquista da posição de honra.
“Foi uma classificação muito positiva. Não apenas pela classificação em si aqui em Zandvoort, mas porque ela confirma a pole que conquistamos na Hungria. Isso dá um pouco mais de consistência a uma tendência. Vemos que o carro funciona bem em pistas de alta carga aerodinâmica e com pneus macios novos, com muita aderência proporcionada pelos pneus”, começou Stella após Norris conquistar o primeiro lugar do grid.
“Mas preciso dizer que a sprint nos mostrou que era preciso melhorar o carro com pneus usados e no que diz respeito ao desgaste dos pneus usados, se quisermos ser competitivos amanhã”, seguiu. “A ideia era fazer mudanças no carro que alcançassem os dois objetivos, porque, na verdade, depois da classificação para a sprint e da sprint, as necessidades eram semelhantes. Precisávamos melhorar a aderência em baixa velocidade e reduzir a demanda sobre o eixo traseiro.”
“Agora, espero que as mudanças que fizemos ajudem. Nosso desempenho na classificação melhorou, mas vamos ver se isso nos ajuda amanhã na corrida. Definitivamente, temos como objetivo conquistar uma dobradinha no pódio”, emendou o chefão da McLaren.
E isso aí é um grande problema para Mercedes. Em uma pista de difícil ultrapassagem — a sprint deixou evidente que só uma diferença considerável de ritmo é capaz de promover o ganho de posições —, a pole vale muito, portanto. Então, será imperativo que Russell e Andrea Kimi Antonelli pulem à frente no apagar das luzes, na tentativa de frear a McLaren. A favor das Flechas de Prata, está o comportamento dos pneus. O W17 não apresentou problemas específicos de degradação ou de aquecimento. Na verdade, oresultado geral da classificação ficou associado a outros fatores.
Russell tentou replicar a performance do dia anterior, mas Norris o superou nos detalhes — apenas 0s1 separa os dois ingleses na primeira fila. Mesmo assim, o britânico deve oferecer enorme resistência neste domingo. “As temperaturas mais baixas fizeram a pista parecer muito rápida. Tínhamos condições de brigar pela pole, mas estou bastante satisfeito com o segundo lugar, especialmente depois de algumas corridas muito difíceis antes das férias. É bom voltar a encontrar meu ritmo e vou tentar brigar com eles amanhã”, disse George.

Já o líder do campeonato enfrentou mais dificuldades. O italiano cometeu alguns erros em suas voltas rápidas, especialmente no fim, quando escapou no primeiro setor do circuito, o que custou décimos importantes. “Foi uma sessão difícil para mim de modo geral. Senti que estava em desvantagem o tempo todo, e na última volta que fiz cometi um erro na curva 1. Por isso, perdi alguns décimos. Foi um erro meu”, reconheceu Antonelli. “É uma pena, mas ainda está tudo em aberto para amanhã.”
De fato, está mesmo. E a Mercedes provou ter ritmo suficiente — ao menos com os pneus médios e em temperaturas mais baixas. Novamente, a largada será crucial. Não só para o ataque inicial em Norris, mas também para a defesa em relação a Oscar Piastri, que sai em quarto.
Agora, há uma possibilidade de a Ferrari tentar se infiltrar na briga das ponteiras. Embora o ritmo de classificação tenha sido decepcionante, diante do potencial da SF-26 em uma pista menos dependente da unidade de potência, o ritmo de corrida parece mais forte — ao menos foi o que demonstrou Leclerc e até mesmo Lewis Hamilton em determinado momento da sprint. No caso do monegasco, a escolha pelo pneu macio fez bastante diferença. Leclerc foi capaz de manter a temperatura e o desgaste, para atacar Norris no fim, tendo um nível de aderência dos mais interessantes. Até por isso a escuderia decidiu reservar um jogo dos compostos vermelhos para a corrida.
Dois fatores fundamentais tornaram a estratégia possível: primeiro foi a performance no Q2, que permitiu o avanço para o Q3 com pneus usados. Já na parte final da classificação, tanto Leclerc quanto Hamilton completaram duas voltas de preparação para o giro decisivo, em uma tentativa de garantir aderência. O problema foi que, ainda assim, houve uma queda de temperatura. O heptacampeão falou sobre isso após a sessão.
“Em vários momentos, a roda dianteira direita travou, e acredito que isso se deveu principalmente à temperatura dos pneus. Tivemos muita dificuldade para fazer os pneus funcionarem bem, não pareciam estar no melhor no primeiro setor. Foi aí que perdemos a maior parte do tempo, mas depois tudo melhorou no segundo e terceiro setores. Então, fazer apenas uma volta de aquecimento nos exporia ao risco de não termos os pneus prontos para a curva 1 ainda, e mesmo com duas voltas, não tínhamos confiança suficiente para atacar a primeira curva de forma decisiva. Acho que essa foi a principal diferença.”

Resultado: a Ferrari ficou apenas na terceira fila, com Lewis à frente de Charles. O que pode trazer o time italiano para o jogo seja talvez a tática e o uso do pneu novo macio. Essa será a principal decisão de Maranello neste domingo, em uma corrida que deve ser completada com apenas uma parada. “O maio C4 proporcionou o nível de desempenho necessário para Leclerc se aproximar de Norris na sprint, graças a uma aderência superior, sem qualquer queda de ritmo em stints mais longos. As temperaturas relativamente baixas também contribuíram para manter o composto dentro da sua faixa ideal de funcionamento”, disse Dario Marrafushi, diretor da Pirelli.
Mas há ressalvas. “A estratégia mais rápida é uma parada única, começando com os médios e utilizando-os até as voltas 27 a 33, antes de trocar para os pneus duros para o restante da corrida. Uma alternativa, cerca de um segundo mais lenta, envolve começar com os pneus macios, usá-los até o intervalo entre as voltas 26 e 32 e, em seguida, terminar a corrida com os pneus duros.”
Portanto, a Ferrari terá de ousar para entrar na briga ou contar com a sorte. Já McLaren e Mercedes parecem mais sólidos e contam apenas com si mesmas.
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