SÃO PAULO (fazendo hora) – Última corrida de temporada sempre tem despedida de alguém ou de alguma coisa. Hoje, Massa se despede da Ferrari, Maldonado da Williams, Pérez da McLaren, Hülkenberg da Sauber, e possivelmente Di Resta da Force India, Pic da Caterham, Kovalainen da Lotus… E Webber da F-1.
Dessas despedidas todas, algumas não serão muito lembradas no futuro. Afinal, se Pic sair da Caterham, não vai acontecer muita coisa. Pérez deixar a McLaren? E daí? Um ano só, não sabe nem onde fica o refeitório da fábrica. São passagens efêmeras, seja por uma equipe, seja pela categoria.
Mas outras são despedidas mesmo, sérias, que encerram alguma era de alguma coisa, e antes da largada dediquemos algum tempo a elas. Escolhi quatro temas, dois relativos a pilotos e dois a… a coisas. Para cada uma delas, uma foto daquilo que sempre vou me lembrar quando mencionados estes pilotos e coisas.

Webber em 2002: lágrimas pelo quinto lugar.
Começando com Webber, que a partir de amanhã será piloto da Porsche no WEC. Foram 12 temporadas completas, a primeira delas em 2002 pela Minardi. Esta foto aí em cima, de Julian Smith/AAP, é da estreia do australiano em Melbourne, pela Minardi. Ah, a Minardi… Para quem não sabe, é a Toro Rosso, hoje. Foi comprada pela fábrica de energéticos, rebatizada, mas continua com sua sede em Faenza, na Itália, e o espírito garagista de Giancarlo Minardi. Encharcado de lágrimas e champanhe, Mark recebe o abraço de Paul Stoddart, que tinha assumido o controle da equipe italiana pouco antes. Stoddart, empresário meio maluco, dono de companhia aérea, beberrão, fumante, divertido, era uma figuraça. E nessa prova, sua primeira, Mark cravou um inesquecível quinto lugar. Hoje, Webber se despede da F-1 depois de 215 GPs disputados por Minardi, Jaguar, Williams e Red Bull., com nove vitórias e 13 poles no currículo.

Massa em 2006: a maior de suas vitórias, em Interlagos, no primeiro ano de Ferrari.
Depois de oito anos como titular da Ferrari, e 12 como contratado dos italianos, Felipe Massa deixa Maranello e vai para a Williams. Vai ser uma boa mudança de ares. Está feliz porque depois de o time vermelho anunciar sua saída, foi procurado e não teve de procurar ninguém. Lotus, McLaren e Williams quiseram conversar com o brasileiro. Acabou fechando com a tradicional, histórica e decadente equipe de Grove, e segundo consta não vai ganhar muito menos de salário e terá três anos para mostrar serviço — e a equipe idem, porque é preciso que a Williams mostre que é capaz de voltar a ser competitiva. Vai dar certo? Depende do que se considere “dar certo”. A Williams é um time grande de resultados pequenos nos últimos anos. Precisa de dinheiro, claro. Mas tem expertise, know-how, estrutura. Muita gente me pergunta: Massa vai ter chance de ser campeão no ano que vem? Claro que não, digo. Não existem milagres conhecidos na F-1, exceto o da Brawn em 2009, mas esse tem uma boa explicação — a grana que a Honda colocou no carro no ano anterior, antes de deixar a F-1, e a esperteza de Ross Brawn. Mas pode ser que em 2014, temporada em que o regulamento será totalmente novo, alguma equipe se destaque de maneira surpreendente. Pode ser a Williams? Pode, como pode ser a Sauber, ou a Force India, ou a Caterham, ou a Marussia. A rigor, tudo pode acontecer, até a Red Bull despencar. Mas não é provável, todos sabem que quem tem mais grana e capacidade lida melhor com as dificuldades e as novidades. Enfim, só quando os carros começarem a andar será possível dizer algo. Enquanto isso, fiquemos com o momento que mais me marcou da passagem de Felipe pela Ferrari, a vitória de 2006 em Interlagos. Foi bem bonita e emocionante.

Cosworth: dominante nos anos 70 sob gestão da Ford, deixa o palco melancolicamente.
E vamos às coisas, que me são tão caras, também, às vezes mais do que as gentes… Ninguém fala, mas hoje a Cosworth faz sua última aparição na F-1. Presente apenas na Marussia, a empresa não vai participar da nova era turbo. Sai em silêncio, sem um ponto sequer, sem festa de despedida, sem as devidas homenagens. Nos anos 60, mas principalmente nos 70, era O motor da F-1. Quem quisesse ganhar corrida tinha de recorrer à Cosworth. Mudou de dono, foi vendida, comprada, faliu, voltou, mas sempre esteve por aí. Agora, não estará mais.

V8: desde 2006, o motor que a F-1 escuta, e que hoje ficará em silêncio.
Por fim, os V8 aspirados. Eles foram adotados como padrão, numa configuração de 2.400 cc de cilindrada e construção em 90°, a partir da temporada de 2006. Hoje, a exemplo da Cosworth, silenciam na categoria. Será o fim de uma era e o início de outra. A partir do ano que vem, a F-1 passa a usar motores de 1.600 cc, V6, turbo. Sons diferentes, maior economia de combustível, maior eficiência, essas coisas. Muita gente lamentou o fim dos V10, achando que os V8 teriam um ruído semelhante ao de um motorzinho de dentista. Não foi assim, e nos acostumamos. Acho que vamos nos acostumar aos novos, também.
A Renault divulgou dados sobre estes oito anos de V8 que merecem uma olhada. Afinal, os franceses foram os grandes vitoriosos desta era que se encerra. Vejam:
- 59 vitórias
- 66 poles
- 55 melhores voltas
- 3.665,5 pontos
- 5 títulos de construtores
- 5 títulos de pilotos
- 40% das vitórias da era V8
- 6 pilotos venceram com seus motores
- 4 equipes ganharam corridas com eles
- maior potência alcançada: 750 HP
- regime de rotação (2013): 18.000 rpm
- peso: 95 kg
- 1.271 motores construídos, sendo 683 para uso em pista e 588 para dinamômetro.
- cerca de 2 milhões de km percorridos
- cerca de 5 mil componentes por unidade
- cerca de 7,6 milhões de peças usadas
- 21,8 mil pistões
- 43,2 mil válvulas de admissão
- 45,9 válvulas de escabe
- 43,8 bielas
- 22 mil velas
- 10,6 mil filtros de óleo
Farewell para todos.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.