SÃO PAULO (deu, né?) – Eu vou é comer uma pizza. Várias. Bem, ninguém falou nada de extraordinário depois do banho turco de Button. Nem Gola Profonda telefonou. Não mesmo. Não havia nada a dizer na Ferrari. Quem sabe durante a semana. Parece que ele vai se encontrar do Ronaldo Denysson, ambos terão o que contar sobre as “ex-grandes” em que trabalham.
Pincei uma ou outra frase dita aqui e ali, de qualquer forma, e vou negritar os autores para facilitar a busca. Hamilton, por exemplo, falou que gostou dele mesmo na corrida. Oh, meu ego. E que, agora, só lhe resta ajudar a McLaren a sair da merda e a não fazer mais merda ainda em 2010. Falou com outras palavras, mas o sentido era esse. Com as suas, disse: “Quando a equipe me der um carro vencedor, eu vou vencer”. Oh, meu ego. Por fim, deu uma de Collor. “Não me deixem só!”, pediu aos seus torcedores, já de olho na “buttonmania” (tem hífen isso?) em Silverstone.
Norbert Haug acha que Button e a Brawn (não citou Barrichello) “estão numa liga diferente”, e tirou uma casquinha da McLaren, a quem presta serviços, mandando abraços e beijos à Brawn, que usa seus motores. “Nossos clientes continuam muito satisfeitos.”
Stefano Domenicali mostrou espanto. “Como é que nosso carro muda tanto em três dias?”, perguntou-se, olhando o espelho. Pois é. “No sábado estávamos bem de manhã e mal à tarde. Na corrida, o máximo que dava era o sexto lugar”, foi o que disse Massa. Pois é. Não tenho respostas. Nem eles.
Alonso reclamou do carro e pediu mudanças “urgentemente”. Nelsinho atribuiu o mau resultado à classificação, “quando minha sorte foi definida”. Webber e Vettel, esses sim, tinham o que comemorar. Não ficaram tristes com a vitória de Button. Falaram que a Brawn estava “em outro planeta”. Vettel, como se imaginava, não ficou choramingando pelos cantos por ter parado três vezes, contra duas de Webber. “Talvez com duas desse para chegar em segundo, mas eu errei no começo e por isso o Jenson me passou. Não iria mudar muita coisa.”
E o que mais?
Barrichello, claro. “Tudo está acontecendo comigo”, foi mais o menos o que disse, à BBC. Queixou-se da embreagem na largada, do limitador de giros nas retas, do KERS de Kovalainen quando tentou ultrapassar, do câmbio no final, quando abandonou no momento em que iria levar uma volta de Button. Hum… Ao contrário do que alguns blogueiros disseram, a Brawn não “admitiu” defeito na embreagem. Ross Brawn disse que “houve um problema” de embreagem na largada. Claro que houve. Barrichello não conseguiu fazer a embreagem funcionar direito e ficou empacado no lugar. Pode ser um problema técnico? Pode. Pode ter sido erro do piloto? Pode. Até agora, isso não aconteceu com Button. E aconteceu duas vezes com Rubens, uma na Austrália, outra na Turquia. Os sistemas são idênticos. Não existe uma embreagem “Barrichello Pro” e outra “Button Plus”.
Assim, que cada um pense o que quiser.
E vou às pizzas.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.