
O Box 20, da LF: emprestado para a Caterham, última colocada de 2013.
SÃO PAULO (já foi melhor, mas poderia ser pior) – Ali no cantinho esquerdo da foto, ao fundo, onde se vê algo que parece uma mochila preta, é uma pia com uma bancada de granito. Ali eu costumo deixar minha bolsa do capacete, a do macacão e a mochila do computador, bem encostada no canto da parede, para não molhar quando alguém precisa abrir a torneira por algum motivo. Debaixo da bancada ficam outras bolsas e mochilas, depende de quem chega na pista primeiro.
Numa daquelas quatro tomadas espeto o carregador do celular. É nesse cantinho, protegido por uma divisória coberta com um “canvas” azul onde se lê LF Competições e os nomes dos pilotos da nossa equipe, é que me troco, e numa mesa de lata, dessas de bar, às vezes ligo o laptop para escrever umas coisas, postar umas fotos, atualizar o blog quando coincide uma corrida das nossas com a F-1. Acontece, às vezes.
O Box 20, neste fim de semana, foi da Caterham. Todos sabem que é nosso, e emprestamos para a F-1 uma vez por ano. A Caterham terminou a temporada na última posição e por isso merece toda nossa solidariedade. Meianov sabe bem o que é isso.
Dei o passeio de sempre pelos boxes no fim da feira, como sempre faço. É inacreditável que essa zona toda volte para a Europa sem que percam alguma caixa, um pneu, quem sabe até um motor ou um carro inteiro. Não invejo os mecânicos da F-1. O trabalho é muito pesado, não o trampo de mexer nos carros e deixá-los prontos para correr. Duro mesmo é montar e desmontar tudo, 19 vezes por ano, na correria, na pressa para voltar para casa.
Eles têm casa, mas dormem nas suas camas cada vez menos. O aumento do calendário fez com que as equipes tivessem de contratar mais gente, porque nem todos vão a todas as etapas do ano. Ninguém aguenta.
É o lado bom dessa F-1 inchada, afinal. Dá mais emprego, pelo menos. Amanhã cedo não vai ter mais quase nada aqui. Só os restos mortais de mais uma temporada de Fórmula 1, o máximo que o automobilismo consegue produzir. Depois, o Box 20 volta para a gente, para o Meianov, o Karmann-Ghia do Mauro, o Bianco do Peixoto, o Puma do Gulla, o outro Puma do Paulo, nosso carrinhos que, no fundo, no fundo, são os astros da festa.
Já escrevi coisa parecida anos atrás, o box que emprestamos à F-1, na época era o 21, e tinha ficado com a Bridgestone, ou com a Michelin. É tema recorrente, afinal, porque de fato, sempre que termina um GP em Interlagos, dou um pulo no meu box para saber se está tudo no lugar.
A pia continua lá, as tomadas também. É o que temos.
Até a próxima.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.